A NARRATIVA DOCUFICCIONAL COMO FORMA DE ESCREVER O POLÍTICO NA LITERATURA CONTEMPORÂNEA A PARTIR DO ROMANCE MACHT UND WIDERSTAND [PODER E RESISTÊNCIA], DE ILIJA TROJANOW

Marianna Ilgenfritz Daudt, Gerson Roberto Neumann

Resumo


Há mais de 20 anos, funcionários federais de diversos locais da Alemanha têm se debruçado, em suas escrivaninhas, ao trabalho de juntar pedaços de papel, tornando-os novamente legíveis. É claro que neste trabalho de Sísifo não se trata de juntar qualquer pedaço de papel, mas sim os documentos mais explosivos da história alemã recente – mais precisamente, da história da Alemanha no período de sua divisão (1945-1990). Isso ocorreu porque, no decurso da Revolução Pacífica, que atingiu o seu auge em Novembro de 1989 e finalmente derrubou o já ameaçado muro entre a RDA [República Democrática Alemã] e a RFA [República Federal da Alemanha], uma das ações mais significativas dos cidadãos da RDA foi o assalto de várias administrações distritais da Stasi, em Dezembro de 1989, e, finalmente, da sede da Stasi na rua Normannenstraße, em Berlim, em Janeiro de 1990.3 Os arquivos que se encontravam no local e sua organização subjacente, o Ministério da Segurança  do Estado, foram considerados símbolos do já decadente sistema socialista, e tais ações ficaram como uma marca da tomada final do poder pelo povo. Mas, acima de tudo, tratava-se também de proteger da destruição o maior número possível de arquivos e, com base neles, tornar possível reconstituir a história nacional coletiva, bem como as histórias individuais de famílias e de vidas. Embora muitos dos documentos tenham sido salvos no decorrer dos assaltos, inúmeros foram retalhados ou rasgados nos últimos meses de existência da Stasi e, por isso, pareciam irremediavelmente perdidos. Porém, graças ao trabalho do Comissariado Federal para os Registros do Serviço de Segurança do Estado da Antiga República Democrática Alemã (BStU), fundado em Outubro de 1990, muitos deles tiveram salvação, pois, desde então, foram manual e meticulosamente reconstruídos em todos os seus pormenores os fragmentos de “quase 16.000 sacos de registros rasgados pela Stasi”4. Desta forma, os fichários, processos e documentos da época da RDA estão, até hoje, sendo restaurados e subsequentemente indexados, de modo que - de acordo com o relatório de atividade da agência de 2017 - “desde a existência da BStU [...] já puderam [ser reconstruídos] manualmente um total de mais de 1.615.000 folhas de documentos rasgados”5.

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