Chamada v. 24, n. 47 (2022/3): Revista Brasileira de Literatura Comparada

Diálogos: Literatura Comparada e Tradução

É inegável que mais recentemente a Literatura Comparada e os Estudos da Tradução têm confluído em vários sentidos. Conforme destacou Sandra Bermann (2010), pensar sobre o papel da tradução na história literária e cultural traz à tona uma consciência aguçada de seu potencial transformador. Nos Estudos da Tradução, a ênfase inicial na linguística se deslocou rapidamente para a cultura, que, por sua vez, se desdobrou em abordagens relacionadas à ética do tradutor, ao agenciamento, à questão colonial, às diásporas, às migrações e à alteridade — formas de circulação e de intercâmbios da literatura traduzida nos sistemas literários nacionais.

Também a Literatura Comparada contou, historicamente, com teóricos que buscavam alargar o seu escopo espacial, linguístico e político. Já nos anos 1960, René Étiemble e René Wellek advertiam que a “Literatura geral” corria o risco de perder seu significado, ao ignorar as literaturas que se encontravam do lado de fora da restrita tradição regional europeia. Nos anos 1990, Earl Miner buscou integrar diferentes tradições literárias, propondo uma poética comparativa que abrangesse uma maior parcela de civilizações do mundo. Nos anos 2000, Gayatri Spivak revisita o tema da falta de diversidade dos currículos, prevendo mesmo a morte da disciplina, caso a teoria não buscasse rever suas limitações. Emily Apter, em Translation zone (2006), se propôs a repensar os paradigmas das humanidades, tomando a tradução como categoria central de análise e trazendo novos aparatos conceituais à Literatura Comparada.

O volume propõe trazer reflexões sobre a teoria da tradução (literária), incluindo as contribuições de escritores que também atuam como tradutores — discutindo, entre outros, o conceito de autotradução. Propõe-se também uma atenção especial à prática da tradução em tempos de intensos deslocamentos humanos e a fragmentação do mito da monocongruência entre língua, cultura, nacionalidade, etnia e identidade — quando, por exemplo, muitos escritores com histórico de migração produzem suas obras em mais de uma língua, fazendo uso de colagens ou outros recursos que problematizam o fazer tradutório (se concebido de forma técnica ou ortodoxa) e trazem novos elementos para reflexões em torno do conceito mesmo de tradução.

Submissões posicionando-se diante desse conteúdo serão muito bem recebidas pela Revista Brasileira de Literatura Comparada.

Organizadores: Andrei dos Santos Cunha (UFRGS); Gerson Roberto Neumann (UFRGS); Marlova Aseff (UnB)

Prazo para entrega dos originais: 30 de março de 2022.

 

Call for papers

Dialogues: Comparative Literature and Translation

It is undeniable that recently Comparative Literature and Translation Studies have been  converging in several ways. As Sandra Bermann (2010) highlighted, thinking about the role of translation in literary and cultural history brings out a keen awareness of its transformative potential. In Translation Studies, the initial emphasis on linguistics quickly shifted to culture, which, in turn, unfolded into approaches related to translator ethics and agency, to the colonial question, to diasporas, to migrations, and to otherness — means of circulation and exchange of translated literature in national literary systems.

Historically, Comparative Literature also relied on theorists who sought to broaden its spatial, linguistic and political scope. As early as the 1960s, René Étiemble and René Wellek warned that “General Literature” was in danger of losing its meaning by ignoring literature outside the restricted European regional tradition. In the 1990s, Earl Miner sought to integrate different literary traditions, proposing a comparative poetics that encompassed a greater portion of the world's civilizations. In the 2000s, Gayatri Spivak revisited the theme of the lack of diversity in curricula, predicting the death of the discipline in case theory did not seek to scrutinize its limitations. Emily Apter, in Translation zone (2006), proposed to rethink the paradigms of the humanities, taking translation as a central category of analysis and bringing new conceptual apparatuses to Comparative Literature.

This volume proposes to bring forth reflections on the theory of (literary) translation, including the contributions of writers who also act as translators — discussing, among others, the concept of self-translation. It also intends to pay special attention to the practice of translation in times of intense human displacement and the fragmentation of the myth of monocongruence between language, culture, nationality, ethnicity and identity - when, for example, many writers with a history of migration produce their works in more than one language, making use of collage or other resources that problematize the translation process (whether conceived in a technical or an orthodox way) and bring new elements for reflection on the very concept of translation.

Revista Brasileira de Literatura Comparada welcomes submissions dealing with these topics.

Editors: Andrei dos Santos Cunha (UFRGS); Gerson Roberto Neumann (UFRGS); Marlova Aseff (UnB)

Deadline for submission: March 30, 2022.