CHARLES MORAZÉ E O CARÁTER FANTÁSTICO DO BRASIL

CHARLES MORAZÉ E O CARÁTER FANTÁSTICO DO BRASIL

CHARLES MORAZÉ AND THE FANTASTIC CHARACTER OF BRAZIL

Rogério Lima[1]

Wilton Barroso[2]

[1] Professor da Universidade de Brasília. ORCID https://orcid.org/0000-0002-9481-6611

[2] Professor da Universidade de Brasília. ORCID https://orcid.org/0000-0002-3999-364X


RESUMO:

Neste artigo, procuraremos dar uma visão sintética da obra de um importante pensador: o historiador francês Charles Morazé (1913-2003), que fez parte de uma missão francesa, tendo chegado ao Brasil no ano de 1949 para trabalhar na USP, onde viria ocupar a Cadeira de Política. Autor de Les trois âges du Brésil: essai de politique, obra que publicaria na França em 1954, após seu retorno à França, Morazé procurou contribuir para uma melhor compreensão do Brasil dos anos 30-50, na Europa e particularmente na França do pós-guerra.

Palavras-chave: Charles Morazé; Brasil


ABSTRACT:

In this paper, we will give a brief account of the work of an important French thinker: the historian Charles Morazé (1913-2003). He was part of a French mission and arrived in Brazil in 1949 to work at the Universidade de São Paulo, where he became a Professor of Political Science. He wrote Les trois âges du Brésil: essai de politique, work that was published in France (1954), after the return to his home land. In this book, Morazé tried to contribute for a better understanding of Brazil from the 1930s to the 1950s in Europe, particularly in post war France.

Keywords: Charles Morazé; Brazil


Par delà cet horizon fermé,
Il y a le Brésil avec toutes ses palmes,
D'énormes bananiers mêlant leurs feuilles comme des éléphantes leurs mouvantes [trompes,
Des fusées des bambous qui se disputent le ciel,
De la douceur en profondeur, un fourré de douceur,
Et de purs ovales féminins qui ont la mémoire de la volupté.
(« Derrière ce ciel éteint ») [3]

Traços de um contexto cultural

Desde o século XVI o Brasil tem sido objeto de descobertas e redescobertas por parte da França. Roger Bastide registra no capítulo "incorporação do Brasil à poesia francesa contemporânea" a primeira ocorrência de incorporação do Brasil à literatura francesa: "No século XVI, as caravelas da França levaram ao Reino os antropófagos brasileiros, para divertimento da corte e dos bons burgueses da época. Porém, os antropófagos é que foram comidos. Comidos pelos escritores e filósofos. Desse modo, viu-se o Brasil, pela primeira vez, incorporado à literatura francesa" (Bastide, 1997, p.151).

Uma segunda incorporação também seria registrada, nos anos 1940, por Bastide: "[...] um fenômeno análogo se produz em nossos dias. Um certo número de poetas, comedores de terra e de gente, injetam nas veias da poesia francesa o lirismo das paisagens e das paixões brasileiras" (1997, p. 151). Bastide levanta uma questão sobre o porque de escritores franceses terem sido levados a se interessarem pelo Brasil e nele "buscar uma fonte de novas inspirações". Como resposta a essa questão Bastide chega a seguinte conclusão:

[...] sem dúvida, a redescoberta do Sul por uma poesia que, desde o romantismo, a não ser pelas raras exceções dos poetas tropicais como Leconte de Lisle e José-Maria Heredia, se interessava sobretudo pelas brumas, nuvens, sonhos e nostalgia das regiões nórdicas. [...]

Mas, por si só, essa volta ao Sul teria sido insuficiente para provocar a incorporação do Brasil à poesia francesa, se a ela não tivesse unido um novo fenômeno literário: aquele que Georges Duhamel chamou "a posse do mundo". (Bastide, 1997, p.151)

De um lado, foi uma reação contra o movimento que levava os poetas franceses do pós-guerra, com o dadaísmo, o surrealismo, a fugir das realidades concretas para inventar um mundo novo, para penetrar, por uma espécie de intuição metafísica ou mística, no domínio do transcendente, ou para explorar as camadas profundas e inconscientes do "eu". Foi como um novo realismo, um ato de posse da terra, de seu sabor carnal, ao mesmo tempo que uma redescoberta dos homens. Foi, em resumo, uma poesia existencial. Mas não se escapa totalmente ao clima de uma época, e, se por um lado essa literatura é uma reação, por outro, está em conformidade com a procura febril do absoluto, que lançava a maioria dos poetas nos oceanos desconhecidos do inconsciente ou das coisas em si. Nos dois casos, tratava-se de sair de um conhecimento sociológico do real, de não mais ver os seres através das representações coletivas, de evitar que a ligação poética entre as imagens fosse posta no mesmo pé de igualdade que as ligações banais entre palavras da linguagem corrente. E, para isso, o melhor meio era deixar-se sacudir pelos fatos brutos (a expressão é de Marcel Raymond): colocar-se, sobrepondo-se às palavras, em contato direto e imediato com as realidades. E, para evitar que essas realidades fossem adulteradas pelos preconceitos sociais, o melhor era desterrar-se e ir procurá-las em terras longínquas, onde a visão pudesse ser ainda totalmente virgem. Nos dois casos, tratava-se, portanto, de um mesmo impulso a nos fazer sair do "eu" tal como foi formado pelas coações sociais e pela pressão do meio; mas, enquanto os primeiros procuravam "um outro mundo" (Paul Claudel), estes queriam comungar com as pedras, as árvores, os rios e a terra.

Essa posse do mundo não implica, forçosamente, uma partida pelas grandes rotas da aventura; pode-se, com Duhamel, atingir toda a beleza das coisas, toda a poesia do mundo, condensada, cristalizada num ramo de macieira em flor, na mão calosa de um operário. A marcha lírica não se efetua pois em extensão, não se faz por um domínio do espaço; ela se opera em profundidade, partindo de um objeto mínimo para descobrir a imensidade subjacente nele contida. No Brasil, Duhamel não segue um método diverso, como nos mostra o poema de Carlos Drummond de Andrade:

Os homens célebres visitam a cidade.
Obrigatoriamente exaltam a paisagem.
Alguns se arriscam no Mangue,
outros se limitam ao Pão de Açúcar,
Mas somente Georges Duhamel
passou a manhã inteira no meu quintal (...)

