MARTINS, Geovani. O sol na cabeça: contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. 119 p.

MARTINS, Geovani. O sol na cabeça: contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. 119 p.

Samanta Samira Nogueira Rodrigues[1]

[1] Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras d Universidade do Estado do Rio de Janeiro.


Do cenário da atual produção literária brasileira, pego emprestados os treze contos que compõem O sol na cabeça[2], de Geovani Martins, para um exercício que conjuga muros, tentativas, espaços delimitados, céu, silêncios e estudos presentes nas narrativas, e que conduzirá nosso trânsito por elas[3]. Proponho então seguirmos por um dos gestos que, de diferentes maneiras, está presente em todas as histórias: o olhar, mais especificamente em suas enunciadas localizações, as periferias, as margens da cidade do Rio de Janeiro. Para isso, imaginemos um só lugar, que nos contos são vários, e, igualmente, um só personagem, que também são vários, dono do gesto em questão e que nos acompanhará durante a leitura, como quem nos convida para um passeio, para uma conversa.

Entendo que os enredos possam nos impulsionar a unir as mãos daqui com as de personagens de outras obras literárias, ou a trazer leituras relacionadas ao espaço desenhado, entretanto, para o exercício aqui proposto, nos ateremos somente a'O sol na cabeça. Outra observação importante à nossa leitura é sobre a linguagem coloquial adotada para a escrita dos contos. A depender da narrativa, ela é composta, com maior ou menor ocorrência, pelo uso de gírias e desvios gramaticais. Embora as normas para escrita de trabalhos sugiram a inclusão do termo "sic" entre colchetes na sequência desses casos, devido a quantidade de citações e pela fluidez importante à leitura, opto aqui por não fazer tal uso. Dito isso, sugiro como ponto de partida a cidade, assim estruturada:

As pessoas costumam dizer que morar numa favela de Zona Sul é privilégio, se compararmos a outras favelas na Zona Norte, Oeste, Baixada. De certa forma, entendo esse pensamento, acredito que tenha sentido. O que pouco se fala é que, diferente das outras favelas, o abismo que marca a fronteira entre o morro e o asfalto na Zona Sul é muito mais profundo. É foda sair do beco, dividindo com canos e mais canos o espaço da escada, atravessar as valas abertas, encarar os olhares dos ratos, desviar a cabeça dos fios de energia elétrica, ver seus amigos de infância portando armas de guerra, pra depois de quinze minutos estar de frente pra um condomínio, com plantas ornamentais enfeitando o caminho das grades, e então assistir adolescentes fazendo aulas particulares de tênis. É tudo muito próximo e muito distante. E, quanto mais crescemos, maiores se tornam os muros.[4]

A quinze minutos do que o narrador chama de asfalto, sinônimo para o panorama desenhado, ou a quase duas horas, como em outros contos do livro, há um olhar que se defronta com o que, sobretudo durante os dias sempre movimentados, especificamente na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, fica escondido: ratos, fios de energia elétrica e armas de guerra. Notemos que para sair do beco os gestos que o acompanham não envolvem nada menos do que esforço: dividir, atravessar, encarar, desviar, ver amigos de infância como ele vê ou saber do que aconteceu com o menino que fumava maconha em cima de uma laje, único lugar permitido pela polícia, na época em que a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) invadiu o morro[5]. Havia também um acostumar-se desde sempre a ver crianças envolvidas com o tráfico e são tantas que para o personagem o sentimento de pena surge e passa muito rápido[6].

Quando finalmente chega ao asfalto, seu gesto sugere passividade, ao assistir adolescentes durante as aulas particulares de tênis, em um cenário enfeitado por plantas, enquanto os muros crescem. Ao olhar que permeará nossa leitura, acrescento um lugar igualmente presente nas narrativas, contestado pelo narrador e por ele enunciado na supracitada transcrição: "o abismo que marca a fronteira entre o morro e o asfalto"[7]. Antes, porém, de chegarmos ao próximo-distante do lugar de muros já altos, comecemos pelo menino, porque a maquete acima resulta, como veremos, de uma formação que pode ter sido iniciada em sua infância, desde as noites de macumba, quando "tudo ganha mistério: o barulho do bambuzal, as águas correndo, as sombras, as vozes, o eco de todas as coisas."[8]

Foi com as brincadeiras de desafiar para ver quem mais se aproximava da casa de dona Iara, "bem pretinha, bem velhinha, os olhos cor de mel", e "quem sentia mais forte o cheiro de macumba, quem ouvia mais alto o barulho dos ratos, morcegos e bambus rangendo do outro lado do valão", que ele aprendeu o olhar de cumplicidade que dispensava palavras, com os amigos que junto com ele tremiam de medos sinceros, nos momentos de aproveitar os terrores da primeira infância.[9]

