Literatura Comparada: percursos locais, itinerários globais

Literatura Comparada: percursos locais, itinerários globais

Amilton Queiroz[1]

Simone Lima[2]

[1] Docente da Universidade Federal do Acre (UFAC).

[2] Docente da Universidade Federal do Acre (UFAC)


RESUMO:

Este texto se dispõe a pensar os percursos locais, os itinerários globais da Literatura Comparada, aportando na zona de trocas interdisciplinares. O trabalho se constrói a partir do diálogo transitivo entre teoria, crítica para buscar uma equação prospectiva sobre os lugares do discurso e os sentidos dos lugares como conceitos-chave para examinar a articulação entre o local, o nacional e o planetário. Sugere, assim, a travessia entre os arquipélagos do comparativismo praticado no entre-lugar do devir crítico, tingido pela contingência do imaginário errante embalado pela solidariedade interplanetária do texto literário plural, mas singularizado nas formas de habitar o mundo através das mobilidades transculturais e os traços da poética dos rizomas comparatistas.

Palavras-chave: Literatura Comparada, local, global, solidariedade, rizoma.


ABSTRACT:

This text sets out to think the local routes, the global itineraries of Comparative Literature, contributing in the zone of interdisciplinary exchanges. The work is built from the transitive dialogue between theory and criticism to seek a prospective equation about the places of discourse and the senses of places as key concepts for thinking the articulation between local, national and planetary. It suggests, therefore, the crossing between the archipelagos of the comparativism practiced in the place of the critical becoming, tinged by the contingency of the errant imaginary packed by the interplanetary solidarity of the plural literary text, but singularized in the ways of inhabiting the world through the transcultural mobilities and traits hhe poetics of comparative rhizomes.

Keywords: Comparative Literature, local, global, solidarity, rhizome.


Desde seu nascimento, no século XIX, a Literatura Comparada tem atuado como um campo heterogêneo de encontros interdisciplinares, incorporando à sua metodologia os fluxos das correntes teóricas dos séculos XX e XXI. Circunscrita nesses interstícios temporais, a Literatura Comparada tem constituído via de mão de dupla para examinar o literário e suas geografias locais nos mapas globais da diferença.

Tania Carvalhal, refletindo sobre a Literatura Comparada, concebe-a como “prática intelectual, que sem deixar de ter no literário o seu objeto central, confronta-o com outras formas de expressão cultural” (CARVALHAL, 2003, p.48). A pesquisadora incentiva a averiguação dos extratos literários e culturais, abrindo veredas críticas para compreender as tessituras, as textualidades e as idiossincrasias da prática comparatista. Notabilizada pela errância, a Literatura Comparada move-se na órbita dos imaginários intercontinentais, realçando os pontos nevrálgicos da diferença entre contextos. Como espaço de contato friccional, ela está circunscrita líquida e liminarmente à bifurcação de culturas, línguas e trânsitos, permitindo o estudo dos rastros do alheio no próprio e vice-versa.

Dessa forma, o comparativismo constitui uma instância a partir da qual se investigam os cenários transmigratórios globais. Com um olhar fisgado nos traços suplementares e as trocas simbólicas, a Literatura Comparada atravessa a galáxia da interdisciplinaridade para colocar em suspenso os essencialismos metodológicos em prol da configuração de um espaço de intercâmbio entre diferentes outridades, desdobrando-se na obliteração da origem das teias cartesianas para objetar itinerários pelos quais se processam os recortes do estatuto da prática comparatista. O comparativismo atua como lugar de investigação dos contextos, discursos e limiares críticos através dos quais são projetadas as cartografias das diferenças culturais, desveladas em escala axiológica, paradoxal e friccional do diálogo entre ficção, teoria e crítica literária.

Através dessa inclinação palimpséstica, propositiva e teórica, a Literatura Comparada inscreve-se nas fronteiras do saber construído sob o signo do espiral, notabilizando, como aponta Tania Carvalhal, “sua natureza mediadora, intermediária, característica de um procedimento crítico que se situa entre dois ou mais elementos, explorando seus nexos e relações. Fixa, assim, seu caráter interdisciplinar” (CARVALHAL, 2003, p.36). De fato, balizada pelo hemisfério do pensamento espiralado, a Literatura Comparada continua transitando pelo texto literário, entretanto, tem alargado, significativamente, seu espectro de compreensão em torno da inflexão do transcultural no território do comparativismo praticado hoje, posicionado na emergência de novos paradigmas epistemológicos.

Os desdobramentos dessa conjuntura da prática comparatista deixam rastros do empreendimento intelectual de pesquisadores afinados com a meta de, conforme assinala Wander Miranda, “pensar a metáfora da fronteira. Implícita à literatura comparada, torna-se espaço de travessia, ao mesmo tempo limite e limiar da possibilidade de elaboração da diferença” (MIRANDA, 1998, p. 15). O tom analítico de Wander Miranda realça a inclinação fronteiriça sobre a qual está erguido o procedimento comparativo, espaço intervalar onde as derivas do olhar alcançam a linha mater do movimento de entrada e saída dos textos averiguados.  De tal ângulo, ler é estar nos limites, é movimentar-se em torno do outro para compreender o trajeto do alheio na fronteira do próprio. Noutros termos, estar nos limites é, pois, um traço peculiar do gesto comparatista. Seu plano de atuação escala o sentido do provisório, da mobilidade e da dicção errante dos textos, imagens e discursos, realçando o que há de uno e diverso na escritura literária.

