EXISTE UMA FRONTEIRA ENTRE DEMOCRACIA E DITADURA? HANS ROBERT JAUSS, MICHEL HOUELLEBECQ, CÉCILE WAJSBROT

EXISTE UMA FRONTEIRA ENTRE DEMOCRACIA E DITADURA? HANS ROBERT JAUSS, MICHEL HOUELLEBECQ, CÉCILE WAJSBROT

IS THERE A BORDER BETWEEN DEMOCRACY AND DICTATORSHIP? HANS ROBERT JAUSS, MICHEL HOUELLEBECQ, CÉCILE WAJSBROT

Ottmar Ette[1]

[1] Professor da Universidade de Potsdam (Alemanha). ORCID 0000-0002-7551-9814


RESUMO:

Existe uma fronteira entre democracia e ditadura? A partir dos estudos literários, esta questão talvez possa ser respondida mais conclusivamente tendo como base as hipóteses de trabalho que fundamentam este artigo: não há apenas uma, mas milhares de fronteiras que separam um sistema democrático de governo (do tipo europeu occidental) de sistemas e regimes autoritários, ditatoriais. Atualmente atravessamos estas fronteiras diariamente, e as literaturas do mundo são vitais para nossa sobrevivencia hoje precisamente porque de maneira palpável nos lembram como são precárias as certezas em que confiamos durante certos períodos temporais. Elas nos mostram não apenas retrospectivamente, mas acima de tudo prospectivamente, o quanto é necessário estar atento quando nos movemos na área fronteiriça e mais ainda na área de tensão entre democracia e ditadura. A seguir, esta tese será exemplificada com os casos de Hans Robert Jauss, Michel Houellebecq e Cécile Wajsbrot.

Palavras-chave: democracia; ditadura; Hans Robert Jauss; Michel Houellebecq; Cécile Wajsbrot


ABSTRACT:

Is there a border between democracy and dictatorship? From the perspective of literary studies, this question can perhaps be answered most conclusively on the basis of the working hypothesis on which this paper is based: there are not one, but thousands of boundaries that separate a democratic system of government (of the Western European type) from authoritarian, dictatorial systems and regimes. We currently cross these borders daily, and the literatures of the world are vital for our survival today precisely because they sensually remind us how precarious the certainties are to which we tend to entrust ourselves for the duration of certain periods of time. They show us not only retrospectively, but above all prospectively, to what extent it is necessary to be attentive when we move in the border area and even more in the area of tension between democracy and dictatorship. In the following, this thesis will be exemplified by the examples of Hans Robert Jauss, Michel Houellebecq and Cécile Wajsbrot.

Keywords: democracy; dictatorship; Hans Robert Jauss; Michel Houellebecq; Cécile Wajsbrot


A Multiplicação das fronteiras (Didier Fassin)

A questão presente no título deste ensaio, se existe uma fronteira entre democracia e ditadura, talvez possa ser respondida de forma mais conclusiva com a seguinte hipótese básica: não há uma, mas milhares de fronteiras que separam um sistema democrático de governo (do tipo europeu ocidental) de sistemas e regimes autoritários e ditatoriais. Atualmente, estamos cruzando essas fronteiras todos os dias. Mas que significado e que função assumem essas fronteiras em nossas vidas, em nossas vidas dentro deste transitório período histórico do final da quarta fase de globalização acelerada[2]? E que mudanças marcam essa atual fase de transição política?

Em sua palestra "Das Leben. Eine kritische Gebrauchsanweisung", na série de palestras Adorno, em Frankfurt, em 2016, o cientista social francês e ex-vice-presidente da "Médicos Sem Fronteiras", Didier Fassin, partindo do Minima Moralia, de Theodor W. Adorno[3], buscou abordar as alterações fundamentais do nosso tempo em um único grande período desde o início. Tendo em vista o período desde a publicação do texto seminal de Adorno, em 1951, o autor tratou de diversos aspectos que serão relevantes para nossa investigação:

