Discurso de emerência

Discurso de emerência

Eduardo Coutinho[1]

[1] Universidade Federal do Rio de Janeiro.

RESUMO:

Retrospectiva de carreira: Eduardo Coutinho

Palavras chaves: Eduardo Coutinho


ABSTRACT:

Career  retrospective statement: Eduardo Coutinho

Key-words: Eduardo Coutinho


É com grande alegria e sentindo-me imensamente honrado que me encontro aqui neste momento para receber desta casa onde estou há cinquenta e dois anos o título de Professor Emérito. Minha história com a Universidade Federal do Rio de Janeiro começou em fevereiro de 1965, quando cheguei ao velho edifício da Av. Presidente Antônio Carlos, para prestar exame de Vestibular para o Curso de Português e Literaturas de Língua Portugesa. As provas realizaram-se parte nesse edificio, hoje novamente Casa d’Italia – após a interrupção prolongada causada pela atuação do Brasil na Segunda Guerra Mundial – e parte em um prédio denominado então de Anexo, pertencente à Academia Brasileira de Letras e situado ao lado do Petit Trianon. Dotado de uma boa formação, recebida sobretudo do Colégio Pedro II onde havia feito o Curso Clássico, mas para a qual contribuiu minha convivência com intelectuais e artistas que sempre frequentaram a casa de meus pais – ele  escritor e professor catedrático do referido Colégio e posteriormente da Faculdade de Filosofia da UFRJ – fui aprovado sem dificuldade, e um mês mais tarde, dava início a meu curso. 

Meu período como discente na UFRJ foi marcado por fortes experiências que tiveram papel relevante tanto na carreira que vim a desenvolver mais tarde quanto na constituição de meu caráter. A convivência com os colegas, alguns dos quais aqui presentes, e com quem até hoje mantenho afetuoso contacto, e com os professores, com quem aprendi, acima de tudo, o valor do diálogo, da troca salutar de informações e principalmente de ideias, foram decisivos para mim. Recordo com imenso carinho as aulas magníficas que tínhamos em que discutíamos as obras de nossos poetas e romancistas, bem como as reflexões de cunho teórico e crítico que se haviam publicado sobre elas. Recordo também com o mesmo entusiasmo os nossos debates em aula, àquela época frequentes, em que a palavra circulava e a escrita brotava como produto de nossas reflexões semeadas nas discussões. Eram aulas de literatura, mas marcadas por forte interdisciplinaridade em que se faziam referências frequentes não só às demais formas de manifestação artística, como também a outras áreas do conhecimento, dentre as quais a Filosofia, a Sociologia e a História.

Mas nem tudo eram flores naquele momento. Eram tempos difíceis, marcados por grande repressão, em que a palavra constituía um risco constante e tinha de ser sempre dosada com cuidado. E houve lutas, da parte de alunos e professores, que se revertiam em greves e reuniões muitas vezes encerradas com violência. Em meio à turbulência da vida no país, caminhamos para a conclusão de nosso curso, e nos formamos em dezembro de 1968, quinze dias após a decretação do AI-5, com um discurso propositalmente mudo de nossa representante, líder estudantil das mais brilhantes. Poucos meses depois, concluímos também a parte de Didática, realizada na Faculdade de Educação, e nos tornamos então aptos para o ensino de Letras. No mesmo ano de 1969, junto com sete outros colegas, tornei-me Professor Horista, e, em janeiro de 1970, passei a integrar o quadro de professores efetivos, começando  como Auxiliar de Ensino, no Departamento de Letras Vernáculas, onde lecionava ao mesmo tempo Lingua Portuguesa e Literatura Brasileira. 