Posicionada no jogo das trocas culturais, a Literatura Comparada caminha pelas fronteiras do interdito para analisar as diferenças paradoxais, os diálogos transterritoriais e as tensões do imaginário, agudizando a força da metáfora da travessia pelos textos literários e suas interações com outros saberes fraturados pela experiência do trânsito dos sentidos.  Fisgado pelo sentimento do plural, o procedimento comparatista, consoante Luis Jobim, “traz à luz os vários níveis de contatos, encontros e trocas culturais que permitem chegar à construção de comunidades transnacionais” (JOBIM, 2013, p. 116). O percurso de leitura da comparatística faz-se do deslocamento pelas filigranas do encontro estabelecido entre as figurações textuais. Nelas, os lugares são dotados de múltiplas percepções que levam o comparatista a vislumbrar as trocas estéticas e culturais, embaladas pela formação de programas de estudos pensados para além dos conceitos de nação, idioma e literariedade. Não por acaso, tal trio deixa de ser colocado como único ponto gravitacional da análise comparatista, abrindo espaço para fugir das ilações de atribuir homogeneidade ao que é diverso no universo das redes de interpretação.

Dessa maneira, o caráter múltiplo revela o abandono da prática monolítica de ler o texto literário, fomentando o exercício da comparatística guiado pela ótica da heterogeneidade de saberes passíveis de reformulações. A Literatura Comparada, sob essa ótica, investiga o literário em suas dinâmicas interativas com os vestígios memórias, culturais e estéticos dos imaginários. Ela se insurge contra a centralidade dos contatos, assumindo diferentes ascendências da heterogeneidade cultural, haja vista ser portadora do traço signatário da lógica textual espiralada, ou seja, disseminadora do resíduo parcial, logo, fomentadora da sensação de estar e viver entre fronteiras diversas.

O contínuo deslocamento da Literatura Comparada pelo território da inter, multi e transdisciplinaridade reenergiza seu campo de atuação, conjugando o elemento forâneo e o de dentro para mapear os intercâmbios como sua marca de singularidade diversa de ler o literário, fazendo o comparatista voltar-se sobre si mesmo para, como sublinha Michel Schneider, perguntar-se: “De que é feito um texto? Fragmentos originais, montagens singulares, referências acidentes, reminiscências, empréstimos voluntários.” De que é feita uma pessoa? Migalhas de identificação, imagens incorporadas, traços de caráter assimilados” (SCHNEIDER, 1990, p. 15). O movimento interrogativo da palavra faz o comparatista perceber que texto, cultura e imaginário têm implicações incontornáveis, pois essa relação triádica desnuda as pretensões tomistas, iluministas e cartesianas de enclausurar a perspectiva do analista ao solo das glocalizações etnocêntricas. O viés comparatista estica, assim, as direções de leitura através da deambulação por paisagens textuais onde se desenha o encontro multifocal das geografias interplanetárias.

Mais ainda, o desvio do conceito de tempo positivista, mecanicista e historicista contribui para apostar no valor das durações instantâneas do pensamento crítico, fazendo ressoar a lição, consoante Eneida Souza, de que “a interdisciplinaridade, de vilã da história poderia receber tratamento mais condizente com sua força de aglutinação de diferenças e de pulverização dos limites fechados dentro dos campos teóricos” (SOUZA, 2002, p. 73). A Literatura Comparada instala-se, por conseguinte, nas tramas da interdisciplinaridade para sondar o texto em suas múltiplas interações e limares críticos. 

A natureza metateórica dos estudos comparatistas aponta para um fazer crítico alimentado pelo diálogo que indica ganchos teóricos reorientados pela perspectiva metodológica do objeto analisado. Logo, as condições semióticas e culturais demandam uma diligência afastada do recenseamento da lógica universalista e totalizante, mas, nem por isso, apagada das representações do literário no contemporâneo, reconhecido em seu traço uno e diverso. A fuga de uma única via de acesso ao conhecimento demonstra como o comparativismo instala-se na margem do saber que promove intercâmbios não para celebrar os consensos, mas sim para incentivar o mapeamento da fragmentação do imaginário. Trata-se, pois, de conjugar, no horizonte da comparatística, a transumância epistemológica como estratégia para pontuar o lugar a partir do qual se fala, buscar respostas para além do local, mapear as inflexões do global dentro do local e investigar o modus operandi do saber rizomático disseminado na constelação das trocas culturais.

Inclusive, conforme Tania Carvalhal, “heterogeneidade, processos dinâmicos de transformações culturais e de interpenetração, entrecruzamentos de discursos são elementos que constituem, hoje, pontos centrais da atenção comparatista” (CARVALHAL, 2003, p.67).  No fragmento, foca-se o caráter transitivo da Literatura Comparada, atravessada pelo desenho plural da percepção do literário, dilatado em uma mirada interdisciplinar. A permanência unicamente dentro da fronteira do literário impossibilita estabelecer nexos mais amplos com a constelação do saber. Por isso mesmo, a direção apontada transcende o eixo do isolamento e aposta no entrecruzamento de territórios solidários, elegendo como lócus de enunciação explorar diferentes práticas intelectuais para além das fronteiras do compartilhamento das semelhanças para içar os pontos de diferença cultural.