Houve uma hora em que ele se levantou
(em meio a erudita dissertação científica).
Ia, talvez, confiar a mensagem da Europa
aos corações cativos da jovem América...
Mas apontou apenas para a vertical
e pediu ce cocasse fruit jaune
("La Possession du Monde" apud Bastide, 1997, p. 152-155)

A chegada de Charles Morazé à São Paulo

Au Brésil, entre les diverses réalités sociales que nous avons grossièrement réparties en deux tipes, il y a non seulement des plans de clivage comme en Europe, mais de large hiatus que la pratique ne franchit pas aisément et que la pensée théorique est loin d'avoir mesurés. Il est difficile de penser le Brésil.[4]

Uma terceira redescoberta, poderíamos chamar assim, ocorre com a chegada ao Brasil, nos anos 1930, da missão francesa composta por um grupo de jovens professores franceses que vieram a São Paulo para lecionar na Universidade de São Paulo. Em depoimento concedido à Revista Estudos Avançados, o professor Fernando Novaes fala de Fernand Braudel e a "missão francesa" e comenta logo no início da sua entrevista o sentido da palavra missão para ele:

Fernando Novais — Foi decisiva a participação da chamada missão francesa no Brasil, que veio quando da fundação da USP. A palavra missão, que era oficial, é muito significativa. A primeira missão francesa que chegou ao Brasil foi a artística, com Dom João VI. A segunda, na Primeira República, tinha como objetivo instruir os oficiais do Exército. A terceira foi a dos docentes que vieram auxiliar na estruturação da USP e da Faculdade de Filosofia. A palavra missão, evidentemente, mostra que éramos vistos como uma terra de índios que deviam ser catequizados. Não há outra explicação. (Estudos Avançados, 1994)

Mesmo criticando a ideia contida no termo missão Novaes não deixou de reconhecer a importância da presença dos jovens intelectuais franceses no Brasil e a contribuição que deram a vida acadêmica nacional:

Fernando Novais — Já que estamos tratando da influência dos franceses, particularmente na História, gostaria de fazer uma primeira observação: quando se afirma que essa influência foi muito importante, não deixa de haver um auto-elogio. Mas, na verdade, os franceses foram muito importantes na renovação dos estudos de Ciências Sociais no Brasil. A missão foi composta de pessoas de alta qualidade: Roger Bastide, Paul Arbousse-Bastide, Braudel, Lévi-Strauss, Pierre Monbeig etc. Costuma-se dizer que a seleção desses professores foi muito acertada, mas na década de 30 eles tinham vinte e poucos anos e eram recém-formados. Quando foram selecionados, não eram e nem se previa que seriam famosos. Braudel, quando veio para São Paulo, ainda não tinha publicado sua tese, apenas uma ou outra resenha. Assim, parece que o Brasil deu sorte para esses franceses. Braudel, que jamais voltou ao Brasil, escreveu em um de seus últimos trabalhos ter sido sua passagem pelo país uma das épocas mais felizes de sua vida. Alguns brasileiros citam exaustivamente uma outra afirmação feita por ele — a de que "se tornou inteligente no Brasil, em São Paulo especialmente".
A questão básica (...) diz respeito à contribuição da missão francesa. Ela foi muito significativa, porque a Faculdade de Filosofia e a USP foram decisivas para a modernização das Ciências Sociais no Brasil. Agora, por que nós fomos bons para eles? Provavelmente porque gostaram do Brasil. Sempre me pergunto por que os estrangeiros, salvo raríssimas exceções, gostam do Brasil. Talvez a explicação seja a cordialidade brasileira, assinalada por Sérgio Buarque de Holanda. Outros franceses também fizeram os maiores elogios ao Brasil e aos brasileiros. Relembro os casos de Jacques Godechot e Albert Soboul. (Estudos Avançados, 1994)

O historiador francês Charles Morazé[5] (1913-2003) fez parte dessa missão, tendo chegado ao Brasil no ano de 1949 também para trabalhar na USP, onde viria ocupar a Cadeira de Política. Autor de Les trois âges du Brésil: essai de politique[6] , obra que publicaria na França em 1954, após a sua passagem por São Paulo, Morazé procurou compreender o Brasil dos anos 30-50, com o objetivo de traduzi-lo para a Europa, particularmente para a França do pós-guerra.

As relações profissionais e de amizade que Morazé desenvolveu com diversos intelectuais brasileiros, durante a sua estada no Brasil, transformaram radicalmente a sua visão sobre a América Latina e sua compreensão sobre a ideia de subdesenvolvimento, conforme atesta a pesquisadora Nathalie Basseler Melle em sua tese, Le Père le moins connu de la nouvelle histoire. Charles Morazé: un hérétique institutionnel[7] , defendida na Universidade Paris VII, no ano de 1991: "De façon immédiate, l'expérience acquise au Brésil, par Charles Morazé aura enrichi ses réflexions sur la vie politique française. C'est justement au retour du Brésil, que Charles Morazé commença la préparation de 'Les Français et la République'"[8].

Charles Morazé e as novas sínteses

Além de Les trois âges du Brésil: essai de politique, Morazé é autor de uma vasta obra historiográfica; seu pensamento teórico contribuiu muito para a proposição de novas sínteses, isto é, para a unificação teórica de disciplinas isoladas, por exemplo: a Demografia — a partir da evolução dos conceitos matemáticos —, e a Economia. Morazé formulou um método novo, que introduziu o uso de mapas e diagramas nas suas pesquisas. Isso lhe permitiu estudar vários movimentos históricos ao mesmo tempo, e na sequência correlacioná-los, tendo assim uma inovadora percepção de conjunto.

Charles Morazé possuía uma cultura enciclopédica, e talvez por isso fosse tão refratário à pontualidade epistemológica que leva à precisa descrição da história do acontecimento. Preferiu propor aproximações impensadas, por vezes mesmo espantosas. O desenvolvimento do seu pensamento poderia ser chamado de estruturalista, no sentido em que o seu rigor metodológico o impelia a transformar celeremente as suas observações em um número reduzido de princípios gerais, entendidos como invariâncias fundamentais da natureza humana. Talvez inclassificável, Charles Morazé foi ao menos um historiador proativo do seu tempo.

A passagem de Charles Morazé por São Paulo

Nos anos 1960, Morazé voltaria se ocupar da tarefa de traduzir os acontecimentos políticos brasileiros para os franceses no artigo "A demissão de Janio Quadros" [La démission de Janio Quadros] publicado na Revue française de science politique (1962, p. 39-53). No artigo, Morazé analisa os antecedentes da eleição de Janio Quadros em 1961, os desdobramentos da sua renuncia e as negociações para que o vice-presidente João Goulart viesse a assumir a presidência da república.

A percepção da estonteante rapidez que o ritmo da vida social e política brasileira impôs à visão de Morazé está registrada em importante correspondência trocada com o historiador Lucien Febvre e no seu livro Les trois âges du Brésil: essai de politique: "C'est l'étonnante rapidité des rythmes sociaux brésiliens qui impose le point de vue historique à cette étude"[9] (1954, p. 14).

A experiência brasileira contribuiria para que Morazé, em 1979, viesse a dirigir, a pedido da Conferência das Nações Unidas sobre a Ciência e a Técnica a Serviço do Desenvolvimento, um estudo multidisciplinar na qual reuniu importantes intelectuais, especialistas no então chamado "Terceiro Mundo", para tratar de questões sobre desenvolvimento, potencialidades tecnológicas, energia, biologia moderna, desarmamento, patrimônio cultural etc.