Passaram-se 65 anos desde a publicação deste texto, e o capitalismo, ao qual agora dificilmente chamamos por seu nome – de lá para cá preferimos utilizar um eufemismo ambíguo e designá-lo como "liberalismo" – parece celebrar triunfos ainda maiores e ser ainda mais incontestável do que na época em que Adorno escreveu seu livro, enquanto os trágicos ensinamentos da Segunda Guerra Mundial e seus genocídios, nos quais a reflexão de seus contemporâneos assentava-se de maneira dolorosa, parecem se desvanecer à medida que discursos de identidade são ouvidos e tentações autoritárias despontam: a violência e a insegurança de um mundo desequilibrado são utilizadas para legitimar todas as formas possíveis de exclusão e opressão. Estes são sinais inquietantes de uma nova "era do medo", para resgatar o título do poema longo escrito no mesmo período pelo escritor britânico W.H. Auden, pois esses altos e baixos da vida democrática afetam vidas humanas de maneiras radicalmente diferentes e, muitas vezes, com força desigual.[4]

O que aqui é abordado de forma bastante irônica no discurso de haver "altos e baixos na vida democrática" é a experiência do século da barbárie nazista que marcou Adorno e Horkheimer, bem como o autor de The Age of Anxiety[5], a Shoah e uma era pós-1945, cujo "ter-estado-em-devir" [Gewordensein] em si ameaça ser devolvido a um desaparecido "ter-estado-em-devir" histórico. Já têm surgido na Alemanha, por exemplo, reivindicações de que a visita a um campo de concentração deveria ser obrigatória para todos os estudantes. A memória da ditadura dos nazistas, assim como de outros regimes autoritários, a memória do assassinato dos judeus, a memória da calamidade da primeira metade do século XX está desaparecendo juntamente com a morte dos últimos sobreviventes de Auschwitz. Existe uma nova situação política de memória?

De fato, há tempos não apenas na Europa os discursos de identidade voltam a ser convenientemente subestimados em seu perigo e em seu caráter excludente[6], espalham-se em nossa sociedade e recorrem cada vez mais a elementos verbais que coincidem com o discurso nazista, conforme a sutil análise linguística do LTI[7] de Victor Klemperer. Talvez estes elementos nos pareçam tão familiares porque não estavam, de fato, completamente extintos do vocabulário do nosso tempo, estavam apenas levando uma existência temporariamente bem camuflada no subsolo, disfarçados, aguardando a melhor oportunidade para emergir, para além de qualquer crítica lingüística. A "custódia preventiva"[Schutzhaft] por trás da prisão, a "imprensa da mentira" [Lügenpresse] por trás da imprensa, o "nacional"[ Völkische] por trás do povo: termos que estavam apenas temporariamente submersos, e agora estão de volta à nossa logosfera – ao mundo das palavras que nos rodeiam, que inalamos diariamente. Como se nada tivesse acontecido. Ouvimos falar todos os dias dessas palavras, que mantêm sua história viva porque são constantemente "citadas" em nossos sistemas de comunicação em massa e reforçadas por sua reprodução. Essas palavras, mencionadas às vezes com as melhores intenções críticas, há muito poluíram nossa logosfera e mudaram o discurso público: elas projetaram o passado totalitário de volta ao presente. Isto é uma ameaça, mas é também uma chance.

Não há dúvidas: tornou-se novamente dizível aquilo que por muito tempo foi indizível, posto que inexprimível. As palavras-matéria da misantropia ainda estavam basicamente lá – e, como sempre, prontas para serem usadas. As observações de Didier Fassin acertamo alvo, no centro do movimento identitário: mas estará iminente uma nova Era da Ansiedade, uma nova era de horror e sombras na esteira de novas ditaduras?

Uma certeza: o cientista social francês, em suas palestras Adorno, não tratou em especial do surgimento de novas ditaduras possíveis ou da questão de saber se existe um limite entre democracia e ditadura. Em vez disso, seu trabalho visava combinar seus estudos etnográficos e etno-sociológicos com o que ele considerava ser a questão filosófica primordial da vida em seu livro, originalmente intitulado "Über die Ungleichheit der Leben"[8] ["Sobre a desigualdade das vidas]. Mas a busca pelo que constitui a "Ungleiche Leben" [Vida desigual][9] – o título de seu capítulo final – envolve a questão adotada por ele sobre os mecanismos de exclusão no contexto dos fluxos de refugiados na França, na África do Sul ou na Índia.

O confronto com a problemática sobre o que seria "vida" ou "a vida" se vincula necessariamente com a questão dos limites da vida[10]. Sabemos por experiência dolorosa, no entanto, que esses limites não são determináveis de maneira tão simples: de uma perspectiva legal ou teológica, biotecnológica ou filosófica, surgem critérios e perspectivações muito diferentes no determinar desses limites. Onde se encontram os limites da vida na vida não nascida, e onde se encontram estes limites nos muçulmanos, os já referidos por Hanna Arendt como mortos-vivos[11] dos campos de concentração e extermínio nazistas? Pode-se falar mais apropriadamente de um conjunto de limites do que de uma fronteira única e claramente definida. Essas delimitações não são arbitrárias, elas são funcionalmente diferentes.