Em tal horizonte de relações, o comparativismo mapeia os hiatos operados na rede de significação das alteridades, fazendo-as vir à baila através de leituras que não estigmatizam ou envernizam os estereótipos construídos pela ótica eurocêntrica; ao contrário, raspam as camadas do verniz passado sobre a imagem do outro para examinar as opacidades do encontro como veículo de transporte do imaginário intercontinental. Na percepção de Eduardo Coutinho, o trânsito da Literatura Comparada contribui para entrelaçar postos dinâmicos de intercâmbio cultural, constituindo “uma espécie de ponte entre o exterior e o interior da região ou país” (COUTINHO, 2010, p.39). Ponte de travessia para as trocas simbólicas é assim que a Literatura Comparada se projeta como lugar das movências intersubjetivas do ato interpretativo; jamais reduzida à seara do insulamento crítico, mas sim atenta às dinâmicas do agora, que desestabiliza o fluxo do pensamento cartesiano em favor das releituras das redes de intercomunicação entre o literário e outras formas de representação da mobilidade cultural. 

Cabe, aqui, uma aproximação entre a posição de Tania Carvalhal e Eduardo Coutinho. De modos distintos, porém complementares, os dois críticos encaram a Literatura Comparada como lugar de encontros plurais responsáveis pela articulação de projetos multifacetados. Noutras palavras, o comparativismo é portador de trocas entre os imaginários postos em relação, revelando que o ethos comparatista se realiza no diálogo entre o literário, o geográfico, o histórico e o cultural, por exemplo.

A partir do trânsito pelas encruzilhadas do pensamento rizomático, o universo comparatista respalda-se no estudo das mediações, das negociações e das passagens culturais, congregando em torno de si a interligação do próprio e alheio nas relações interplanetárias. A dinâmica do comparativismo conjuga, portanto, a metáfora da passagem como território para realizar a cartografia de imaginários heterogêneos, tornando substantivo seu deslocamento entre as filigranas do nacional, transnacional e intercultural no contemporâneo. Como está posicionado no cenário das triangulações do presente, o comparatista atua nas fronteiras dos textos, procurando, neles, portos de observação onde seja possível vislumbrar rotas de investigação.

O deslocamento permanente pelo discurso de outrem revela a face da estrangeiridade nos limiares das leituras comparatistas. O exame da escrita alheia corrobora para averiguar, assim, a elasticidade do texto artístico, teórico e crítico, observado desde a feição rarefeita, singular e plural, servindo a comparação de meio para promover o entrecruzamento de saberes, discursos e alteridades através da projeção de trocas intersubjetivas, intertextuais e interculturais. Contumazmente, a Literatura Comparada habita o espaço da transitoriedade da diferença crítica, afrontando as fronteiras para esticar os traços dos vestígios do encontro entre culturas içadas por uma visão estereoscópica de redes de pertencimento relativo. Elas estão inscritas a partir da sensação de relevo da liminaridade, tornando latente a vivência em outros lugares e outras línguas que jogam o olhar crítico na terceira dimensão do imaginário discursivo.

Desse modo, a comparatística explora a órbita das concessões friccionais, permitindo a implosão dos binarismos quando investiga o texto literário a partir de estéticas transculturais que revelam, pontualmente, as brechas abertas pela escrita literária, nuançada pela natureza paradoxal do diálogo com o substrato cultural. A transversalidade é, portanto, o caminho trilhado pelo viés comparatista, tecido através de uma rede teórico-metodológica impulsionada pela cartografia dos rastros e vestígios culturais. A rigor, a perspectiva desde dentro e desde fora das constelações do saber integrado fomenta o fluxo de uma prática comparatista sedimentada nas interações, dinamizando a travessia pelo arquipélago da transculturalidade e transnacionalidade.

Esse viés de mão dupla é, portanto, uma regra em vez de exceção que torna exequível o desenvolvimento da atividade comparatista posicionada entre os laços de solidariedade dos contatos literários e culturais. Disso decorre a atitude do comparatista viver a partir da análise dos interstícios da heterogeneidade dos textos, sondados “no entre-meio entre duas condições fronteiriças” (BHABHA, 1998, p. 307). O comparatista é portador de duplas ou múltiplas práticas de leitura, ele não está mais radicado no tom monolítico que reverbera o traço do mesmo. Pelo contrário, o crítico comparatista comporta em si a marca do entre dois, do entrelugar dos saberes, viabilizando o processo de elisão das barreiras atávicas do pensamento, em prol da ultrapassagem das fronteiras nacionais e linguísticas para investigar a complexidade sociocultural do local, projetado globalmente nas tramas do texto literário.