No dia em que dona Iara foi rezar um de seus amigos por uma febre que não cessava aconteceu algo que só o olhar bastava ao seu encerramento. A família de seu amigo "quase toda já tinha virado crente" e a reza aconteceu então sob o coro de "Aleluia!", "Glória ao Pai!", "Só o Senhor é Deus". Após o gole de cachaça que foi tomado por todos, "os parentes, espalhados pelos cantos da sala, ficaram longo tempo olhando uns para os outros, selando em silêncio o pacto de nunca comentar na rua o que aconteceu naquela noite. O Matheus só contou pro Ruan, que não contou pra ninguém."

Quando dona Iara adoeceu, precisou olhar com atenção, seguindo o conselho de sua avó, e fez o que naquele momento ele imaginava ser tudo que poderia fazer. Olhou para os santos que tinham em sua casa, num sincero sentimento de tentar acreditar que eles poderiam ajudar:

Olhava para a imagem [de Nossa Senhora Aparecida, que parecia com dona Iara] e as palavras não saíam. Tornou a olhar pra São Jorge, dessa vez percebendo sua armadura, o jeito com que dominava o dragão, e teve a certeza de que aquele santo, que com apenas um cavalo e uma espada era capaz de matar um dragão de verdade, poderia então fazer qualquer coisa nesse mundo.[10]

Já em casa, ainda com os "olhos cansados", a velhinha contou histórias sobre como era a rua de outrora, o rio antes de ser valão, as festas e histórias de alguns orixás aos meninos que chegaram mais perto de sua casa do que antes, em suas brincadeiras. As tantas histórias fizeram parecer "até que os três assistiam a um filme na televisão". A partir daqui, para nosso personagem, as brincadeiras de chegar perto do cheiro da casa de dona Iara continuaram a acontecer, mas com um medo fingido. Ele ainda não sabia, mas acionaria esse mesmo provocado olhar de medo, num cenário, porém, distante dessas noites de mistério.

Se quando adulto ele disse até entender o sentido de as pessoas dizerem que morar em determinado morro é privilégio, ainda criança ele só sabia que "o azar é daqueles que não têm janela na cozinha"[11]. Aos nove anos de idade, da enorme janela da sua cozinha, que antes era quarto, mas para ele sempre foi cozinha, acompanhou uma borboleta com os olhos e com ela aprendeu que "homens não voam"[12]:

Nas aulas, nas missas, nos almoços de família. Estava sempre longe, fantasiando tudo com a mesma paixão e a mesma urgência. Só nas férias não sentia necessidade de ficar sonhando acordado. Preferia manter os pés no chão, correr bem rápido, sentir bater forte o coração.[13]

Um dia à noite uma borboleta entrou na cozinha do menino e ali aconteceu algo que, talvez resultado da grandiosidade das já citadas noites de macumba, estrutura o constante exercício de olhar do personagem, algo construído até chegar o momento que inicia este trabalho, no qual o já rapaz desenha o caminho para a sua saída do beco[14]. Por ora, voltemos à cozinha, ao menino e à borboleta: mesmo com toda a tentativa para que ela saísse, ela caiu numa panela de óleo.

[...] ela nadava pelo óleo lentamente. Quis tirá-la de lá, mas nunca colocou a mão no óleo antes. Só queima se estiver de fogo aceso, tinha quase certeza. Correu até o papel-toalha e tirou a borboleta de dentro da panela. Olhou-a com atenção: toda coberta de óleo. Todas as partes do seu corpo de inseto. As asas pingavam óleo pela cozinha. Agora tinha certeza: só queimava se tivesse ligado o fogo. A borboleta se mexia muito. Tratou de colocá-la em cima da janela.[15]

Ele voltou a se imaginar borboleta, mas dessa vez, como ela, mergulhada no óleo, mas em uma panela que o coubesse. "Lambeu o dedo que havia colocado na panela pra imaginar melhor seu corpo no óleo. Não gostava [...] mas não conseguia evitar". O gosto era ruim e a sua grande preocupação passou a ser a de não ficar cego, como sua avó disse que aconteceria se o "pozinho da borboleta batesse no olho"[16].

Como sabia que não voaria como borboleta, seu sonho passou a ser o de voar como "piloto de avião ou jogador de futebol" e pode ser que parecesse com os sonhos de alguns dos "moleques do colégio particular", pelos quais ele passava em seu caminho para a escola, que ficava na mesma rua.