A experiência de ensino numa universidade como a UFRJ e a atuação em duas áreas distintas – Língua e Literatura – deram-me o impulso necessário para a definição de meus objetivos. O ensino da Língua Portuguesa levou-me a aprofundar meus estudos de Linguística, iniciados quando aluno da Faculdade, e despertou-me indagações de caráter semiológico que prestaram mais tarde preciosa colaboração para minhas pesquisas literárias; e o ensino da Literatura Brasileira, além de desenvolver consideravelmente meu conhecimento do assunto, reforçou-me a consciência, já presente também desde meus tempos de aluno, da necessidade do interrelacionamento entre as diversas literaturas nacionais ou de idiomas diferentes. Além de minhas aulas, que me absorviam grande tempo e esforço na preparação, assisti também nesse periodo às primeiras aulas do Mestrado, que acabara de ser implantado em 1970, e participei de projetos que me deram um bom treinamento profissional. Contudo, em minha área central de interesse – a Literatura – inquietava-me muito o desejo de aprofundar meu conhecimento de outras literaturas e de explorar mais a fundo os métodos e técnicas de abordagem do fenômeno literário.

Foi então que me decidi pela Literatura Comparada. Eu já tivera contacto com textos de comparatistas desde meus primeiros anos de discente na Faculdade de Letras, e sempre me deixara seduzir pela amplitude de seus conhecimentos e a maneira como transitavam com facilidade pelas diversas literaturas nacionais. A estes aspectos somava-se, agora, o cunho interdisciplinar de suas propostas, sobretudo das figuras ligadas à chamada “Escola Norte-Americana”, que ampliara consideravelmente a perspectiva da fase anterior, a “Escola Francesa”, ainda presa ao Historicismo e Positivismo dominantes à época da configuração e consolidação da disciplina no contexto acadêmico. Os Estados Unidos se apresentavam no momento como o local mais adequado para se estudar a Literatura Comparada e era para lá que eu deveria dirigir-me. Restava definir o local, e, após me informar sobre as universidades que ofereciam os melhores cursos, optei pela Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, que, além de manter um excelente Departamento, chefiado pelo Professor Werner Friederich, autor da famosa Bibliography of Comparative Literature,  que marca para muitos o início dos modernos estudos da disciplina, tinha sido palco do “II Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada”, em 1958, quando o Professor René Wellek, já então lotado na Universidade de Yale, pronunciou a conferência intitulada “A Crise da Literatura Comparada”, que provocou a cisão entre os comparatistas franceses e norte-americanos, dando origem à designação de “escolas” para os dois momentos.   

Minha ida para Chapel Hill ocorreu em janeiro de 1971, após a obtenção, junto à UFRJ, de licença para a realização do Mestrado no exterior. Lá chegando, iniciei de imediato o curso, perfazendo o total de créditos exigidos tanto nas disciplinas específicas de Literatura Comparada quanto nas de literaturas nacionais como as de língua inglesa e espanhola. A abrangência dos estudos que o Mestrado em Literatura Comparada permitia e a possibilidade que a universidade americana propiciava de se cursarem disciplinas variadas foram o estímulo de que eu precisava para dedicar-me à área. Mas dentre as experiências por que passei durante minha permanência em Chapel Hill, o ensino doi das que mais contribuíram para o meu desenvolvimento profissional, pois o tempo todo em que lá estive lecionei, como “Teaching Assistant”, todos os níveis de Língua Portuguesa e uma disciplina de Cultura e Civilização Brasileira para os alunos que já demonstravam desempenho razoável na língua. A visão do português como idioma estrangeiro e as técnicas e métodos empregados no ensino de línguas estrangeiras constituíram não só um grande instrumental didático para mim, como forneceram valiosa contribuição para o questionamento que vim a empreender mais tarde sobre o problema do etnocentrismo. Até então eu havia sido aluno de línguas estrangeiras, primeiro no Brasil, e posteriormente em Nova York, onde frequentara a Universidade de Columbia, em 1967, num Curso Avançado de Inglês para Estrangeiros, e agora, em Chapel Hill, exercia a função oposta.