Sobre o rompimento dos limites, Eurídice Figueiredo coloca o comparatista diante da necessidade de reconhecer que “a clausura do/no nacional tem impedido a compreensão de movimentos e tendências surgidos em país ou área linguística têm correlação com outros muito mais amplos que atingem outras regiões, constituindo-se em macro-regiões” (FIGUEIREDO, 2013, p.45). A Literatura Comparada, sob essa ótica, serve de entreposto discursivo para mobilizar projetos de estudos calcados na averiguação dos “movimentos e das tendências” que implodem no cenário da contemporaneidade, reconhecendo que o local já se internacionalizou há muito tempo. Ou seja, as trocas culturais e literárias acontecem em escalas cada vez mais intensas, borrando o imaginário do próprio, dotado do relevo do alheio que atinge o diálogo das territorialidades contemporâneas. A comparação é, assim, porto de interligação da demanda literária e cultural.

Versando sobre os caminhos pelos quais o nacional pode ser redimensionado no comparativismo, Rita Terezinha Schmidt oferece um argumento pertinente para avaliar a reinscrição do “nacional sob o ângulo de uma relação dialógica entre suas fronteiras intranacionais e seus fluxos transnacionais, uma relação que se renova e se reformula no processo de narrativização/textualização de subjetividades nacionais múltiplas” (SCHMIDT, 2010, p. 163).  O problema levantado na passagem reside no enclausuramento do nacional na linha do homogêneo, desconsiderando o jogo de contrariedades, silêncios e resistências operados no campo das trocas simbólicas. A vereda do diálogo se coloca como saída para o exercício da comparação, conotando a tensão inerente ao imaginário das heterogeneidades que substantivam culturas, diferenças e alteridades embutidas neste nacional deslizando pelo limiar da totalidade contraditória da memória dos espaços interculturais. A Literatura Comparada, como territorialidade onde as passagens singularizam seu fazer crítico, pode servir de mecanismo de desnaturalização da história do lugar como homogêneo, incentivando o mapeamento dos dissensos que comparecem, em graus diferenciados, ao universo da teoria e ficção.

De um lado, a narrativização da heterogeneidade do nacional se faz através do transbordamento de fronteiras intranacionais que se entrelaçam os ordenamentos das interações globais do presente.  De outro lado, a textualização do nacional híbrido vem chancelada pelo cruzamento de estratégias de (des)construção que respeitam e valorizam o diverso dos gestos transnacionais. Juntas, a narrativização e a textualização do imaginário das trocas intersubjetivas incentivam o tráfego pelo terreno da nãolinearidade do pensamento comparatista, de tal modo a solidificar o tecido errático da aliança dos contraditórios. A busca do terceiro espaço do saber comparatista consiste na divulgação das bifurcações pelas quais é possível grafar um espaço onde não se encontram respostas, mas interpelações diante da figura inquietante do texto como abertura para outros textos em diferentes direções.

Nessa dianteira, configura-se o comparativismo como um espaço móvel e plural, divorciado de um eixo fixo que tem seus princípios abalados pelo devir de uma prática de leitura reposicionada no enredo das diferenças. É com razão que Eduardo Coutinho defende a realização de um comparativismo embalado pela perspectiva de pensar “o local na articulação tripla da heterogeneidade das culturas a que se refere: dentro das circunscrições locais, entre essas e a interioridade da nação e esta no contexto global” (COUTINHO, 2006, p. 230). A concretização do comparativismo nessa feição serve para pontuar que os imaginários nascem dos interstícios de outras localizações, distanciadas do perímetro das retinas eurocêntricas cujas barreiras lancinantes são quebradas para que venham à baila outras geografias do contato. Um comparativismo dessa natureza contrasta os textos com vistas a reconhecer a reciprocidade, a interação, as transferências e as trocas, suscitando a análise das etnopaisagens, mediapaisagens e entrepaisagens do movimento interplanetário.

A partir dessa clave interpretativa, os processos de interação trazem uma consequência importante aos estudos comparatistas: sua constante necessidade reavaliação dos contextos teórico-metodológicos. Desse lugar de reavaliação, Zilá Bernd enfatiza: “Se a Literatura Comparada hoje vier a realizar a passagem do enfoque tradicional estável das nacionalidades para o enfoque móvel e aberto à diversidade e à relação, representado pela transculturalidade, então penso que podemos continuar a considerarmos comparatistas” (BERND, 2013, p.220). Para Bernd, é preciso afrontar as fronteiras da Literatura Comparada, procurando investigar a passagem do nacional ao transnacional e da transnacionalidade à transculturalidade. O estudo dessas relações transversais remodela o estatuto do comparativismo através da busca, sobretudo, de flagrar as marcas de convergência das múltiplas abordagens e alargamento das fronteiras do literário.

Ainda sob o influxo do pensamento de Zilá Bernd, o comparativismo precisa observar como a imprevisibilidade cultural encontra-se pautada por paradigmas inquietos cuja força de desdobramento reside no desvio em relação às regras de aceitabilidade inteligibilidade do monolítico. Comparar, nesses termos, significa promover o desenvolvimento de um programa de estudo que explore os lugares de ruptura, as geografias da solidariedade e a fricção da movência do heterogêneo. Com tais instrumentos de reflexão, o comparatista consegue mapear os hiatos existentes entre as culturas transnacionais e transculturais, palavras-chave para entrar no limiar do comparativismo e redescobrir outras dimensões do fluxo global na teia do local onde atua o crítico literário: as frestas do saber dialógico da fricção interplanetária.