Ainda sem saber o que o acontecia, foi por olhar para esses meninos e para as velhas que seguravam mais fortemente suas bolsas e atravessavam as ruas quando o via passar com seus amigos, que ele aprendeu que era capaz de fazer as pessoas tremerem. Nesse momento já não era o tremer de medo como nas brincadeiras de chegar no portão de dona Iara, muito menos um medo fingido. Ainda aqui, isso o chegou a fazer graça e até a gostar da sensação, porque em sua escola ninguém tinha medo do seu "bonde", menos forte, menos corajoso e menos violento que os demais[17].

O menino não era considerado bom de briga, nem dos melhores em futebol, bola de gude e pipa, como os que "nunca deixam de olhar para o céu, nem mesmo quando ela fica contra a luz do sol"[18] e sabia disso. Também não era dos mais engraçados e "às vezes sentia que, se sumisse de vez, ninguém na sua rua ou na escola sentiria falta"[19].

Seu querer nesse instante já era o de ser visto e junto a tentativa de suprir esse acreditado não ser, tinha a terceira gaveta da cômoda, que guardava o revólver do trabalho de segurança de seu pai, que rendia mais dinheiro do que o do posto de gasolina. Num ritual diário de corpo trêmulo, coração disparado e um não respirar diante dos movimentos de quase acordar de seu pai, o menino sentia o peso do trinta e oito, analisava cada parte, o encostava em seu corpo e o imaginava em ação. Era incrível, mas ainda não o bastante.

Quando chegou à rua, todos quiseram brincar com ele de "polícia e ladrão" e isso o fez sentir que "era bom viver assim" e desejou que tudo aquilo não acabasse mais, a "admiração no olhar dos colegas, a atenção que recebia por tudo que fazia"[20] e pensava em "como seria bom se conseguisse alcançar isso também na escola"[21]. Ele, que geralmente ele era o ladrão nas brincadeiras, porque achava menos divertido correr atrás dos outros, ali, com aquela arma, queria perseguir, apontar, apertar o gatilho "e simular com a boca o som das balas que rompem o cano pra caçar o seu destino"[22]. Não sabemos se nesse momento ele já imaginava que mais tarde estaria na posição, por mais de uma vez, de quem poderia ser o destino. Os pensamentos de felicidade duraram até seus olhos se encherem de lágrimas, diante do próximo encontro com o pai[23].

Com quase doze anos de idade saiu da escola na qual tinha repetido um ano e muito animado fez planos diante da iminente mudança. Os "moleques de lá" eram conhecidos por ser "neuróticos [...] toda semana tinha porrada contra o bonde"[24] de outra escola, mesmo que depois de tanto tempo ninguém mais conseguisse explicar o motivo de tal rivalidade. O que o importava era que naquela escola ele poderia "fazer seu nome", receber "o respeito de que precisava" dos "moleques mais velhos", para não ser "zoado de pirralho"[25].

Foi em meio às pipas, bolinhas de gude, pião e "golzinho reunindo a galera toda quando caía a noite"[26], que ele sonhava com o seu quase primeiro dia de aula. Decidiu que entraria na primeira briga para defender a escola, mesmo sem gostar disso ou, como sabemos, sem ter alguma habilidade para tal. Outra medida necessária à sua iniciação para receber o tal respeito necessário foi deixar em casa todo o material comprado por sua mãe, afinal "ter um estojo, sentar na frente, responder as perguntas do professor, são péssimas ideias para quem pretende ser respeitado na escola", bastando, assim, um "caderno do Flamengo e uma caneta Bic"[27].

A aula de francês não o interessou, porque não era inglês, que "todo o mundo diz que dá dinheiro, [...] a língua que falam os personagens dos jogos preferidos da rapaziada" e que seria importante também para o fazer ser convidado por todo o mundo para jogar. Até o momento em que atentou para o que acontecia através dos "buracos redondos na parede que serviam de janela", dedicava seu tempo de aula à "monocelha do professor". Além da quadra "com cobertura e tudo [...], até mesmo um vestiário para tomar banho", viu duas garotas fumando escondidas e se sentiu cúmplice delas naquele momento, algo que o fez acreditar em seu amadurecimento "diante da vida nova"[28] .

Durante o intervalo dedicou-se a olhar para cada um dos alunos da oitava série, de forma a "fazer a expressão mais dura possível [...], parecer perigoso e imprevisível"[29], como sabemos, gesto necessário à sua desenhada chegada na escola. O passo seguinte e definidor daquele futuro foi o de passar pelo primeiro teste. Luzes apagadas, banheiro vazio, porta fechada, ele "respirou forte, olhou no fundo dos olhos do espelho e fez a oração: loura do banheiro, loura do banheiro, loura do banheiro".[30]

As leituras do personagem são também estruturadas em seus campos de observação. Nesse momento, ele figura como o narrador de três histórias próximas às suas. Nas duas que seguem, elas se encontram com as dele pela necessidade de ser visto, vivida pelo menino que para tanto precisou do revólver de seu pai e que, em outra situação, sendo visto, tentou mostrar dureza com o olhar.