Em meados de 1972, tendo concluído todos os créditos em disciplinas, submeti-me com aprovação, aos Exames de Qualificação, também exigidos para o Mestrado, e passei a dedicar-me de modo mais intenso à dissertação. O distanciamento que a permanência nos Estados Unidos me havia dado com relação à realidade brasileira e os estudos que efetuei da Literatura Hispano-Americana despertaram-me àquela época grande preocupação com a questão das diferenças latino-americanas e do jogo de semelhança e dissemelhança cultural entre o Brasil e os países de língua espanhola do continente. Além disso, o período contemporâneo revelava-se para mim altamente instigante, por tratar de questões que eu próprio vivenciava e com as quais poderia travar um diálogo mais profundo e dinâmico. Por estas razões, dispus-me, pela óptica da Literatura Comparada, e graças à flexibilidade que esta disciplina me permitia, a eleger como corpus da dissertação as obras de dois escritores contemporâneos – um brasileiro e um argentino – que, a despeito de diferenças significativas, apresentavam também fortes denominadores comuns. Um ano depois, em agosto de 1973, concluí o meu Mestrado em Chapel Hill, defendendo a dissertação, que consistiu num estudo comparatista das obras de Guimarães Rosa e Julio Cortázar, levando em conta sobretudo a indagação que ambos empreendem do automatismo em que havia caído a linguagem literária em seus respectivos países e as inovações que introduziram no plano da língua stricto sensu e do discurso narrativo. A dissertação foi publicada, em 1980, no original inglês, pela editora Estudios Hispanófilos, de Valência, Espanha.

A despeito dos novos rumos profissionais que vislumbrei em Chapel Hill e da presença de alguns professores cujo trabalho deixou marcas em minha formação, optei por continuar meus estudos de Literatura Comparada realizando o Doutorado em outra universidade norte-americana. Aqueles dois anos e meio de vida nos Estados Unidos haviam-me ensinado a perceber diferenças significativas entre as diversas regiões do país, e eu pude observar que, em termos da Literatura Comparada, elas tinham uma importância inegável. As universidades da costa leste haviam-se fechado num tipo de comparatismo que privilegiava nitidamente as três literaturas de maior prestígio da Europa Ocidental – a inglesa, a francesa e a alemã, estendendo-se a primeira para incluir a norte-americana – e atinham-se quase exclusivamente a esse modelo triádico. Enquanto isso, na Calilfórnia, e em pontos dispersos do meio-oeste, verificava-se uma maior abertura, encontrando-se centros de estudos bastante desenvolvidos que incluíam literaturas de outras nações ou línguas, não só europeias que fugiam ao eixo central, como também asiáticas e africanas. Imbuido do desejo de prosseguir minhas investigações sobre as literaturas das Américas, e sabendo que a Califórnia, pelas próprias condições históricas, era o locus mais adequado para a realização de meus objetivos, solicitei o ingresso em Berkeley, e, ao ser aceito, dirigi-me para aquela instituição em setembro de 1973.

Se Chapel Hill já me havia apontado caminhos decisivos no que tange a meus estudos literários, Berkeley representou sem dúvida a consolidação dessa rota, máxime no que diz respeito à visão da Literatura Comparada. Vanguarda em todos os sentidos e orgulhosa de somar a este aspecto a alta qualidade de seus cursos e a reputação de um dos maiores centros de pesquisa do país, a Universidade da Califórna – Berkeley oferecia a seus estudantes um leque de opções variadíssimo, que incluía, alem do elenco de disciplinas ministaradas pelos docentes da casa, cursos frequentes com professores visitantes de todas as partes do mundo. No período em que lá estive, transitaram pela universidade, proferindo palestras e cursos intensivos, grandes personalidades de todas as áreas do saber, inclindo escritores, artistas e cineastas, alguns inclusive brasileiros, que vim a conhecer pessoalmente lá. Este contacto, sobretudo com os comparatistas e teóricos da literatura, me foi altamente profícuo. Suas pesquisas, muitas vezes ainda inconclusas, eram apresentadas e discutidas, tanto nos cursos quanto em palestras, e os resultados tornavam-se accessíveis através de publicações amplas ou restritas. A editora da universidade, diga-se de passagem, era, e continua sendo, das mais dinâmicas do tipo no país.