Por tal caminho, verifica-se que os estudos comparatistas são dinâmicos. Ao reconhecer isso, Benjamim Abdala Junior enfatiza que “as articulações comunitárias podem ser de múltiplas ordens e politicamente nos parece importante revelar que o mundo atual é de fronteiras múltiplas e identidades plurais, seja numa perspectiva individual, nacional ou de agrupamentos sociais” (ABDALA JUNIOR, 2012, p. 35). Nessa guinada reflexiva, o comparativismo comporta a abertura necessária para reconhecer o gradativo apagamento da dimensão aurática da homogeneidade, examinando o contexto das interações como marca das especificidades regionais, nacionais e supranacionais. A investigação da solidariedade releva, certamente, as diferenças e o que elas têm em comum, fazendo circular repertórios transnacionais cujas razões nômades timbram os contornos da prática comparatista constantamente atravessada pela mobilidade teórica de perspectivas transculturais. A consequência imediata desse ato é a Literatura Comparada atuar como meio de acesso à leitura de textos, com seus métodos e técnicas interdisciplinares, inclinados, assim, à revisão do conceito de literário em suas várias ondulações culturais.

Mais ainda, o comparatista, aproveitando a lição de Silviano Santiago, “brinca com os signos de um outro escritor, de uma outra obra. As palavras do outro têm a particularidade de se apresentarem como objeto que fascinam seus olhos, seus dedos” (SANTIAGO, 2000, p.21). A aventura da leitura do texto de outrem é a chave-mestra que abre as zonas do contato entre as histórias locais e as questões globais espalhadas na superfície e profundidade do imaginário dos textos analisados pelos comparatistas. O processo de identificação dos diálogos em diferença descentra o eixo dos valores etnocêntricos, propiciando a quebra de hierarquias dos discursos, além de aguçar a experiência de tradução do alheio como portador de feições do próprio. O entre-lugar da leitura comparatista advém do movimento cruzado de vias perceptivas onde a sensação de estrangeiridade aciona o desejo de prosseguir lançando olhares sobre a paisagem da escrita forânea tornada espaço de reflexão para compreender a rede paradoxal das alteridades. Praticar o gesto da comparação é, de fato, observar quanto são intricadas as relações locais e globais do texto literário, visto em sua acepção de jogos de linguagem que desvelam marcas de poder da geografia da errância dos sentidos.

Nessa perspectiva, o comparatista examina o encontro entre imaginários, endossando o pensamento de Angel Rama sobre regiões  que “podem abranger do mesmo modo diversos países contíguos ou recortar dentre deles áreas com traços comuns, estabelecendo assim um mapa cujas fronteiras não se ajustam às dos países independentes” (RAMA, 2001, p.282). O intelectual uruguaio frisa a importância da ruptura do ciclo dos nacionalismos, vendo a urgência de se estreitar os laços de reflexão em torno da investigação das comarcas culturais, lugares de interações multíplices da experiência do contato sem limites de dissuação. Desse locus de enunciação, Rama convoca o comparatista ao exercício da ultrapassagem dos nexos limítrofes para realizar a cartografia do fazer crítico que olha por cima das fronteiras locais e identifica a rede da cosmovisão do deslocamento dos imaginários culturais. O global do ato crítico está grafado, enfim, no desvio de uma geografia eurocêntrica, fraturada em sua posição autoritária para fazer circular construções literárias e discursivas portadoras da passagem pelas fronteiras da errância cultural.  

Mediador da conversa entre o próprio e o alheio das culturas, o comparatista intercomunica-se com os vários agentes do contato para atravessar a zona da relação textual, trazendo à luz os lugares dos discursos e os sentidos dos lugares onde se travam as fricções entre o local, o regional, o nacional, o inter-nacional e o planetário: figuras transterritoriais de enlaces densos cuja imagem especular incentiva o desdobramento do comparativismo na órbita dos saberes. Essas figuras transterritorais ampliam a interligação do pensamento comparatista, dotando-o de uma espessura elástica para ver singular e pluralmente a jornada de imbricação das mobilidades escriturais. Do local ao planetário, o comparatista reconhece as interferências mútuas das remodelagens dos termos que abraçam o contexto das trocas culturais, averiguando quais os influxos dessa mudança de olhar para o remanejamento de reflexões em torno do literário no contemporâneo.  

Aprofundando mais a questão, Cornejo Polar vê o exame das literaturas heterogêneas a partir da “duplicidade e pluralidade dos signos sociais do processo produtivo: trata-se, em síntese, de um processo que tem pelo menos um elemento não coincidente com a filiação dos outros, e que seria necessariamente uma zona de ambiguidade e conflito” (POLAR, 2000, p. 162). O comparativismo literário comporta, assim, o exercício de leitura que busca fragrar as ambiguidades do campo de configuração dos contatos intercontinentais, examinando as cenas de conflito e intercâmbios entre os imaginários. Para o crítico peruano, as histórias locais e as questões globais têm papel determinante na reconfiguração do sujeito e discurso migrantes, servindo como situações-limites para conceber relaçoes divergentes que abrem novas trilhas para renovar o pensamento crítico latino-americano.