O primeiro personagem observado trabalhava para o tráfico e mesmo depois um ano não havia disparado nenhum tiro, algo que o abalava, por saber que sem isso "não ia ganhar moral na firma nunca"[31]. Quando saía "doidão" do baile, numa continuidade de gestos necessários à sua imaginação, "ficava fingindo que palmeava[32] os becos [...] apontando pro invisível"[33]. Da imaginação aos fatos, é o olhar da sua mãe quem entra em cena, como se questionasse o que se sucedeu[34].

Já o segundo personagem, parecia empenhado em constantemente afirmar sua decisão de ter parado de pichar muros. "No ônibus, buscava outras distrações que não fosse olhar pela janela: lia livros, jornais, mexia no celular, acompanhava o horóscopo nas TVs de propaganda"[35]. Movimento necessário a quem sente a necessidade de ter seu nome em marquises, beirais e janelas, assim explicado:

O rabisco tem a ver com a eternidade, marcar sua passagem pela vida. Fernando, assim como a grande maioria das pessoas, sentia a necessidade de não passar batido pelo mundo, e quando viu já andava com todos os pichadores de sua rua. Era muito louco desvendar os mistérios da arte proibida, ouvir as histórias de nomes que sobrevivem na cidade há mais de vinte, trinta anos, e que com certeza, mesmo depois de apagados ou derrubados os muros, sobreviverão na memória. Queria entrar para a história desse jeito, ser lembrado e respeitado pelas pessoas certas. Essa sempre foi sua maior motivação [...]. Queria mesmo marcar sua cidade e seu tempo, atravessar gerações na rua, se transformar em visual[36].

O outro aqui assume duas funções, uma por fazer coro a sua desejada fama, individualizando-o dos demais pichadores, gesto que o torna, para as "pessoas certas", um nome; a segunda compreende um movimento que se distancia da primeira, ao despir o pichador da eternidade e do respeito nos moldes por ele acreditados, transformando-o em um algo só: "quando viu, já subia na direção do terraço do prédio assustado pela mulher apavorada que gritava: 'Pega ladrão'"[37]. Ele sabia que "pra quem veste a capa da justiça, nesse tipo de situação, o pichador e o ladrão têm quase sempre o mesmo valor e o mesmo destino"[38] .

A percepção de nosso personagem desse um em meio a todos só é possível por um espaço de silêncio encontrado nas narrativas e que o permite desenhar cenários e situações edificantes de seu campo de observação. Para exemplificar, tomemos sua apresentação de um homem que era cego, não por causa do pozinho da borboleta, medo do nosso personagem ainda menino, mas porque nasceu assim. Seu Matias "nunca viu o mar, armas ou mulheres de biquíni" e mesmo assim andava "por todos os lados como se vivesse num mundo feito para gente como ele. Gente que não vê, mas escuta, cheira, toca, sente e fala"[39].

Para Seu Matias a fala era instrumento de trabalho, desenhado em um ônibus e ritmado pelas "moedas chacoalhando no copo de Guaravita" e pela "bengala de alumínio batendo sempre da esquerda e depois pra direita no chão do coletivo" e cujo objetivo era o de tocar o coração das pessoas, algo que nosso narrador sabia que dependia do dia dos "possíveis patrocinadores [de seu Matias]. Se é começo ou fim de mês, se estão bem ou mal alimentados, se creem ou não em Deus, se estão expostos à sensibilidade ou armados contra o que vem de fora"[40].

A fala era instrumento de trabalho e abrigava também alguma forma de ele conseguir ver o mundo. Na sequência, duas descrições que pela riqueza, completude de detalhes e potencial para emocionar, pelo movimento que nos conduz, seguem na íntegra:

Quando pequeno Matias não suportava a companhia de outras crianças, tagarelando sobre tudo numa velocidade absurda, atropelando os assuntos, embolando as vozes, sobrepondo imagens; as palavras voavam sempre pra muito longe. Por esse motivo preferia conversar com os velhos, esses sempre tinham paciência pra tentar explicar detalhadamente a forma de cada coisa, de um jeito tão cuidadoso como só mesmo a solidão dos velhos permite. O céu, os rios, os ratos, a chuva, as pipas no alto, o arco-íris, tudo isso que é dito sem pensar no passar dos dias.[41]