Uma nota curiosa: esse estudo publicado com o título de Le point critique, pelo Institut D'Étude du Développement Économique et Social de L'Université de Paris 1¬- I.E.D.E.S, na coleção Tiers Monde, em 1980, foi oferecido por Morazé ao General João Batista de Oliveira Figueiredo, então presidente do Brasil, em visita à França, após Morazé recusar o convite para um jantar oferecido pelo governo brasileiro no Restaurante Le Pré Catalan, em Paris. Em uma carta[10], datada de 27 de janeiro de 1981, dirigida ao presidente, Morazé agradeceu o convite, informou que não poderia comparecer ao jantar; alegou ter compromissos anteriormente agendados com madame Morazé. Aproveitando a ocasião, enviou um exemplar do livro Le point critique (1980) ao general-presidente, desejando que o mesmo viesse a ser útil durante o seu governo.

A presença de Morazé no Brasil e na USP fez parte do que se convencionou chamar de "marca francesa" na vida acadêmica e intelectual brasileira e particularmente paulista. Desde a sua chegada em 1949, para reger a Cadeira de Política que ocupou até o ano de 1952, Morazé desempenhou o importante papel, junto com Paul Arbousse-Bastide, Claude Lévi-Strauss, Pierre Froment, Roger Bastide (conhecido como Bastidinho) e Georges Gurvitch, de estabelecer as bases do desenvolvimento da pesquisa político-eleitoral no Brasil. O seu livro Les trois âges du Brésil: essai de politique é um dos resultados dessa pesquisa.

No âmbito da cátedra ocupada por Morazé desenvolveram-se as primeiras pesquisas eleitorais efetuadas no Brasil. Inicialmente, a tarefa proposta pela Cátedra era a de desenvolver um "Mapa político de São Paulo, como um ensaio prático de cartografia eleitoral" (Quirino, 1994). Essas pesquisas foram desenvolvidas, deram frutos e se desdobraram em outras. No ano de 1951, os trabalhos de pesquisa da Cadeira de Política estavam voltados para os "Estudos das eleições de janeiro de 1947; Estudos evolutivos da demografia eleitoral nos diversos estados da União a partir de 1920; Estudos da campanha eleitoral de 1950, realizados através da imprensa nos diversos estados da União" (Quirino, 1994).

É importante lembrar que o período em que se deu a criação da Universidade de São Paulo, 25 de janeiro de 1934, compreendeu um momento de grande transformação histórica e política para o Brasil, de 1930 a 1945. Esse é o momento de instauração do Estado Getulista, que impôs medidas centralizadoras como a dissolução do Congresso Nacional, em novembro de 1930, com Vargas assumindo não só o poder executivo, como também o legislativo, os poderes estaduais e municipais. "Todos os antigos governadores, com exceção do novo governador eleito de Minas Gerais, foram demitidos e em seu lugar nomearam-se interventores federais" (Fausto, 2002, p. 186). No que diz respeito à educação também ouve uma grande transformação conforme anota o historiador Boris Fausto:

Os vencedores de 1930 preocuparam-se desde cedo com o problema da educação. Seu objetivo principal era o de formar uma elite mais ampla, intelectualmente mais bem preparada. As tentativas de reforma do ensino vinham da década de 1920, caracterizando-se nesse período por iniciativas no nível dos Estados, o que correspondia ao figurino da República Federativa. A partir de 1930, as medidas tendentes a criar um sistema educativo e promover a educação tomaram outro sentido, partindo principalmente do centro para a periferia. A educação entrou em compasso de visão geral centralizadora. Um marco inicial desse propósito foi a criação do Ministério da Educação e Saúde, em novembro de 1930.
As iniciativas do governo Vargas na área educativa, como em outros campos, tinham uma inspiração autoritária. O Estado tratou de organizar a educação de cima para baixo, sem envolver uma grande mobilização da sociedade, mas sem promover também, consistentemente, uma formação escolar totalitária, abrangendo todos os aspectos do universo cultural. (Fausto, 2002, p. 188)

No plano do ensino superior, o governo procurou criar condições para o surgimento de verdadeiras universidades, dedicadas ao ensino e à pesquisa: "As principais medidas foram a criação de universidades no Distrito Federal e em São Paulo, neste último caso à margem da participação federal. Assim nasceram em 1934 a Universidade de São Paulo (USP) e, em 1935, a Universidade do Distrito Federal" (Fausto, 2002, p. 188-189).

A criação da USP foi consequência, desde a Primeira Guerra Mundial, de um intenso debate das principais questões educacionais, com propósitos reformadores, travado pela elite paulista. Segundo Boris Fausto:

De fato, o impulso maior para sua criação veio de setores da elite cultural paulista preocupados com a formação de professores de nível secundário e superior e com formação de uma faculdade de filosofia, ciências e letras não-utilitária, voltada essencialmente para a pesquisa e especulação teórica. Para ela foram contratados jovens professores europeus que deram impulso à pesquisa nos vários campos do conhecimento, em moldes científicos. Alguns se tornaram grandes figuras das ciências, das artes e da literatura mundiais, como Claude Lévi-Strauss, o criador da antropologia estruturalista, e o historiador Fernand Braudel (Fausto, 2009: 339).

Em entrevista a Didier Eribon Claude Lévi-Strauss apresenta uma interessante visão da criação da USP:

A influência francesa era muito forte no Brasil, desde o comtismo. Para os brasileiros cultos, o francês era uma segunda língua. Georges Dumas [1866-1946, psicólogo, continuador de Ribot] estivera várias vezes lá e tinha ligações com a aristocracia local, sobretudo em São Paulo. Quando os brasileiros quiseram criar uma universidade naquela cidade, naturalmente dirigiram-se a ele para que constituísse uma missão francesa.
[...]
A universidade tinha sido criada por grandes burgueses, num momento em que a tensão entre o poder paulista e o governo federal era muito forte. Tão forte que quase desembocou numa secessão. Os paulistas consideravam-se a ala ativa de uma nação adormecida num torpor colonial. Foi para pôr a juventude paulista no nível da cultura européia que aqueles aristocratas burgueses decidiram criar a universidade. Mas, por uma espécie de paradoxo, os estudantes vinham de classes modestas, porque havia um grande desnível entre a elite e a massa da sociedade, que continuava pobre e de espírito provinciano. Os estudantes, frequentemente homens e mulheres já empenhados numa vida profissional, desconfiavam dos grandes burgueses que tinham fundado a universidade. E até nós nos encontrávamos entre dois campos. Ao mesmo tempo que nos consideravam pessoas de valor, os estudantes às vezes nos encaravam como servidores da classe dominante. (Eribon, 2005, p. 33-34)

Explicando a criação da USP ao pesquisador Pierre Daix, Morazé informou que:

...em 1935 já havia faculdades de ciências e direito no Brasil, mas não de letras e artes. O estado de São Paulo havia tentado se separar da federação, e Getúlio Vargas, em 1930, reprimira o movimento separatista de 1932. Era portanto uma lembrança próxima. Para as elites de São Paulo, orgulhosas de seu êxito econômico, a criação desta faculdade fora uma espécie de compensação pelo fracasso político, uma compensação que comprovava o seu próprio valor. (Daix, 1999, p. 131)

Os historiadores Adriana Lopez e Carlos Guilherme Mota registram que os anos 1930 foram marcados por uma grande efervescência cultural. O país experimentava um clima de redescobrimento. É dessa época a publicação de livros-fundadores como Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e Evolução política do Brasil, de Caio Prado Júnior, ambos de 1933: "Essas obras inauguraram as duas principais matrizes do pensamento brasileiro contemporâneo: a culturalista liberal moderna e a marxista não-dogmática" (Lopez e Mota, 2008, p. 669).