O Doutorado em Literatura Comparada na Universidade da Califórnia – Berkeley exigia, além do domínio de métodos e técnicas da disciplina, o conhecimento na íntegra da literatura de um idioma e da de dois outros num período de cento e cinquenta anos. Ademais, era-se bastante rígido no que concernia ao manejo das línguas estrangeiras: além de um bom domínio dos três idiomas que constituíam a área de estudos do candidato, requeria-se o conhecimento passivo de outra língua moderna (no meu caso o francês) e de uma língua clássica (no meu caso o latim). Essa última exigência, que a princípio pareceu-me absurda, apesar da base que eu já possuía, graças ao Curso Clássico no Pedro II e à Faculdade de Letras da UFRJ, revelou-se depois bastante útil, sobretudo pela possibilidade que me deu de conhecer melhor os clássicos e de penetrar com mais habilidade nos meandros das línguas neolatinas. No periodo em que cursei as disciplinas e preparei-me para os Exames de Qualificação, realizados em 1976, procedi também a uma seleção dos trabalhos que havia redigido para o Mestrado e o Doutorado, e enviei, após traduzi-los, para publicação no Brasil.

Mas a minha passagem pela Universidade da Califórnia – Berkeley não estaria completa sem a menção a duas outras atividades que desempenharam papel relevante na minha futura atuação profissional. A primeira foi o ensino, durante toda a minha estada lá, na qualidade de “Teaching Assistant” ou “Associate”, de Língua Portuguesa, em todos os níveis, e de um curso adiantado de Cultura Brasileira, ministrado mais uma vez para os alunos que já dominavam o idioma. A segunda atividade foi a criação e editoração, junto a um grupo de colegas do Departamento, da revista literária Via, publicada na universidade. A iniciativa da revista Via partira de um grupo de doutorandos, ao qual pertenci, que havia feito, dentro da Literatura Comparada, um recorte semelhante, que privilegiava períodos mais recentes das literaturas das Américas. Tratava-se de uma publicação trilingue – em inglês, espanhol e português – e visava à reunião e divulgação de textos recentes de poesia, ficção ou crítica, surgidos em pontos distintos do continente. O caráter plural da revista, muito ao gosto do ecletismo berkeleriano, a seleção criteriosa dos textos, muitos deles de autores já consagrados, e o projeto gráfico cuidadoso valeram-lhe elogios da crítica norte-americana e uma boa repercussão. O primeiro número foi publicado em 1976 e o segundo em 1977, interrompendo-se, em seguida, infelizmente, em virtude da dissoluão do grupo, com o retorno de seus membros aos países e estados de origem.

Após a aprovação nos Exames de Qualificação, permaneci ainda um trimestre em Berkeley, completando o levantamento do material para a minha tese de Doutorado, cuja pesquisa já se achava encaminhada, e apresentei o projeto ao Departamento, que o aprovou. Foi um período muito útil este meu último trimestre em Berkeley. O material coligido nessa época de longas permanências na biblioteca serviu-me não só para a tese, que vim a redigir em seguida, como também para a produção de textos publicados mais tarde e aulas ministradas na UFRJ. Além disso, os encontros semanais que mantive com meu orientador permitiram-me traçar um perfil tão nítido da tese, que as modificações posteriores, por mais variadas, nunca chegaram a alterar completamente o seu arcabouço inicial. Mais uma vez eu centrava minhas investigações na então designada “nova narrativa” latino-americana, focalizando agora em close o Grande sertão: veredas, mas encarando-o a partir de um diálogo com outros grandes romances a ele contemporâneos, dentre os quais Rayuela, de Julio Cortázar, La casa verde, de Vargas Llosa e Cien años de soledad, de García Márquez. Como a dissertação, minha tese veio também a ser publicada posteriormente no original inglês por uma das editoras da Universidade da Carolina do Norte.
Imediatamente após o meu retorno ao Brasil, em março de 1977, reassumi minhas funções na UFRJ, como Professor Assistente, lecionando diversas disciplinas obrigatórias e optativas em Literatura Brasileira, no Departamento de Letras Vernáculas, e empregando o restante do tempo nas pesquisas, primeiro para a tese, e, depois de concluí-la, para projetos que vim a desenvolver junto ao CNPq. Em minhas aulas, passei aos alunos as técnicas e métodos aprendidos nos Estados Unidos e tentei desenvolver neles o gosto pela investigação. Este foi talvez o aspecto mais gratificante de minha carreira didática, a que pude dar maior vazão  após a obtenção e revalidação de meu título de Doutor, quando comecei a lecionar na Pós-Graduação. O ensino de Literatura Brasileira agradava-me, por um lado, pela riqueza que sempre vislumbrei em nossa literatura, mas produzia-me, por outro lado, certa insatisfação, que eu procurava atenuar nas disciplinas optativas com a inserção de autores pertencentes a outras literaturas. Foi então que pleiteei transferência para o Departamento de Ciência da Literatura, onde se achava lotada a Literatura Comparada, sendo ministrada apenas na Pós-Graduação. Ao ingressar no novo Departamento, em 1979, tive a grata satisfação de trabalhar com o Professor Eduardo Portella, que sempre admirara por suas publicações e pelo nível de sua reflexão crítica. Aí, criei várias disciplinas optativas, que passei a oferecer semestralmente, e comecei a lutar pela transformação da área “Evolução da Literatura” existente apenas na graduação, em Literatura Comparada, o que acabou ocorrendo alguns anos depois. 