Seu Matias, tal como o nosso personagem quando menino, carece de pausa diante da velocidade da infância, mais tarde nomeada por algo como correrias da vida adulta. Nesse sentido, talvez todo o exercício que façamos de pensar seja justamente na direção de resgatar o que voa sempre para muito longe. No caso do ainda menino Seu Matias, esse movimento o levou a aprender os caminhos do morro e assim se deu:

passou então a brincar sozinho pelas vielas, como alguém que deixa os olhos entreabertos pra fingir que não enxerga, ouvindo a vida que corria em volta, sentindo o cheiro do perfume das mulheres, da maconha dos rapazes, dos almoços e das valas, satisfeito por descobrir suas próprias narrativas e não precisar dividir nada disso com ninguém[42].

Tudo o que podemos saber sobre Seu Matias vai até um momento de silêncio, no qual ele e um rapaz, antes menino em parte de suas histórias, se encontram "num papo angustiante em que não se olha no olho"[43].

Na construção das narrativas criadas pelo personagem que caminha conosco nesse itinerário de atenção ao olhar, voltemos aos buracos que são janelas em sua escola: "O que estaria fazendo quando chegasse aos vinte anos de idade? Seria um empresário, jogador de futebol, paraquedista?"[44]

Antes disso, começou a trabalhar na Barra da Tijuca como boleiro ajudante de um professor de tênis que morava em cima de sua casa, para ajudar nas despesas do lar, mas antes porque sua mãe descobriu que ele estava fumando. Ele gostava da sensação de ajudar pela primeira vez com as compras do mercado e, por conseguinte, perceber a transformação no olhar recebido de sua família. O trabalho exigia que ele saísse muito cedo de casa, porque das seis às dez da manhã a Avenida Niemeyer só funciona no sentido Leblon - questão para outras conversas. Havia, entretanto, algo que o fazia esquecer de tudo de bom que significava esse trabalho. Sob o sol que esquentava a sua cabeça, estava diante da "obrigação de servir gente que nem olhava na [sua] cara."[45]

Podemos dizer que aqui se inicia o "tudo muito próximo e muito distante"[46] presente na primeira citação deste trabalho - página 2 - e que acompanha o muro que nesse momento já é alto.

nessas horas eu queria nunca mais depender de ninguém nessa vida. Passei a odiar todos eles. Tanto os mais velhos quanto os mais novos, a esses odiava ainda mais. Ficava correndo atrás das bolinhas, imaginando as respostas que gostaria de dar pras merdas que eles falavam e que eu era obrigado a ouvir. Tudo me irritava neles, o jeito que andavam, falavam, riam, tratavam os funcionários, mas o que eu mais detestava era quando reclamavam dos seus problemas: minha empregada faltou hoje, meu carro teve que ir pra oficina, não aguento mais fazer aula de inglês, o cachorro do vizinho latiu a noite toda[47].

Talvez sejam os mesmos meninos pelos quais ele passava em sua infância, a caminho da escola, quando ainda não sabia o nome da distância que já havia entre eles[48]. Na escola de depois do trabalho, esquecia o corpo que tremia dessas raivas.[49]. Além dos amigos, ela era o cenário para que ele se sentisse "o máximo", por parecer que as pessoas paravam para o ver chegar, por seu conquistado "tênis Nike", para o qual ele "ficava olhando [...] toda hora, vendo a sola tocar no chão, vibrando de felicidade"[50].

Assim como na escola, a lembrança do trabalho permanecia apenas sobre a parte que ele dizia ser boa: "dinheiro no bolso, comida no prato, não precisava lavar a louça." Aconteceu de um dia responder rispidamente um aluno do condomínio, com idade aproximada da sua, que, por sua vez, o respondeu com um olhar assustado de quem parecia não acreditar na coragem de nosso personagem, que confessou também não ter acreditado[51]. Mas o que o doeu mesmo foi o professor ter parado de falar com ele.

Um trabalho na "rua da Carioca, bem na esquina, um pouco antes de chegar na Praça Tiradentes", das oito às quatro da tarde lhe rendiam diários trinta reais pela entrega de papéis e por quase um ano passou a ser mais um campo de observação para ele. Há aqui um algo bom enunciado pelo personagem, o silêncio, importante como a pausa necessária, de diferente forma, também presente na história do Seu Matias[52]. Assim, em seu novo trabalho não precisaria falar com ninguém, algo que lhe dava tempo para "ficar pensando, planejando [suas] coisas, imaginando o futuro"[53].