1933 foi também o ano de publicação de Caetés, de Graciliano Ramos, e da primeira audição das Bachianas brasileiras no 1, de Villa-Lobos. O poeta Carlos Drummond de Andrade era o chefe de gabinete do ministro de Educação, Cultura e Saúde Gustavo Capanema. Em 1930, Drummond havia publicado seu primeiro livro, Alguma poesia. Discreto, ele assumiria um papel importante no Brasil moderno, como assinalou Roger Bastide, também discretamente, na citação do poema "La possession du monde", publicado em seu livro Poetas do Brasil (Bastide, 1997, p. 155).

O período de estruturação da USP coincide com a primeira fase de criação da Escola dos Annales, criada em 1929. A primeira fase durou até a Segunda Guerra Mundial, é a fase da formação; a segunda, que se prolonga até o fim da década de 70, é o período da grande influência de Fernand Braudel e de chegada de Morazé à USP. Braudel permaneceu por apenas 2 anos no Brasil, seu período de permanência foi de 1935 a 1937.

Em 1949, o presidente Eurico Dutra estava no penúltimo ano do seu governo (1945-1951) e Vargas preparava o seu retorno ao poder, o que viria acontecer com as eleições presidenciais de 1950. Foi em meio a esse processo que o jovem pesquisador Charles Morazé chegou a São Paulo, às vésperas da instauração da República populista de Getúlio Vargas. Morazé contava então 36 anos.

Não é sem motivos que a figura de Getúlio Vargas e seu governo terão tratamento privilegiado nas pesquisas e consequentemente em Les trois âges du Brésil: essai de politique. Morazé aproximou a figura de Vargas a de Napoleão III no capítulo "De Napoleón III à Getúlio Vargas", devido às singularidades que ele identificou nos dois governantes (Morazé, 1954, p. 33). O "império" de Vargas descrito por Morazé é a ditadura do Estado Novo que durou de 1937 a 1944, todo o período da guerra. Na quarta parte da sua obra " Émancipation du peuple – Émancipation des villes – 1949-1953"[11] , Morazé volta a tratar de Vargas, analisando o seu retorno ao Palácio do Catete, e revela o interesse que a comunidade política internacional da época tinha na eleição presidencial de 1950 e nas festas que marcariam, em 1951, o retorno de Vargas ao Palácio do Catete, no Rio (Morazé, 1954, p. 153). Além disso, Morazé percebeu a aura mística que os eleitores de rincões distantes e atrasados enxergavam em Vargas: "Si elles ont voté pour Getúlio Vargas c'est comme elles eussent voté pour le Père Cicero par un mouvement plus mystique que logique e choisissant un homme plutôt que un programme"[12] (Morazé, 1954, p. 191).

Durante o período em que atuou na Cadeira de Política, do Departamento de Sociologia e Antropologia da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da Universidade de São Paulo, Morazé participou na formação acadêmica e desenvolveu relações intelectuais com pesquisadores brasileiros que viriam ocupar posições de grande relevância no cenário intelectual brasileiro e internacional como Aziz Matias Simão, Fernando de Azevedo, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Celso Furtado, Caio Prado, Antonio Cândido, Paula Beiguelman, Oliveiros Ferreira, Lourival Gomes Machado, Emília Viotti da Costa, Carmem Sylvia Shon, Célia Ulhoa Tenório, Alayde Trani, Lolio Lourenço de Oliveira, Renato Jardim Moreira, Wilson Cantoni, Oliveiros Silva Ferreira, Fernando Henrique Cardoso etc. Morazé estabeleceu estreitas relações também com Anísio Teixeira, Maria Yedda Linhares, Paulo Carneiro.

Coube a Morazé, juntamente com Paul Arbousse-Bastide, Lourival Gomes Machado e Georges Gurvitch a missão de consolidar a forma e o conteúdo do ensino da disciplina de Política na Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP. Desde os anos 1950, a cadeira de Política era parte integrante do Departamento de Sociologia e Antropologia, que, por sua vez, era responsável pela organização dos cursos de Ciências Sociais.

No prefácio de sua obra publicada na França, e ainda inédita no Brasil, Les trois âges du Brésil: essai de politique, dedicado à Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, aos colegas colaboradores e estudantes da mesma instituição, Morazé revela que em 1948 se discutia em Paris sobre a validade do ensino de política pura. Uma questão estava presente no debate: "La politique constituait-elle une science? On le voulait, mais on doutait"[13] (Morazé, 1954, p. 9).

Enquanto na Europa e nos Estados Unidos a discussão ainda era epistemológica (existiria ou não uma Ciência Política?), nos anos 1940, o sistema de ensino superior brasileiro teve a coragem de fazer essa experiência. Na Universidade de São Paulo já se considerava esse debate ultrapassado, havia sido criada uma Cadeira de Política, e ela foi, em 1949, entregue ao professor visitante Charles Morazé, que viria a ter como auxiliar de ensino a pesquisadora e professora Paula Beiguelman. É nesse período que professores e alunos começam a realizar as primeiras pesquisas eleitorais feitas na USP. Juntamente com outros colegas, Morazé fez parte de um grupo de professores que introduziu uma série de jovens intelectuais brasileiros nos assuntos do Brasil.

Morazé relata que, quando ainda estava na França, pairavam algumas dúvidas sobre a decisão de deixar Paris para se instalar em São Paulo, num país sem tradição de pesquisa científica. Os intelectuais franceses se questionavam sobre a validade de deixar a confortável segurança dos raciocínios estatísticos para mergulhar nas incertezas de um país quase sem arquivos e livros. A dúvida enquanto método é algo profundamente cartesiano em Charles Morazé. O que não impediu que, ao longo do seu livro, ele viesse a mostrar que percebeu que nós brasileiros somos anti-cartesianos, no sentido de que não usamos a dúvida como método. A vontade expressa pela criação de uma Cadeira de Política na USP evocava não a superação de uma dúvida (metodológica), mas a afirmação de um desejo (emoção). Assim, nós brasileiros não seríamos céticos. Por intermédio de suas leituras sobre o Brasil, Morazé se deu conta de que éramos cordiais.

Morazé logo percebeu que, arranhado, o verniz europeu deixava transparecer a fragilidade das certezas da Europa. Mas havia algumas diferenças científicas às quais não se poderia fechar os olhos. A experiência francesa com recenseamentos já cobria quase dois séculos. No Brasil, essa atividade somava apenas 20 anos. O estudo estatístico, como se sabe, tem maior relevância quanto maior for o seu tempo de aplicação. Ao mesmo tempo em que a Demografia, altamente dependente da Estatística, estava na base das possibilidades de uma Ciência Política para Charles Morazé, o historiador via com preocupação o ambiente da pesquisa demográfica no Brasil, devido à precariedade das bases de dados demográficos existentes e seu anacronismo. Para Morazé os dados para análise eram dos anos 1950, mas aqui ainda não praticávamos uma descrição estatística desses dados, e o quadro de análise utilizado era ainda do século XIX, pertencente à época da escola romântica.