O comparatista atuaria nesse lugar residual onde se deixam notar as heterogeneidades, as polifonias e os cruzamentos culturais, cartografando, assim, uma totalidade contraditória e fragmentada das redes textuais, povoadas pela densidade una e diversa do imaginário plural. Pensar a Literatura Comparada alocada na instância da interação é, como apregoa Stuart Hall, reconhecer que “hoje em dia, o meramente local e global estão atados um ao outro, não porque este último seja o manejo local dos efeitos essencialmente globais, mas porue cada um é condição de existência do outro” (HALL,  2013, p.50-51). Destarte, a rentabilidade dos andares por dentro da espessura da localidade e dos olhares pela atmosfera do global se encontra no compartilhamento da circulação entre distintas margens do saber, pondo em relevo a existência de vetores analíticos a serem retomados pelo comparatista como sinal de sua diligência constante na paisagem do texto plural, singularizado a cada leitura empreendida.

Como prática desenvolvida a partir de um local específico - o da rede de relações transversais -,  o comparativismo contempla, também, o feitio global, congregando em torno de si a condição de lugar de passagem onde o transnacional interfere no trânsito da interpretação de textos, discursos e imagens do contemporâneo. A partir dessas inclinações díspares, ler os contextos da diferença é reconhecer que o acento tônico da investigação comparatista desenvolve-se na cartografia de alteridades próximas e distantes, transitando entre culturas sem fronteiras para traduzir os traços da ocidentalidade paradoxal e da relação dialógica do saber rizomático.

As matizes deslocadas do comparativismo evidenciam o percurso da outridade, revelando o surgimento de uma prática de leitura guiada pelo mapeamento das singularidades dissonantes. Por conseguinte, a Literatura Comparada abre espaço para  investigar “as contra-narrativas da nação que continuamente evocam e rasuram suas fronteiras totalizadoras – tanto reais quanto conceituais – perturbam aquelas manobras ideológicas através das quais ‘comunidades imaginadas recebem identidades essencialistas” (BHABHA, 1998, p. 211). A vocação para acolher e doar uma multiplicidade de conceitos-chave faz do comparativismo um lugar de errância que transborda a visão provinciana de olhar somente para si, estudando a presença, o olhar e a marca do outro na textualização de seu ato crítico. O tom problematizador da comparação aponta, assim, a maleabilidade de seus itinerários, intensificando a projeção do local em âmbito transnacional através da imersão nos territórios da transitividade cultural.

Esse traço do comparativismo lembra o que indica Octavio Paz sobre o reconhecimento de que o “espírito é uno, a alma é dispersão, a alteridade” (PAZ, 1994, p.8). Entre o jogo de vozes plurais e o poder de rasura das fronteiras, o fazer comparatista instala um fio condutor de pensamento coerente, mas não estático que transita pelas regiões agrupáveis para dar visibilidade ao caráter conflituoso da horizontalidade do território local e global.  Com um pé lá, outro cá: o comparativismo traz embutido o enfoque da obiquidade do trânsito de alteridades, entre as quais são forjados os mapas sobre as formas de habitar o mundo do diálogo.  É, portanto, na zona fronteiriça dos imaginários que se dota o cenário comparatístico da agência articulatória de garimpar novas formas de interatividade crítica.

Sobre a situação de interligação das perspectivas, no penúltimo parágrafo de Literatura Comparada: história, teoria e crítica, Sandra Nitrini sumaria um fazer comparatista amparado no “fluir ziguezagueante de todas essas teorias faz da literatura comparada um objeto escorregadio. Isso permitiu que, até agora, nunca envelhecesse a pergunta: o que é literatura comparada?” (NITRINI, 2000, p. 289). A busca constante de um leitmotiv que identifique o traço o múltiplo da prática comparatista tem contribuído para o deslocamento entre um universo interdisciplinar diverso. À cata da coerência interna, o comparatista opera na circunvizinhança de rumos, limites, fronteiras, passagens e trânsitos. O resultado é que os caminhos de reflexão do literário assumem novos vetores que colocam em xeque toda tentativa de apreensão de sentido unívoco para amparar-se na complexidade das comarcas do pensamento flexível, aderente e móvel das tramas do comparativismo.

Nesse sentido, é salutar fazer referência ao foco de leitura do alemão Henry Remak, cujo esforço intelectual centrava-se em pensar a Literatura Comparada como não detentora de uma metodologia exclusiva, podendo ela aproveitar uma pluralidade de métodos e aportes de contingências teórico-críticas plurais. Por isso, Remak compreendia que a “literatura comparada é o estudo da literatura além das fronteiras de um país específico e o estudo das relações entre, por um lado, a literatura, e, por outro, diferentes áreas do conhecimento” (REMAK, 1994, p.175). Espaço de intercâmbios com outros saberes, o comparativismo experimenta a heterogeneidade crítica como princípio para romper suas próprias fronteiras e traduzir as fragmentações do mundo com a advertência de que o local e o global do conhecimento são linhas contraditoras de negociação ininterrupta com as teias das epistemologias do contemporâneo.   