Os não olhares presenciados no condomínio também se repetiam nas ruas, mas antes de aprender esse acontecimento, ele iniciou o trabalho com muita vergonha, pensando ser olhado com pena ou raiva. Depois tentou fazer contato visual quando alguém se aproximava e entendeu que aquelas pessoas preferiam que ele não existisse. Com o tempo, ele inferiu: "o problema é que eu levava os olhares para o lado pessoal. Demorei a entender que aqueles olhares, independente do significado, não eram pra mim, eram pro entregador de papel. E esse não sou eu, nem ninguém." Fato por ele comprovado, como em um experimento, pelo passar despercebido também da menina que ele andava desenrolando na internet.

Essa transfiguração do eu em ninguém é um movimento pelo qual o personagem parece muitas vezes tentar combater, se observarmos, desde os contos dos meninos de sua infância. Em razão disso, as subsequentes e inúmeras tentativas de ser visto. Esse apagamento do indivíduo é o responsável, em uma das narrativas, por desenhar uma transformação pela qual cada pessoa que voltava do trabalho, da escola, que descia do trem e se reunia em seus trilhos para consumir drogas, passava, a de tornar-se "um único monte de viciado", sem nome nem rosto.[54]

Ainda pensando que seria visto e julgado, houve um tempo em que ele não fumava maconha na rua, mas nisso de aprender, continuou a descobrir que "ninguém olha a gente na rua. Nossa dor, nosso vício, nosso vexame, é tudo muito distante dos outros"[55]. E próximo a ele e por isso e por tudo, conseguia ler olhos que "escorriam lágrimas de verdade", como os da mulher "fumando [crack] num copo de Guaravita", enquanto ele fumava maconha naqueles trilhos. Ele sabia inteiramente que o que acontecia com ela não mudaria, que "a favela nunca mais volta a ser a mesma"[56] depois dessa droga, por ser impossível ter o controle sobre ela.

Igualmente, os traficantes entendiam isso e a proibição do consumo de crack era uma lei também feita por eles, que um dia chegaram aterrorizando a todos que estavam naquela linha. Nosso personagem, que a ocupara naquele momento, entendeu, no entanto, que pelo fato de haver pessoas num bar do outro lado do muro, os ameaçados tiros não seriam disparados. Assim, toda sua tensão naquele momento voltou-se para o essencial exercício de "manter o pavor nos olhos como sinal de respeito" porque "não era hora de exibir confiança, não podia, de maneira nenhuma, deixar escapar o sorriso de deboche" advindo de sua percepção de que toda aquela ameaça não seria consumada[57].

Essa manipulação do olhar resulta de um exercício praticado desde sempre pelo personagem e que é formado também por sua percepção sobre os olhares recebidos por outrem. A consciência sobre esse gesto o leva, em outro conto, a tentar, diante do sentimento de ciúmes por sua namorada, "não comunicar nada com olhar", mesmo admitindo ser "impossível não olhar o milagre que é uma mulher tirando a roupa". Na mesma ocasião, teve a oportunidade de presenciar a devoção com que o gringo que os hospedava olhava para as duas cartelas de ácido que ele havia levado para a casa do anfitrião e, logo depois com a cocaína já presente na casa: "Seus olhos brilhavam diante do prato. Era quase deprimente, mas existia dentro dele uma felicidade e plenitude em realizar aquele trabalho que o mantinha digno em seu exercício[58]". Esse momento, aliás, o fez pensar que ali não era apenas um zé droguinha, mas alguém que propiciou toda aquela cena.

De volta e depois de uma semana de trabalho na mesma "rua da Carioca, bem na esquina, um pouco antes de chegar na Praça Tiradentes"[59], foi com uma ".40 [o] encarando de frente"[60], nem pela primeira vez, nem, sabia ele - e sabemos nós -, pela última, que ele viu os olhos de um policial militar brilharem diante dos cem reais que estavam dentro de seu livro, item da então mochila vasculhada. Os vermes, sinônimo usado em alguns contos do livro para a polícia em questão, fingiam seriedade. Os olhos que seguem ao desfecho dessa cena estão com o sangue do personagem, que puxava "aquela fumaça [do cigarro de maconha] e ela vinha com um ódio, uma tristeza, um desânimo" e que o fez pensar que seria melhor que "tivessem levado também a porra da maconha."[61]

