Chamada v. 22, n. 40 (2020): Revista Brasileira de Literatura Comparada

Epica e modernidade. Espaços, limites e transgressões de um gênero clássico em renovação

A partir da modernidade literária inaugurada com as estéticas da originalidade próprias do Romantismo, a poesia épica passa a ocupar uma posição contraditória, em que a crítica à normatividade que caracterizava o gênero convive com o alto grau de canonicidade a ele atribuído pelas literaturas nacionais em ascensão. Conservando o sentido básico de narrativa sobre feitos heroicos relevantes para uma coletividade, a épica sobreviverá transformada ou dissociada do verso: a partir de Ossian e Chateaubriand, temos a incorporação de novas e radicais possibilidades formais que redesenham os limites do gênero, abrindo-o para o uso da prosa. Com essa abertura, o romance histórico se apresenta como sucessor (ou substituto) do poema épico, sobretudo na medida em que a ação heroica que esse representa está, na sua forma mais tradicional, associada a uma dimensão do maravilhoso pouco convincente para o leitor do século XIX.

No Brasil, esse será o momento para a ascensão de José de Alencar, que, após condenar Gonçalves de Magalhães por não obedecer às normas do gênero, renova-o por meio da publicação de romances históricos, visando abranger o Brasil na sua totalidade geográfica e diversidade cultural. Nas obras de Magalhães e Alencar, encontram-se dois modelos de relato fundacional, em que a representação do momento da origem da coletividade nacional tem evidente apelo identitário, confirmando o estatuto do texto épico como, em última instância, uma reflexão sobre o presente. Do outro lado do Atlântico, Almeida Garrett busca a renovação formal do poema épico para propor uma representação da figura de Camões que corresponde, em grande medida, a uma mobilização identitária correlata à dos brasileiros.      

Seguindo a tradição épica, a busca do momento de fundação ou inflexão relevante da história da coletividade nacional é complementada por intermédio do esforço de representar a totalidade da experiência histórica e geográfica da coletividade, na composição de amplos painéis e catálogos descritivos. À medida que o século XIX avança, amplia-se o horizonte dessa totalidade: ao lado de textos em que o âmbito nacional se inscreve de maneira ambígua em narrativas universalistas (como o Colombo, de Araújo Porto-Alegre, o Guesa, de Sousândrade ou A morte de Dom João, de Guerra Junqueiro) introduzem-se, na virada do século, as assim chamadas “epopeias da humanidade” de Teófilo Braga ou Gomes Leal. 

Tendo como pano de fundo esse panorama fértil e mutável, este volume da Revista Brasileira de Literatura Comparada propõe, além de buscar evidenciar as transformações por que passou a épica enquanto discurso totalizador em verso ou em prosa, examinar como se verificam as apropriações e transposições de fronteiras entre os gêneros literários, qual é o diálogo em termos de afirmação ou contraposição que se estabelecem entre as produções literárias realizadas, como se dão os deslocamentos de tempo e de geografias no contexto das literaturas lusófonas.

Organizadores: Roger Friedlein, Ruhr-Universität Bochum; Marcos Machado Nunes, Ruhr-Universität Bochum; Regina Zilberman, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Prazo para envio dos originais: 05 de março de 2020