A multiplicação das fronteiras é uma má notícia para aqueles que gostam de definições claras e de demarcações territoriais; mas pode ser uma boa notícia para todos os que se identificam com uma visão multidimensional, até mesmo polilógica, dos fenômenos. Trata-se menos de essencialismos – a essência da vida, a essência da democracia – do que de combinatórias e funções. Para Fassin, o que se apresenta aqui é a questão se a vida no sentido biológico pode ser pensada em conjunto com a vida no sentido biográfico[12], e, com isso, poder investigar mais precisamente o que, para ele, é o problema central, a desigualdade da vida humana. A biografia não é determinada pela biologia.

Desde o início da exposição de Didier Fassin,  e ainda no título de seu volume – Georges Perecs La Vie mode d'emploi[13] läßt grüßen [La Vie Mode d'Emploi de Georges Perec manda saudações] – as alusões e referências a textos literários são bastante numerosas e, na verdade, utilizadas quase ostensivamente. São feitas repetidas referências a autores franceses, de Proust a Perec, mas também a muitos outros escritores, a maioria de proveniência européia. Surpreendentemente, no entanto, precisamente onde é colocada a questão da vida em termos de biografia, não são empregadas as vantagens específicas dos textos literários. Pois, diferentemente da filosofia, das ciências sociais ou da etnografia, a literatura não é uma disciplina acadêmica e, portanto, não precisa obedecer a restrições disciplinares. Ela possui uma imensa liberdade e diversidade ao nos falar sobre a vida, ao nos trazer a vida de uma forma esteticamente concentrada. Ela não trabalha com definições claras do que venha ser a vida, mas abre uma complexa área de atuação na qual os mais variados padrões interpretativos e significativos da vida podem ser testados. Literatura e vida são ambíguas e multifacetadas de forma comparável: elas requerem, portanto, uma abordagem polilógica, uma filologia polilógica[14].

Sobre a questão biográfica, Fassin não recorre aos espaços experimentais polissêmicos, narrativos e discursivos da literatura, mas à sua própria pesquisa etnográfica e, portanto, às suas "próprias" histórias e dispositivos científicos, que constroem diferenças mensuráveis baseadas em casos e em estudos de caso, e, desta forma, podem determinar a desigualdade da vida. Essas narrativas não ficcionais (ou estudos de caso) de base disciplinar podem ser capazes de fundamentar posições ou pontos de vista específicos, mas, ao contrário dos exemplos literários, não abrem uma possibilidade diversificada, ilimitada como a vida, de interpretar a complexidade móvel da vida de maneira aberta. Pois as literaturas do mundo estabelecem formas condensadas de pensar e de saber sobre a vida na qualidade de formas esteticamente produzidas, que, assim como a própria vida, não são redutíveis nem monossêmicas, mas constantemente revelam e acessibilizam novos espaços de interpretação e movimento. Além disso, elas não têm uma atenção direcionada apenas ao passado e ao presente, mas uma dimensão prospectiva, voltada para o futuro, que, baseada em uma experiência histórica, busca e investiga os possíveis horizontes. A literatura não se limita à sua função de memória: ela desdobra um conhecimento do futuro.

Desta forma, considera-se apropriado complementar casos e estudos de caso que são sociologica, etnografica ou historiograficamente concebidos e investigados de modo empírico com seus padrões de interpretação por meio de exemplos da literatura e, ao mesmo tempo, ampliar suas limitadas possibilidades de interpretação através da estruturação polissêmica da literatura, de modo a tornar frutífero o saber sobre o viver, o saber vivenciar, o saber sobreviver e o saber conviver[15] das literaturas do mundo, especialmente no que diz respeito aos limites da vida, mas também às fronteiras entre distintos sistemas políticos e representações de mundo. Para tanto, desenvolve-se a seguir uma abordagem em que estudos de caso provenientes de uma realidade historiográfica verificada se combinam com realidades literárias, isto é, que foram esteticamente concebidas e que se abrem a uma infinidade de possíveis interpretações. Isto porque as formas e normas da vida não são determináveis unicamente por discursos disciplinados e disciplinadores, mas também, e sobretudo, pelas formas condensadas de saber sobre o viver que as literaturas do mundo criaram através dos milênios, das culturas e das línguas até o nosso presente.