No próximo-distante dos muros já altos, descobriu, dentre tantas, a sensação que ele mais detestava, a de se assustar com o susto das outras pessoas e logo em seguida perceber que ele era a causa de gestos explicitamente desesperados, que ele significava, assim, uma ameaça. Uma cotidiana sequência de olhares daqueles de desde sempre, continuou a ser direcionada a ele, como o vão "olhar para trás sem mostrar que estava olhando" ou o de "olhar em volta, buscando ajuda, suplicando com os olhos"[62], diante do perigo construído, suposto, lido. Como vemos, uma nota só de gestos e significados, variando apenas em seus agentes e no objeto a ser protegido, como no trecho abaixo, quando, sob o sol da praia tentava conseguir seda - "pedir um bagulho" - para fazer um cigarro de maconha:

Quando eles tão sozinho, olha pra tu tipo que com medo, como se tu fosse sempre na intenção de roubar eles. Aí quando tão de bondão, eles olha tipo que como fosse juntar ni tu. É foda. [...] quando chegou o Tico mais o Poca Telha pra pedir um bagulho pra eles, na humilde, ficaram de neurose, meio que protegendo a mochila, olhando em volta pra ver se num vinha polícia[63].

Seda conseguida com alguém que não é de se assustar, na areia da praia ele viajou, "olhando as gaivota voando no céu. Quando batia o olho de frente com o sol ficava tudo brilhando, mó marola"[64]. Não sem esforço pareceu voltar para casa. Antes disso, já na rua, um policial o viu e tentou juntá-lo ao muro de gentes recolhidas na saída da praia.

Noite alta, uma de repente esquina em comum e por construções que a fração de segundos do gesto não permite explicar, mas que bem lemos, um homem de braços levantados, aterrorizado, se rendeu ao não assalto não anunciado por esse não assaltante, nosso personagem.

Respiração, choro e alma, tudo preso para não xingar quem se incomodava em dividir pontos de ônibus e cruzar esquinas com ele, só com ele. Sentimento então nomeado de "ódio primeiro, descontrolado, aquele que enche os olhos d'água"[65], que, aliás, de tão completo, sem fôlego e verossímil poderia ser um só substantivo, para ser dito assim: ódioprimeirodescontroladoqueencheosolhosd'água.

Podemos sugerir que os olhares, aprendidos e reconhecidos nos outros, figuram em O sol na cabeça como um instrumento de uma pesquisa do personagem sobre a alma humana. Tendo aprendido a não levar os olhares pro lado pessoal, o desenho feito pelos olhares sem olhar o aproximaram de um alguém que, no exercício de ser olhado, se distancia de si. Por sua vez, a rua, composta pelo outro, dono desses olhares sobre ele, se transformam, para o personagem desenhado neste trabalho, em um grande laboratório.

A velha, que ao vê-lo segurava a bolsa com mais firmeza e atravessava a rua para evitar o encontro com ele, que ela não conhecia, tinha um medo cheio de "poeira de outras épocas". Ele até pensou que, pela idade, poderia ser sua avó, mas também que a velha, por sua vez, provavelmente não pensava que ele poderia ter "avó, mãe, família, amigos, essas coisas todas que fazem nossa liberdade valer muito mais que qualquer bolsa"[66].

Uma senhora, vestida de pavor diante de algo que para ela é de fato pavoroso, tão perto, no mesmo ponto de ônibus, pode nos levar a pensar nos dois lados separados pelo abismo presente nos contos de O sol na cabeça, representados por pessoas que continuam sem falar, que continuam dizendo com o olhar. Fato é que ela passou a ser objeto de estudo. E homens, mulheres, adolescentes, outros idosos e ele não poderia parar, pelo seguinte motivo deduzido pelo personagem: "eles não parariam". Não imune, ele adoeceu de solidão e não importava mais "se no domingo daria Flamengo ou Fluminense, se Carlos terminou com Jaque" e com outras pessoas importantes em sua vida. Ele explica:

Com o passar do tempo essa obsessão foi ganhando forma de pesquisa, estudo sobre relações humanas. Passei a ser tanto cobaia quanto realizador de uma experiência. Começava a entender com clareza meus movimentos, decifrar os códigos dos meus instintos. No entanto, a dificuldade de entender as reações de minhas vítimas foi se mostrando cada vez maior. São pessoas que vivem num mundo que não conheço. Sem contar que o tempo que tenho para analisa-las frente a frente é curto e confuso, já que preciso atuar simultaneamente.[67]

Dos olhares de cumplicidade pela divisão do mesmo medo, passando à aprendizagem de seu fingimento, manifestado pelo olhar, para que as brincadeiras de chegar no portão de dona Iara continuassem; ao olhar selado com a reza que todos sabiam não ser dos evangélicos; e às histórias que pareciam filme de assistir contadas pela velhinha, o olhar de nosso personagem o desenhou pesquisador. Desde que viu a borboleta da janela, sabia que não poderia voar como ela e seguiu, sem, entretanto, nos falar sobre voar como piloto ou jogador de futebol.