Entre o literário e outras esferas do conhecimento, o trânsito da Literatura Comparada serve para explorar os pontos convergentes do local e global no traço crítico. Essa transitividade ocupa o entre-lugar de diferentes culturas, potencializando a amplitude heterotópica das fronteiras interculturais como metáfora do entrecruzamento de vozes ambíguas. Praticado sob os ditames da interatividade, o comparativismo franqueia a passagem pelos lugares heterogêneos vendo, no interior e exterior destes, a plasticidade do exercício epistemológico nuançado pelo desvio do chauvinismo teórico-crítico que fomenta apenas o signo do mesmo em detrimento do diverso.

A concretização dessa atitude desviante termina por cadenciar o ritmo das repactualizações em níveis globais dos rostos diferenciados da crítica comparatista, fortalecida, como defende Regina Zilberman, desde a “Teoria da Literatura, migrando para a escola, também nos oferece o conforto necessário, porque mecanizada e esteriotipada. Buscar novas alianças com as manifestações da linguagem talvez seja a escolha necessária, e é essa lição que a escola ministra a ela” (ZILBERMAN, 2016, p. 415-416).  Literatura Comparada e Teoria da Literatura, dois caminhos que se cruzam no exercício da crítica vista como lugar de diálogo dos saberes. Um e o outro saindo do local de suas enunciações intersticiais para se imbricarem no colóquio em torno da migração dos conceitos, fundamentos e metodológicas de leitura do objeto literário examinado na confluência com outros portos de significação da memória do contato.

Inscrito entre a teoria e a prática, o comparativismo se alimenta da mobilidade das análises que empreende, atuando para além dos tangenciamentos solidários da diferença para redimensionar os portos de reflexão onde ancora seu projeto de atravessar e ser atravessado pela tessitura da transversalidade do conhecimento interdisciplinar. O intercâmbio de linguagens coloca em relevo, como assinala Jonathan Culler, que “estamos num mundo interdependente e precisamos pensar sobre a relação entre a teoria ocidental e as teorias literárias e culturas de outros lugares” (CULLER, 2016, p. 97).  Para Culler, é preciso buscar as interações dos saberes como estratégia para sair das províncias do conhecimento, apostando no movimento de contato operado dentro e fora do estrato linguístico, cultural, estético, teórico e ético. Em seu estatuto movente, a Literatura Comparada integra essa mirada interdisciplinar, sendo lugar de problematização dos contatos como linha de tradução do próprio e alheio das culturas aproximadas.     
Radicada no território da cultura no plural, Ivete Walty dinamiza o debate dos percursos locais, itinerários globais no contemporâneo, ao enfatizar que “a Literatura Comparada, cruzamento de culturas e discursos, faz-se ela própria forma de intervenção no espaço público” (WALTY, 2012, p.103). Essa intervenção a que alude Walty viria no momento em que o comparatista se debruça sobre a paisagem do texto, concebendo-o como espaço habitado pela terceira margem, pela escritura dialógica e a projeção de uma nação heterogênea que vive de forma obscura e ubíqua a localidade da cultura global. Os sujeitos figurados nessa poética do deslocamento se encontram na travessia de lugares de vacância, tentando redescobrir as pistas da alteridade migrante para decifrar as esfinges da troca intersubjetiva e intercultural dos imaginários.

Por essa linha de raciocínio, o comparatista habitaria uma constelação de leitura onde o manejo do texto alheio apontaria, como frisa Julia Kristeva, o ensinamento de que “o estrangeiro começa quando surge a consciência da minha diferença e termina quando nos reconhecemos todos estrangeiros, rebeldes aos vínculos e às comunidades” (KRISTEVA, 1994, p.9). O trânsito do comparatista é marcado, assim, pelo reconhecimento de sua estrangeiridade diante do texto de outrem, articulando horizontes geográficos e culturais para investigar as redes de solidariedade no entre-lugar da ficção e teoria. Noutras palavras, o comparatista desvia-se da perspectiva de posicionar sua estrangeiridade unicamente no lócus das históricas locais do encontro de saberes e parte em direção do fortalecimento do projeto de flagrar a estrangeiridade também no solo das questões globais do intercultural.

A estrangeiridade encontra-se dentro e fora do universo do comparatista, fazendo-o deambular pela interconexão do ato crítico, divorciado do libelo da unidirecionalidade do olhar. É pela linha de fuga da centralidade discursiva que Laura Cavalcante Padilha constata que o exercício de leitura do texto guarda em si “o próprio (já perdido nos desvãos dos seus princípios) e o alheio transplantado, mas que também faz parte da memória desse próprio, se entrecruzam e suplementam, alargando os limites de qualquer fonia que se queira hegemônica e o princípio de tudo” (PADILHA, 2007, p. 116). As diferentes fonias comparatistas prestam solidariedade ao desejo constante de averiguar a contextualidade do olhar que dinamiza os cruzamentos geopolíticos e culturais. Com essa base sinérgica de leitura contrapontual, os fluxos planetários tornam-se variantes fecundas para o comparatista alojar-se na paisagem de regiões geográficas dotadas de forte inclinação à cooperação do tecido híbrido das linguagens, dos discursos e dos saberes.