Vamos, portanto, começar com um estudo de caso que provém não apenas da "grande" história, mas da história como disciplina: a da filologia românica e da ciência literária. Trata-se de um caso cujos estudos se tornaram cada vez mais detalhados nos últimos anos e que foi, por muitas décadas, silenciado e obscurecido com êxito; mas justamente em função das até hoje persistentes tentativas de encobrimento, o caso tem ganhado cada vez mais profundidade em pesquisa. Este estudo mostra o caminho da ditadura na democracia, bem como as mudanças atuais da logosfera em relação às fronteiras entre a democracia e as formas autoritárias de governo. Posteriormente[16], os resultados deste estudo de caso serão relacionados a modelos ficcionais.

Normalização (Hans Robert Jauss)

O caso Jauss pode nos revelar com toda a intensidade (e na brevidade aqui exigida) como foi possível que alguém, primeiro em uma ditadura desumana, ascendesse dentro de uma autoproclamada elite do "Grande Reich Germânico", conquistasse posições de poder e, após o colapso do sistema totalitário, voltasse a se integrar a uma ordem social democrática e à democracia e restaurasse uma posição de elite dentro de poucos anos. Devido a numerosas publicações e detalhadas descrições[17] – há alguns anos até mesmo na página da Wikipedia – é bem sabido que a vida de Hans Robert Jauss (nascido em 1921) se divide em duas partes distintas. A "primeira vida" do futuramente renomado romanista, teórico literário e co-fundador da chamada "Escola de Constança" é conhecida pelo fato de que, ao contrário de muitos de seus colegas, ele não "simplesmente" se juntou à Juventude Hitlerista durante seus anos de escola na Suábia, mas se esforçou por assumir posições de liderança nos movimentos de massa nacional-socialistas. Embora Jauss não tenha nascido em uma ditadura, ele percebeu rapidamente – e, sem dúvida, em consenso com seus pais – as oportunidades de carreira que os nazistas ofereciam aos seus seguidores incondicionais após sua "tomada do poder". Assim, antes de sua ascensão na posterior organização paramilitar da Waffen-SS como Jungzugführer em Geislingen, ele já comandava sua unidade juvenil "Jungzug Jauß" com 160 meninos[18], e, antes mesmo de sua planejada formatura, toma a decisão de entrar como voluntário não na Wehrmacht, as forças armadas da Alemanha Nazista, mas convictamente na SS-Verfügungstruppe, entidade precursora da Waffen-SS[19]. Seu diploma do ensino médio foi, ao contrário do que mais tarde alegou, reconhecido mesmo sem o exame final.

O que se seguiu foi uma carreira verdadeiramente meteórica e de dimensão extraordinária, sem dúvida uma das mais rápidas dentro das Waffen-SS do chamado "Terceiro Reich". Inúmeras medalhas e promoções guarneceram a irrefreável ascensão do jovem Hans Robert Jauss dentro desse braço do aparato opressivo nacional-socialista, que se concebe como elite e que se destaca por suas atrocidades. O aspirante da SS (23.10.1939) foi rapidamente promovido a SS-Schützen (25.3.1940), depois a SS-Sturmmann (9.11.1940), a SS-Unterscharführer (20.4.1941), a SS-Oberscharführer (1.6.1941), a SS-Untersturmführer der Reserve (22.9.1941), a SS-Obersturmführer der Reserve (9.11.1943) e, finalmente, a SS-Hauptsturmführer der Reserve (9.11.1944). Jauss foi premiado também com diversas medalhas, como com o Distintivo de Assalto de Infantaria em bronze (1.4.1941), com a Cruz de Ferro de 2ª classe (22.2.1942) e de 1ª classe (7.4.1943), e até com a Cruz Germânica em ouro (24.4.1944).