O homem das mãos pro alto na esquina em comum passou, como a velha, a ser seu objeto de estudo. Com exceção da babá, parte da vida daquele sujeito parecia um "verdadeiro comercial de margarina"[68]. Por mais que tenhamos pensado nesse olhar de quem quer entender, desde a borboleta cheia de óleo tentando sobreviver na janela[69], é aqui que o olhar de nosso personagem, talvez já distante dos sustos, passa a ser assumidamente científico, conferindo a ele um status de protagonismo, movimento representado pelas palavras-chave pesquisa, experiência, cobaia, decifrar códigos, entender reações, curto espaço de tempo para a análise e a admitida dificuldade de estudar um campo o qual, pelos quinze minutos ou até mesmo quase duas horas de distância do beco[70] e pelos muros altos, o pesquisador não conhece.

 

Submetido em 05/12/2018; Aceito em 20/04/2019


Notas

[2] Contos: Rolézim; Espiral; Roleta-russa; O caso da borboleta; A história do Periquito e do Macaco; Primeiro dia; O rabisco; A viagem; Estação Padre Miguel; O cego; O mistério da Vila; Sextou; e Travessia.

[3] Essa leitura foi motivada pelo modelo desenvolvido durante as aulas da disciplina Releituras da Antropofagia, ministrada no primeiro semestre de 2018 no PGLetras-UERJ, pelo professor João Cezar de Castro Rocha.

[4] Espiral. p. 17,18.

[5] A história do Periquito e do Macaco, p. 37.

[6] Ibid. p. 41.

[7] Espiral. p. 17,18.

[8] O mistério da vila. p. 91.

[9] O mistério da vila. p. 91.

[10] Ibid. p. 96.

[11] O caso da borboleta. p. 34.

[12] O caso da borboleta. p. 33.

[13] Primeiro dia. p. 46.

[14] Espiral. p. 17,18.

[15] O caso da borboleta. p. 35.

[16] Ibid. p. 35.

[17] Espiral. p. 17.

[18] Roleta-russa. p. 27.

[19] Ibid. p. 29.

[20] Ibid. p. 29.

[21] Ibid. p. 29.

[22] Ibid. p. 28.

[23] Ibid. p. 31.

[24] Primeiro dia. p. 46.

[25] Ibid. p. 47.

[26] Ibid. p. 46.

[27] Ibid. p. 47.

[28] Ibid. p. 48.

[29] Ibid. p. 48.

[30] Ibid. p. 49.

[31] Travessia, p. 114.

[32] "No dicionário: pegar ou apanhar algo, ou aplaudir. Definição do autor: olhar ou observar." In: ZARUR, Camila. A sua melhor tradução: um glossário para entender a fala dos morros cariocas, segundo a prosa do escritor Geovani Martins. Revista Piauí, São Paulo, 20 abr. 2018. Disponível em: <http://piaui.folha.uol.com.br/sua-melhor-traducao/>. Acesso em: 05 set. 2018.

[33] Travessia, p. 114.

[34] Ibid. p. 117.

[35] O rabisco, p. 52.

[36] Ibid. p. 53.

[37] O rabisco, p. 51.

[38] Ibid. p. 53.

[39] O cego. p. 85.

[40] Ibid. p. 85.

[41] O cego. p. 86.

[42] Ibid. p. 86.

[43] Ibid. p. 89.

[44] Primeiro dia. p. 47.

[45] Sextou, p. 100.

[46] Espiral, p. 18.

[47] Sextou, p. 100.

[48] Espiral, p. 17.

[49] Sextou, p. 100.

[50] Ibid. p. 99.

[51] Ibid. p. 101.

[52] O cego, p. 86.

[53] Sextou, p. 102.

[54] Estação Padre Miguel, p. 72.

[55] Ibid. p. 79 e, se não nos ativéssemos aqui somente ao texto, lembraria do verso de Luis Reis e Haroldo Barbosa, cantado por Chico Buarque, no qual ouvimos: "a dor da gente não sai no jornal".

[56] Ibid. p. 71.

[57] Estação Padre Miguel, p. 82.

[58] A viagem, p. 62.

[59] Sextou, p. 102.

[60] Ibid. p. 108.

[61] Ibid. p. 111.

[62] Espiral, p. 18.

[63] Rolézim, p.13.

[64] Ibid. p. 14.

[65] Espiral, p. 20.

[66] Espiral, p. 19.

[67] Ibid. p. 19, 20.

[68] Espiral, p. 21.

[69] O caso da borboleta. p. 35.

[70] Espiral, p. 17, 18.

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