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, minha casa, para onde retornei após o Mestrado e o Doutorado nos Estados Unidos, permaneci até o presente, e, mesmo já tendo podido aposentar-me desde o ano 2000, continuei lecionando regularmente tanto na graduação quanto na Pós-Graduação, orientando teses e dissertações, num total de 91 (37 teses e 54 dissertaçõs), além de supervisões de Pós-Doutorado e orientação de bolsistas de Iniciação Científica, e participando de numerosas bancas examinadoras, desde defesas de teses e dissertações, até concursos para professores da casa, que hoje me orgulho de ter colaborado para a inclusão no corpo docente. No que diz respeito a minha carreira docente, passei a Adjunto logo após a conclusão do Doutorado e, em 1993, tornei-me, por concurso, Professor Titular de Literatura Comparada, consolidando assim o meu enlace com a disciplina que vinha desde meus tempos de aluno. E tive também, na administração, experiências que me valeram e que, por isso, não posso deixar de mencionar neste momento: fui coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura no biênio 1985-86, Diretor Adjunto de Pós-Graduação de 1990 a 1994, ocasião em que criei a revista Terceira Margem, ainda hoje ativa, membro do Conselho Administrativo da Fundação José Bonifácio de 1992 a 1995, e membro do Conselho Universitário no período de 1998 a 2002. Mas de todas estas, a que mais me trouxe satisfação foi a possibilidade que tive de fundar e dirigir, função que exerço até hoje, o Centro de Estudos Afrânio Coutinho, o CEAC, órgão de pesquisa que teve por base a instalação da biblioteca particular do Prof. Afrânio Coutinho, meu pai, fundador da Faculdade de Letras, em ala contígua à biblioteca, e no qual realizo, com o apoio de colegas e alunos, pesquisas, que já deram origem a diversas publicações e à realização de cursos e conferências.

Da época de minha formação até o presente, a Literatura Comparada evoluiu muito, passando do estudo comparativo de literaturas nacionais diversas ou produzidas em idiomas diferentes para um verdadeiro diálogo de culturas, em que, além de incluir a produção literária que não fazia parte do veio canônico ou erudito da tradição ocidental, como a de países ou regiões de menor prestígio no panorama político-econômico, ou de grupos considerados “minorias de poder”, passou a contemplar expressões literárias até então à margem dos estudos acadêmicos, como certas formas de produção popular e discursos da ordem da cultura, incluindo a chamada “literatura oral”, mas que não tinham o status de literários ou estéticos. Essa transformação, que decorreu em grande parte de contribuições de correntes do pensamento que tiveram um papel importante no meio acadêmico ocidental na segunda metade do século XX, como a Desconstrução, a Nova História e os Estudos Culturais e Pós-Coloniais, ampliou consideravelmente o âmbito da disciplina, conferindo-lhe uma projeção extraordinária no plano internacional. Ao longo de minha carreira profissional na UFRJ, procurei acompanhar essa transformação, não só através de minhas publicações em livros, revistas ou jornais, como por meio da participação em eventos no Brasil e no exterior, bem como da criação, em 1986, junto à Professora Tania Carvalhal, e a outros colegas de pontos distintos do país, da Associação Brasileira de Literatura Comparada, a ABRALIC, que veio a se tornar, para a nossa satisfação, o maior forum de debates da área no Brasil, como atestam seus muitos congressos, dentre os quais o que tive a oportunidade de organizar, em 1996, na UFRJ.