Esse alojamento errante na cadeia dos sentidos do texto alheio tornado próprio frisa a postura móvel capaz de traduzir as comarcas do dizer, fazer e sentir na heterogeneidade dos imaginários literários. Como cartografia do movimento textual, a Literatura Comparada atua como limiar transfronteiriço, dando volume à aventura teórico-crítica pelo território de narrativas locais e globais, cujas coordenadas de navegação integram o horizonte da topografia de vidas errantes, nômades e rizomáticas. Para dar conta desse temário, o comparativismo articula criticamente sua mobilidade de leitura repousada no imaginário da distância, da perspectiva móvel, das alteridades em trânsito e da consciência de deslocamento.

Explorando os territórios da fonologia, morfologia, sintaxe e semântica das relações entre o eu e o outro da relação, a Literatura Comparada recoloca, prospectivamente, o jogo dialógico dos trânsitos das temporalidades disjuntivas, como estratégia articuladora de investigação da solidariedade cultural/estética, fomentada desde o movimento os intercâmbios interplanetários. A instauração desse projeto enraíza dinamicamente o magma de trocas culturais, testemunhando a força da interação com as matizes múltiplas do local dentro do global e vice-versa. O traço proteiforme do encontro crítico demonstra a atmosfera de alteridades que residem nas fronteiras de saberes interacionais. O comparativismo localiza-se no fluxo do exame da porosidade dos lugares, de tal forma a gesticular em direção às planícies do interdito, compactando as adjacências de vozes nascidas das relações interculturais.

Como estratégia interdisciplinar, a Literatura Comparada investiga percursos que intersectam coreografias identitárias, sublinhadas pela experiência dos interstícios culturais. Por sua vez, o estudo comparatístico da poética do encontro coloca em pauta uma geografia do desterro, a qual mexe com as zonas de pertencimento provisório, costurando, assim, cenas dos movimentos migratórios dentro da espessura de culturas transfronteiriças, alimentadas da maximização de alteridades reticentes, cujas travessias desatam os fios da linha divisória entre o eu e o outro. A retirada das barreiras do caminho intercultural promove a entrada e a saída de outros meios simbólicos de expansão do livre trânsito pela zona do intermédio da experiência comparatista.

Lugar de errância, o comparativismo foca a flexibilidade dos marcos regulatórios da tradução do eu diverso, trazendo para sua agenda de trabalho o debate sobre as semioses deslocadas do plano das superficialidades e enraizadas na aventura do esgarçamento da textualidade binária. Destarte, o exame comparado das margens heterogêneas da cultura própria e alheia referenda os interditos de alteridades posicionadas no entre-lugar do texto plural. Mais ainda, o movimento da leitura comparatista amplia o espectro de sua atuação até o continente do diálogo, fazendo-o, por conseguinte, habitar o ecossistema da cultura errante e do olhar dinâmico.

Desde os horizontes caleidoscópicos, a Literatura Comparada transita entre limites da opacidade textual para examinar o movimento de desterritorialização das alteridades interplanetárias, distanciadas da finalidade precípua de separação entre o mesmo e o diverso. A adoção da perspectiva dos limiares permite o comparatista empreender suas diligências críticas pelos arquipélagos das trocas solidárias entre os imaginários do trânsito interdisciplinar. Nesse sentido, o ato comparatista de estar, ser e viver nos entremeios das fronteiras é uma forma realizar, em deriva, a leitura contrapontual dos textos literários contemporâneos. Como marca de uma geografia dos contatos, esses textos são examinados sob a égide do olhar posicionado dentro e fora do contexto das inter-relações planetárias.

Nesse contexto de relações transversais, pensar a Literatura Comparada é explorar as redes de conjunção, desvendar o cenário das trocas e trançar os fragmentos da paisagem do texto literário ao exercício crítico da movência dos saberes. Através da travessia dentro e fora da trama do comparativismo, tem-se a possibilidade de estabelecer nexos entre o que existe de relacional e singular, cartografando a força do trânsito de culturas. Trançando olhares plurais, o comparativismo vislumbra os laços de pertencimento ao rizoma do encontro, girando em torno das constelações sintomáticas do intercâmbio simbólico das culturas em deslocamento.  

As últimas palavras desse artigo não sinalizam para o horizonte do ponto final da reflexão sobre a Literatura Comparada: percursos locais, itinerários globais. Ao contrário, aportam nas fronteiras de uma leitura que se constrói a partir do diálogo transitivo entre os lugares do discurso e os sentidos dos lugares como conceitos-chave para repensar a articulação entre o local, o nacional e o planetário. Sugere-se, assim, a travessia entre os arquipélagos do comparativismo praticado no entre-lugar do devir crítico, concebido na contingência do imaginário errante embalado pela solidariedade interplanetária do texto literário plural, mas singularizado nas formas de habitar o mundo através das mobilidades transculturais e os traços da poética dos rizomas comparatistas.

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Recebido: 15/01/2017; Aprovado: 15/04/2017

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