Para Morazé, a diferença dos povos estava marcada pela sua própria experiência como povo. Enquanto o homem europeu estudava a sua terra e ele mesmo há alguns séculos, ainda que tivesse desenvolvido um conhecimento insuficiente para se conhecer bem, esse conhecimento era suficiente para garantir a sua razão científica e moral. No Sul, o homem da grande América meridional ainda caminhava em meio à vegetação virgem. Ele ainda não havia desenvolvido uma escala de valores própria que lhe permitisse medir os seus atos. Escolhe tomar emprestado o modelo francês que não havia sido concebido para os trópicos. Para Morazé, o brasileiro duvidava da sua razão, mas confiava no seu coração. "S'il affirme si hautement son positivisme rationnel c'est qu'il connaît l'entendue de l'effort qu'il doit encore fournir pour plaquer sur son instinct un poli de lois rationnelles que font craquer du reste de tempêtes inattendues"[14].

Para felicidade de Morazé, foi possível encontrar em São Paulo alguns estudantes apaixonados pela política e pela política do país. Segundo sua análise, no Brasil, a política configurava-se como a esperança do pobre. Nos textos de Joaquim Nabuco, o importante intelectual brasileiro do século XIX, Morazé encontrou a afirmação de que a política, juntamente com a riqueza, eram as duas rodas motoras do país. A política seria, talvez, a única força que pudesse equilibrar, ou de preferência limitar em qualquer medida, todo o poder de um investimento capitalista cuja violência é como o exército de Átila, o Huno, que destruía tudo por onde passava. Segundo Morazé, um jovem brasileiro sem recursos ou tomado de justiça, se pensasse um pouco, se desesperaria diante do caráter irracional da política do país que, longe de dominá-los, se vê subitamente diante da ditadura de um punhado de fatos. Morazé se referia às conturbações políticas da república populista estabelecidas pelo retorno do governo Vargas, nos anos 1950.

O Brasil, na visão do historiador francês, era um grande desafio que rompia com as hipóteses pré-concebidas, deixando desconcertado o pesquisador europeu diante da realidade brasileira. O pesquisador europeu ficava perdido, já que as prescrições dos manuais europeus aqui simplesmente não funcionavam:

Faits économiques, faits historiques: ils se laissent toujours malaisément disséquer. Au Brésil, ils défient l'historien par leur caractère fantastique. Aussi jolies que soient nos hypothèses sagement construites, d'une chiquenaude un aventurier les renverse. L'histoire historisante que Lucien Febvre a enchaînée dans les Annales est ici tout puissante, installée dans tout les cantons du pouvoir! "Il ne faut pas douter de la raison." Ce n'est qu'avec cette phrase dérisoire et sans logique qu'on pourrait s'encourager soi-même dans la reconstruction d'hypothèses éphémères, fragiles matériaux de systèmes rudimentaires.[15] (Morazé, 1954, p. 11)

Entendendo e explicando a cordialidade brasileira

Para colaborar no estabelecimento daquilo que Antonio Candido chamou, em artigo publicado em 1959, de "As teorias do Brasil" ao se referir às obras Les trois âges du Brésil: essai de politique, de Charles Morazé (1954), e Le Brésil, de Pierre Monbeig (1954)" (Candido, 2006), Morazé empreendeu a leitura de obras importantes para a compreensão do Brasil tais como: Os sertões, de Euclides da Cunha; Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre; A cultura brasileira, de Fernando de Azevedo; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda; História econômica do Brasil, de Caio Prado Junior; O pensamento filosófico do Brasil no século XIX, de João Cruz Costa; Coronelismo enxada e voto, de Victor Nunes Leal; Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto; Macunaíma, de Mário de Andrade; O cavaleiro da esperança, de Jorge Amado; José Veríssimo e sua visão da educação brasileira.

As leituras de Morazé levam-no a diversas conclusões ao tentar mapear as contradições brasileiras. Quando tratou do estágio em que se encontrava a educação no Brasil procurou deter-se na leitura de Lima Barreto, Jorge Amado, Mário de Andrade e nas inquietações de José Veríssimo diante da incapacidade do Brasil de conhecer a si mesmo. Morazé comenta que:

Au début de ce siècle, José Veríssimo, le théoricien de l'Education, avait dénoncé avec amertume cette impuissance où est le Brésil de se connaître lui-même : c'ést un amas de contradictions, et vers la même époque, le doux mulâtre Lima Barreto avait son héros, Polycarpo Quaresma, qui, pour avoir mis trop naïvement sa foi en patriotisme sentimental perd sa place de fonctionnaire d'un gouvernement patriote, et pour s'être offert comme défenseur de l'ordre est condamné à mort comme perturbateur. – Trente-deux ans plus tard, Jorge Amado décrit la vie impitoyable des maîtres de la terre, fusilleurs du droit. Sa solution ? – Le communisme… Vers 1922, Mario de Andrade, l'étonnant poète de l'art moderne, essaie de réconcilier les irréconciliables : Macunaima, l'enfant du Brésil, le fils de la forêt, violent e doux, puissant et tendre, peu sage et raisonnable, blanc et noir, homme et dieu. Les solutions poétiques ne sont que les premiers pas d'une bien longue marche vers les solutions politiques.[16] (Morazé, 1954, p. 192)

Os livros lidos por Morazé são livros que, de uma forma ou de outra, ensaiam a afirmação da identidade nacional e põem em debate os rumos políticos da nação. Para Morazé, essa iniciativa poética seria apenas o primeiro passo de uma longa caminhada em direção às soluções políticas mais efetivas. Na sua opinião, não deveríamos esperar por soluções vindas do exterior para os nossos problemas. Não deveríamos utilizar um instrumental científico importado para estudarmos os nossos problemas. Deveríamos construir as nossas próprias metodologias, de acordo com as nossas necessidade sem nos submeter às influências externas. Extremamente ácido Morazé arremata dizendo: "Mais le grand malheur du dialogue Europe-Brésil (ou France-Brésil) c'est que la première adore raconter du haute des chaires des vérités toutes faites et exposée avec talent et que le second adore écouter, apprendre e retenir dans son cœur des vérités toutes faites et exposées avec talent"[17] (Morazé, 1954 : 192-193)

Um dos momentos importantes do trabalho de Morazé, no sentido de compreender a realidade desconcertante que se revelou diante dele, consistiu no seu esforço para entender a ideia de cordialidade brasileira. O historiador trabalhou com a noção de cordialidade e reconheceu que a prerrogativa de tratar esse tema pertencia a um brasileiro ilustre: "Il appartenait à un Brésilien d'écrire une description de l'homme cordial"[18] (Morazé, 1954: 11). O historiador se referia a Sérgio Buarque de Hollanda e ao seu livro Raízes do Brasil, no qual desenvolveu a sua visão sociológica acerca da ideia de cordialidade do homem brasileiro, que teve relações com a teoria de Ribeiro Couto sobre o "Homem Cordial".