A Literatura Comparada constituiu sempre, em seus múltiplos aspectos, o eixo motor das pesquisas que realizei na UFRJ, apoiado pelo CNPq, e que procurei disseminar em outras partes do Brasil e no exterior, através de cursos que ministrei e de eventos de que participei apresentando conferências, palestras e comunicações. No primeiro caso, destaco, pela importância que tiveram para mim pela troca de informações e de ideias, os cursos que lecionei na Universidade de Havana, em Cuba, na Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina, na Universidade de Pereira, na Colômbia, na Universidade de Bochum, na Alemanha e, sobretudo na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, onde permaneci durante um ano como Professor Visitante. No segundo caso, não posso deixar de mencionar os muitos congressos e simpósios da Associação Internacional de Literatura Comparada (AILC/ICLA), da qual fui membro do Conselho por anos seguidos e posteriormente Vice-Presidente, e graças à qual tive a oportunidade de divulgar minhas pesquisas em pontos os mais variados do mundo. Em 2007, em minha gestão como Vice-Presidente, organizei na UFRJ, e pela primeira vez na América Latina, o XVIII Congresso Internacional da Associação, que contou com cerca de oitocentos participantes de países distintos e teve uma seleção de seus trabalhos publicados em três volumes de Anais.

A criação da ABRALIC, cuja ideia surgiu em meio ao XI Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada, em 1985, em Paris, teve um papel fundamental na divulgação da disciplina no Brasil, máxime no que diz respeito a seus métodos e técnicas e a suas relações com os demais discursos sobre a literatura, já entre nós amplamente disseminados, como a Teoria, a Crítica e a Historiografia literárias. Literatura Comparada e Teoria Literária, por exemplo, não se antagonizam em momento algum; antes complementam-se, e é desta interação que se verificam alguns dos maiores benefícios de que ambas se têm valido. Não é possível desenvolver-se uma reflexão teórica consistente sobre o objeto literário sem que se parta de uma perspectiva comparatista, assim como não se sustenta um estudo de caráter comparatista que não recorra a uma reflexão sólida de ordem teórica. E prova-o o paralelo que sempre existiu entre as escolas do comparatismo e as correntes teórico-críticas que predominavam no momento, como o historicismo da escola francesa e o formalismo da norte-americana, bem como as contribuições que a confluência entre o marxismo e o formalismo eslavo trouxeram para a escola soviética de Literatura Comparada. Do mesmo modo, no âmbito da Historiografia, sublinhem-se os aportes trazidos pela chamada Nova História, que tanto atuaram sobre o Novo Comparatismo, que vem sendo designado por muitos de Literatura Mundo, ou World Literature, num resgate do termo goethiano Weltliteratur.

Eu comecei este discurso falando de minhas relações com esta casa, a UFRJ, que me acolheu pós-adolescente, aos dezoito anos, e onde realizei minha travessia profissional, com momentos de júbilo e também de alguma dor, mas que me deram sempre força e grande encorajamento para seguir adiante e buscar o que havia de melhor em mim para transmitir aos meus discípulos e deixar algum legado, minúsculo que fosse, ao meu país. Termino-o agora, guardando na memória os melhores momentos que aqui passei, e sentindo-me gratificado pelo pouco que pude dar e pelo muito que recebi, e de que é exemplo esta festa em que me saúda meu colega e amigo por quem sempre nutri grande admiração, o Professor Marco Lucchesi. 

Rompendo um pouco o protocolo, eu gostaria de aproveitar este momente, tão importante para mim, para fazer um agradecimento público: à minha mulher, Malu, a quem devo tudo o que fiz de melhor em minha vida.

A todos, o meu muito obrigado.

976 visualizações.

Apontamentos

  • Não há apontamentos.



APOIO:


A Revista Brasileira de Literatura Comparada está indexada nas seguintes bases:


Revista Brasileira de Literatura Comparada, ISSN 0103-6963, ISSN 2596-304X (on line)

Licença Creative Commons
Esta revista utiliza uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0).

Wildcard SSL Certificates