Segundo Ribeiro Couto, a cordialidade seria a contribuição brasileira à obra da civilização. A teoria foi expressa por Ribeiro Couto em carta endereçada ao seu amigo Alfonso Reyes, em 7 de março de 1931. Esse documento hoje integra o Arquivo Ribeiro Couto, sob a guarda do Arquivo-Museu de Literatura da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro (Bezerra, 2005, p. 125):

O verdadeiro americanismo repele a idéia de um indianismo, de um purismo étnico local, de um primitivismo, mas chama a contribuição das raças primitivas ao homem ibérico; de modo que o homem ibérico puro seria um erro (classicismo) tão grande como o primitivismo puro (incultura, desconhecimento da marcha do espírito humano em outras idades e outros continentes). É da fusão do homem ibérico com a terra nova e as raças primitivas, que deve sair o 'sentido americano' (latino), a raça nova produto de uma cultura e de uma intuição virgem – o Homem Cordial. Nossa América, a meu ver, está dando ao mundo isto: o Homem Cordial. O egoísmo europeu, batido de perseguições religiosas e de catástrofes econômicas, tocado pela intolerância e pela fome, atravessou os mares e fundou ali, no leito das mulheres primitivas e em toda a vastidão generosa daquela terra, a Família dos Homens Cordiais, esses que se distinguem do resto da humanidade por duas características essencialmente americanas: o espírito hospitaleiro e a tendência à credulidade. Numa palavra, o Homem Cordial. (Atitude oposta do europeu: a suspicácia e o egoísmo do lar fechado a quem passa). (Como é bom, nos pueblos e aldeias da nossa América, no seu México como no meu Brasil, mandar entrar o caixeiro-viajante francês que vende peças de linho, ou o engenheiro alemão que está estudando a geologia local, e convidá-lo para almoçar! A gente grita logo lá para dentro: – Ó fulana, manda matar uma galinha!)...
O fato, porém, é que se não somos latinos, nós, oriundos da aventura peninsular celtibérica em terras americanas (alimentada pela redes nupciais de índias bravias e pela sensualidade dócil de negras fáceis), se não somos latinos, somos qualquer coisa de muito diferente pelo espírito e pelo senso da vida cotidiana. Somos povos que gostam de conversar, de fumar parados, de ouvir viola, de cantar modinhas, de amar com pudor, de convidar o estrangeiro a entrar para tomar café, de exclamar para o luar em noites claras, à janela: – Mas que luar magnífico! Essa atitude de disponibilidade sentimental é toda nossa, é ibero-americana... Observável nos nadas, nas pequeninas insignificâncias da vida de todos os dias, ela toma vulto aos olhos do crítico, pois são índices dessa Civilização Cordial que eu considero a contribuição da América Latina ao mundo.
Marselha, 7-III-931
Ribeiro Couto

Conforme anota Elvia Bezerra em seu artigo "Ribeiro Couto e o homem cordial", "Estava aí o embrião da teoria do homem cordial que Sérgio Buarque de Holanda desenvolveria no capítulo V, intitulado "O homem cordial", de seu hoje clássico Raízes do Brasil (1936), de que se transcreve o seguinte trecho" (Bezerra, 2005, p. 126):

Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo "o homem cordial". A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar 'boas maneiras', civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. [...] Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez. Ela pode iludir na aparência – e isso se explica pelo fato de a atitude polida consistir precisamente em uma espécie de mímica deliberada de manifestações que são espontâneas no 'homem cordial': é a forma natural e viva que se converteu em fórmula. (Holanda, 1936, p. 146-147)

Após estudar o conceito e absorvê-lo, Morazé procurou traduzir para o leitor francês o sentido de que cordialidade, no Brasil, não era uma palavra ambígua, tratava-se, na sua compreensão, do encorajamento do cético ao audacioso. Ou seja, na ausência da dúvida metódica a pulsão nacional dirige-se em direção à audácia, ao atrevido.

[...] On sait qu'il va échouer: mais Il lui reste une toute petite chance de réussir, et à cette petite chance s'attachent la curiosité, l'intérêt, la sympathie. Les échecs viennent, en cascade; la critique est si facile qu'elle n'est plus blessante, et tel quel que soit le nombre de vos infortunes, on ne vous moquera pas de tenter encore. Sait-on jamais? L'irrationnel est si irrationnel qu'il peut quelque jour donner raison à la raison (Morazé, 1954, p. 11).[19]

Charles Morazé trabalhou em torno da ideia de cordialidade e das formas de vencer os obstáculos que as peculiaridades da burocracia do país impunham e exigia de todos uma enorme dose de paciência, dom do Espírito Santo, segundo Morazé, perdido pelos norte-americanos e europeus que aqui tinham negócios a tratar, mas que não conseguiam ou não queriam compreender os processos patrimoniais de funcionamento político-administrativo do país. Nos anos 1950, o historiador percebeu que para vencer o imenso cipoal burocrático brasileiro era preciso munir-se de muita paciência para, pouco a pouco, romper as barreiras burocráticas encontradas no Brasil.

Inutile de vouloir forcer le passage, les entrelacs deviendront des noeufs (sic) d'acier. Il faut patiemment prendre sa place dans les files des solliciteurs, à l'antichambre, Il faut couper une à une les lianes, avancer pas à pas, jalonner sa route, sinon c'est la mort sans phrases dans un océan végétal indifférent.
Donc ne se point mettre en colère, sourire quand on enrage, sourire même quand, devant un obstacle trop fort, Il faut rebrousser chemin pour repartir à nouveau. Sourire, la cordialité n'est pas simple politesse, c'est la vertu cardinale du défricheur de pays vierge, vierge comme cette héroïne de Pierre Louÿs que bat vainement son amant, Le pantin, car être battue consolide sa joie et son refus. La cordialité brésilienne a ses gestes nombreux dont l'emphase déconcerte; elle a surtout sa réalité secrète dont l'encouragement va à ceux qui n'ont point besoin de s'exciter par la violence pour persévérer dans la action.
J'ai fait de mon mieux pour mériter cette cordialité brésilienne et bénéficier de ses toniques vertus (Morazé, 1954, p. 12).[20]

O historiador Morazé, dono de uma percepção fina, compreendeu as sutilezas do funcionamento da vasta burocracia militar, governamental e eclesiástica – "nascida da prosperidade do empreendimento colonial, seja na etapa do saque de riquezas secularmente acumuladas, seja nas variadas formas posteriores de apropriação da produção mercantil" (Ribeiro, 1986, p. 19) – que regiam a vida do país, herdadas da época em que éramos colônia portuguesa. Dotado de um excelente bom humor, Morazé ensina qual atitude se devia adotar diante de uma estrutura burocrática que pode se abrir ou se fechar totalmente, dependendo do método que se utilize para lidar com ela. Morazé foi capaz de perceber os desafios culturais que tinha diante de si e rapidamente aprendeu como transitar e negociar em meio às nossas sutilezas culturais.

Inquieto e adaptável, Charles Morazé descobriu o Brasil e a sua cordialidade. Foi na sua volta para Paris que escreveu o clássico: Les trois âges du Brésil: essai de politique. Este é considerado por seus comentadores como um marco importante de sua obra e sobretudo prepara aquela que é considerada por muitos a sua obra mais importante, Les Français et la république. Muitos são os significados deste livro; para um capitalista europeu, ainda atormentado com os bombardeios da guerra recém terminada, sem dúvida evoca novas fronteiras de investimento, para nós brasileiros, um olhar externo, raro e fecundo, sobre nós. Mas com este livro, e isso é incontornável, Charles Morazé tinha como objetivo explicar aos franceses o Brasil que havia descoberto.

Uma marcação de Carlos Lacerda

Na sua percepção o nosso país possuía minimamente três tempos históricos distintos. Os manuais europeus diziam que só poderia haver um tempo histórico de cada vez, mas no Brasil, Charles Morazé havia descoberto que havia três tempos históricos que co-habitavam, mais ou menos, o mesmo espaço. À luz dos manuais, uma reflexão: parecia-lhe muito difícil, quase impossível, encontrar um processo capaz de unificar esses tempos. Desta forma, como admitir a unidade política da nação? Todas essas razões paradoxais não previstas pelos manuais europeus, que Charles Morazé descobre, evocam uma sociedade ao mesmo tempo absurda e fascinante. Essa é a sociedade cordial. Não devemos esquecer que o olhar que Morazé lançou sobre a cultura brasileira foi um olhar modulado pelas teorias da Escola dos Annales.

Leitor do Brasil, Morazé ganhou um leitor ilustre para o seu Les trois âges du Brésil: essai de politique. Esse leitor foi Carlos Lacerda. No exemplar da obra de Morazé que pertenceu ao importante político brasileiro, e que se encontra depositado na biblioteca da Universidade de Brasília, encontramos diversas anotações e marcações onde Lacerda estabeleceu um diálogo intenso com o texto da obra.

Não precisou de muito tempo para Charles Morazé constatar que o Brasil era um país sem livros e sem registros. Comparando o seu país natal ¬– que fazia censo demográfico há pelo menos duzentos anos – com o Brasil, que tinha apenas começado, percebeu que os raros dados estatísticos não eram minimamente confiáveis. Os mapas ainda precisavam ser feitos. Mas isso encontraria eco em leitores importantes. Carlos Lacerda foi um deles. Ele marcou a lápis no seu exemplar de Les trois âges du Brésil: essai de politique aquilo que lhe parecia ser o problema fundamental:

Or les problèmes de la politique brésilienne naissent précisément de la multiplicité des types de temps. Une ville qui a vécu cinq ans peut-elle s'administrer, s'ordonner comme une ville qui a vécu quatre siècles? Une même Constitution peut-elle répondre aux besoins de rythmes de croissance si divers? Les hommes forgés au feu d'activité dont les vitesses sont si différentes peuvent-ils créer une société harmonieuse, et, s'ils s'opposent, ne voit-on pas que décrire les caractères des batailles politiques et des rivalités économiques, c'est décrire la manière dont coexistent des temps historiques divers?[21] (Morazé, 1954: 17)

Os tempos históricos foram pensados para descrever a passagem do tempo no continente europeu. A antiguidade grega aconteceu há muito tempo e com certeza foi antes do nascimento de Cristo. A Revolução francesa aconteceu no século XVII muito depois da caça as bruxas na idade média. Essa ordenação bem como a sua nomenclatura são figuras centrais e obrigatórias em todos os manuais de História.

Paradoxalmente a inteligência brasileira adquiriu sempre essa cultura, ou seja, a cultura dos manuais europeus. As prescrições desde o Discurso sobre o método, de Descartes, no século XVII, falam da ocupação e ordenação harmônica das cidades, perfeitamente coerentes com os séculos de história das cidades européias, mas incompreensíveis em nossas terras. Não conseguimos praticar o ceticismo cartesiano mas sabemos ter a audácia.

A audácia de criar antes dos outros uma cadeira de Ciência Política. A audácia de harmonizar os tempos históricos através da cordialidade. O tempo da paciência junto com a falta de tempo para a dúvida. Emergem dos escritos de Charles Morazé pistas e razões para a busca do sujeito brasileiro e sua cultura, ficando assim o seu externo porém agudo olhar externo.

A passagem de Charles Morazé pelo Brasil carece de um estudo mais profundo, assim como a presença de todos os membros da "missão francesa" que veio ao Brasil para lecionar na USP. Ao contrário de alguns dos colegas que o antecederam, Morazé, apesar dos seus 36 anos, carregava consigo uma vasta experiência intelectual e política advinda da sua participação na Resistência Francesa, da sua posição como conselheiro e amigo de Charles De Gaulle, e da árdua tarefa política de implantar a VI Seção da Escola Prática de Altos Estudos que iria mudar os rumos dos estudos de história na França do pós-guerra. Essa experiência livrou Morazé de constrangimentos pelos quais passou Lévi-Strauss ao chegar à USP: "Um colega francês, um pouco mais velho que eu e que me antecedera em um ano na universidade [Paul Arbousse-Bastide, parente de Georges Dumas], quis me colocar numa posição subordinada" (Lévi-Strauss, 1996, p. 9). "Não fiquei satisfeito, e como resistisse, esforçou-se para que me despedissem em nome da tradição comtista, em que era especialista, e que meu ensino traía" (Eribon, 2005. p. 36).

Ao vir para o Brasil, Morazé já havia participado da criação da UNESCO a convite de Leon Blum. Em 1946, havia ocupado o cargo de secretário do Comitê Internacional das Ciências Históricas, criado por iniciativa de Henri Pirenne (Daix, 1999, p. 294). Morazé, o herético da nova história, era dotado de uma grande senso de oportunidade e das transformações, por esse motivo foi capaz de perceber as oportunidades intelectuais e históricas que o Brasil lhe oferecia. Nas palavras de Braudel, Morazé era o tipo de homem que trabalhava para o bem comum e pôs a sua imaginação a serviço da coletividade nos diversos domínios nos quais transitava: "Foi o hábil artesão, sabendo negociar, preservando o essencial" (apud Daix, 1999, p. 294).

REFERÊNCIAS

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Submetido em 05/01/2019; Aceito em 20/04/2019


Notas

[3] Além desse horizonte fechado/Existe o Brasil com todas as suas palmeiras,/As enormes bananeiras misturando suas folhas como os elefantes e suas trombas balançantes,/ As pontas dos bambus que disputam o céu,/ A partir da suavidade em profundidade, preenchida com doçura/ E com puros ovais femininos que têm a memória da volúpia. ("Atrás desse céu extinto"), Jules Supervielle, apud Roger Bastide (1997: 164). Tradução nossa.

[4] No Brasil, entre as diversas realidades sociais que nós grosseiramente dividimos em dois tipos, tem-se não somente os planos de ruptura ou separação [social] como na Europa, mas grandes hiatos que a prática não atravessa facilmente e de que o pensamento teórico está longe de ter as medidas. É difícil pensar o Brasil. (Morazé, 1954, p. 191) Tradução nossa.

[5] Charles Morazé (1913-2003) foi professor de história, membro e colaborador do grupo dos Annales. É considerado um dos fundadores — ao lado de Fernand Braudel e de Lucien Febvre — da VI Seção da École des Hautes Études que, mais tarde, se transformou na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Na École se dedicou à formação de um centro de estudos econômicos, conhecido pela publicação da Revue d'Économie. É também reconhecido como um dos fundadores da Maison de Sciences de L'Homme. Esteve no Brasil no final dos anos 40 e início dos anos 50 na condição de professor convidado pela Universidade de São Paulo. Escreveu, entre outras obras, os seguintes livros: Trois essais sur Histoire et Culture (1948). Les trois âges du Brésil: essai de politique (1954), Les Français et la république (1956), Les bourgeois conquérants (1957), La logique de l'histoire (1967), Le Général de Gaulle et la République (1972), La science et les facteurs de l'inégalité, (1979), Les origines sacrées des sciences modernes (1986).

[6] As três idades do Brasil: ensaio de politica. Esta obra permanece inédita no Brasil 56 anos após a sua publicação na França.

[7] [O pai menos conhecido da nova história. Charles Morazé : um herético institucional]. Tradução nossa.

[8] De maneira imediata, a experiência adquirida no Brasil, por Charles Morazé enriqueceu suas reflexões sobre a vida política francesa. É justamente ao retornar do Brasil que Charles Morazé começa a preparação de "Os franceses e a República". Tradução nossa.

[9] É a estonteante rapidez dos ritmos sociais brasileiros que impõe o ponto de vista histórico a este estudo. Tradução nossa.

[10] Uma cópia desse documente se encontra arquivado no Centro Charles Morazé, na Sede da Maison de Science de L'Homme, em Paris, sob os cuidados da equipe de pesquisa F2DS.

[11] "Emancipação do povo – Emancipação das cidades – 1949-1953". Tradução nossa.

[12] Se eles votaram em Getúlio Vargas é como se tivessem votado no Padre Cícero por um movimento mais místico que lógico, escolhendo um homem no lugar de um programa. Tradução nossa.

[13] "A política se constituiria numa ciência? Nos desejamos, porém nós duvidávamos" (Morazé, 1954: 9). Tradução nossa.

[14] Se ele afirma assim tão altamente o seu positivismo racional é porque sabe a extensão do esforço que ele ainda tem que realizar para lançar sobre si uma carga de leis racionais que o fazem temer as tempestades inesperadas" (Morazé, 1954, p. 10). Tradução nossa.

[15] fatos econômicos, fatos históricos: dificilmente eles sempre se deixam dissecar. No Brasil, eles desafiam o historiador pelo seu caráter extraordinário. Assim, por mais belas que sejam nossas hipóteses sabiamente construídas, um aventureiro com um movimento as derruba. A história historicizante que Lucien Febvre acorrentou nos Annales é aqui toda poderosa, instalada em todos os cantões de poder! "Não duvide da razão." Pois, somente com esta frase ridícula e sem lógica que poderia encorajar a si mesmo na reconstrução de hipóteses efêmeras, materiais frágeis de sistemas rudimentares. Tradução nossa.

[16] No início deste século, José Veríssimo, o teórico da Educação, queixou-se amargamente da incapacidade do Brasil de conhecer a si mesmo: é um conjunto de contradições, e na mesma época, o mulato Lima Barreto criou o seu herói Policarpo Quaresma, que, por ter colocado sua fé muito ingenuamente num patriotismo sentimental perde seu lugar de funcionário de um governo patriota, e por se oferecer como defensor da ordem é condenado a morte como perturbador dessa mesma ordem. – Trinta e dois anos mais tarde, Jorge Amado descreve a vida dos cruéis mestres da terra, executores do direito. Sua solução? – O comunismo… Em 1922, Mario de Andrade, o admirável poeta da arte moderna, ensaia a reconciliação dos irreconciliáveis, Macunaíma, o infante do Brasil, o filho da floresta, violento e doce, poderoso e terno, insensato e razoável, branco e negro, homem e deus. As soluções poéticas não são mais que os primeiros passos de uma longa caminhada em direção às soluções políticas. Tradução nossa.

[17] O grande mal do diálogo Europa-Brasil (ou França-Brasil) é que a primeira [Europa ou França] adora contar do alto das cátedras as verdades todas feitas e expostas com talento e que o segundo [Brasil] adora escutar, aprender, e reter no seu coração as verdades todas feitas e expostas com talento. Tradução nossa.

[18] Pertence a um brasileiro [a ideia] de escrever uma descrição do homem cordial. Tradução nossa.

[19] Sabemos que o audacioso irá fracassar, mas lhe resta uma pequena chance de alcançar o sucesso. A essa pequena chance se juntam a curiosidade, o interesse, a simpatia. Os fracassos chegam em cascata; a crítica é assim tão fácil que ela já não magoa, e qualquer que seja o nome de seus infortúnios, ele não se importará de ainda tentar. Jamais saberemos? O irracional é assim tão irracional que ele pode qualquer dia desses dar razão à razão. Tradução nossa.

[20] Era inútil querer forçar a passagem, os entrelaçamentos tornar-se-ão nós de aço. É necessário pacientemente tomar o seu lugar na fila dos solicitadores, na anti-câmara, é necessário cortar um a um os liames, avançar passo a passo, balizar sua rota, senão é a morte sem frases num oceano vegetal indiferente.
Portanto não ficar de forma alguma enraivecido, sorrir se estiver com raiva, sorrir mesmo quando diante de um obstáculo muito forte, precisa refazer o caminho para reagir de novo. Sorrir, a cordialidade não é simplesmente boa educação, esta é a virtude cardinal do desabrochar do país virgem, virgem como aquela heroína de Pierre Louÿs, que bate vilmente o seu amante, o títere, já que ser batido consolida sua felicidade e sua recusa. A cordialidade brasileira tem seus gestos numerosos cuja a ênfase desconserta; ela tem sobretudo a sua realidade secrete cujo encorajamento vai para àqueles que de forma alguma exercem a violência para preservarem as suas ações.
Dou o melhor de mim para merecer esta cordialidade brasileira e de me beneficiar de suas virtudes tônicas. Tradução nossa.

[21] Ora os problemas da política brasileira nascem precisamente da multiplicidade dos tipos de tempos. Uma cidade que viveu cinco anos pode ser administrada, ordenada como uma cidade que viveu quatro séculos? Uma mesma Constituição pode responder as necessidades de ritmos de crescimento tão diversos? Os homens feitos ao fogo das atividades cujas velocidades são tão diferentes podem criar uma sociedade harmoniosa, e, se eles se opõem, não se vê que descrever as características das batalhas políticas e das rivalidades econômicas, é descrever a maneira pela qual coexistem tempos históricos diversos? Tradução nossa.

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