Sabe-se também que ele serviu na SS-Regiment Deutschland, no SS-Totenkopf-Infanterie-Ersatz-Bataillon II Prag, na Legião Voluntária da Holanda, no SS-Freiwilligen-Panzergrenadier-Regiment "Nederland" e como líder do 58º Batalhão da 33ª Divisão Waffen-SS de Granadeiros (Regimento Charlemagne), e que deu treinamento a outros jovens candidatos da SS bem como a outros membros da Waffen-SS, entre outros na SS-Panzergrenadier-Schule Prosetschnitz/Kienschlag como Inspetor-Chefe de doutrinação ideológica e  cultura do pensamento nazista. Hoje estamos familiarizados mesmo com as questões de ideologia racial nazista constantes nos exames finais de seus cursos para as unidades "estrangeiras"[20]. Jauss havia não apenas adotado o discurso desumano dos nazistas, como também o ensinava e treinava a todos os que queriam ampliar sua utilização.

Se todos esses fatos forem relacionados com o horizonte temporal da época e com as carreiras médias de seus contemporâneos, torna-se logo evidente que Hans Robert Jauss não era um seguidor, mas um criminoso convicto, um verdadeiro guerreiro ideológico. Ele serviu também na Frente Oriental, onde a Waffen-SS era notória por suas operações bestiais, como na chamada "Bandenkampf" na Croácia, e, consequentemente, na brutal perseguição de partidários e combatentes da resistência, na qual a unidade comandada por ele estava comprovadamente envolvida em crimes de guerra e em atos de vingança. Jauss não apenas dominou o vocabulário dos nazistas, como também o reforçou e o executou.

Assim, ele não apenas representou a imagem nacional-socialista da humanidade com seu abissal ódio racial e sua desumana barbárie, não apenas propagou em palavras e ações a incomparável bestialidade dos governantes do "Terceiro Reich": ele incorporou tudo isso como porta-voz de uma ditadura nazista que encontrava na Waffen-SS sua genuína "elite". Como oficial da Waffen-SS, Jauss treinava a futura elite de um Grande Reich alemão, que estava prestes a dominar o mundo. Ele foi um oficial altamente condecorado em uma ditadura que expulsou ou matou milhões de seus próprios cidadãos, exterminou milhões de judeus em toda a Europa e perpetrou a subjugação de todos os "estrangeiros" inferiores em seu ódio racial. Subjugação e destruição eram os objetivos centrais da Waffen-SS e de seus representantes.

Mas a conquista e a submissão do mundo chegaram à estagnação. A libertação – e não a "ocupação" – da Alemanha foi o que avançou. Após a retirada com imensas baixas da frente oriental, na qual perdeu a maioria de seus subordinados, Jauss primeiramente permaneceu escondido no Sul da Alemanha. Logo após o fim da guerra, começou a tentar falsificar sua história de vida e mudar de lado. Sua "carta incomum para a administração militar dos EUA em Göppingen"[21] é um eloqüente testemunho da sua intenção de servir aos vencedores, os Aliados, e de "entrar imediatamente para uma formação voluntária dos Aliados Ocidentais"[22] com o objetivo de lutar contra – conforme formulado por Jauss – os "inimigos da paz mundial"[23] e "o bolchevismo"[24]. A mistura do "velho" e do "novo" vocabulário é evidente: em um instante, Jauss adaptou-se à nova situação e esperou em breve poder marchar pela paz mundial ao lado dos vencedores.

Após a capitulação da ditadura nazista, este tão bem sucedido arrivista da Waffen-SS esperava poder permanecer fiel ao ofício que aprendera, livrar-se de sua história de vida e, no menor tempo possível após a queda do chamado "Terceiro Reich", tornar-se um autoproclamado batalhador da paz mundial. É bastante difícil acreditar em uma tão instantânea "depuração"de caráter. Obviamente, essa foi uma adaptação ao novo equilíbrio de poder cujos discursos e vocabulário o antigo SS-Hauptsturmführer rapidamente procurou aprender. Ele inicia, então, um incessante trabalho de reescrever a própria vida que o acompanharia até o fim[25].

O que torna a história de vida de Hans Robert Jauss tão relevante para a questão tratada aqui não é apenas a rapidez da mudança, não é apenas a tentativa de, antes de mais nada, reescrever a própria vida e, para isso, apresentar documentos falsificados, como sua matrícula na universidade de Bonn, mas o fato de a "transformação" e a rápida transição da ditadura em democracia se consumar como uma espécie de auto-tradução. Na constante reescrita da história da própria vida, evidencia-se, e não apenas em termos de ascensão dentro da ditadura, o quanto é importante aprender o vocabulário "apropriado" para poder mudar de um sistema para outro. Isso também se aplica à transição da democracia em ditadura, assim como da ditadura em democracia, cujas convenções linguísticas da República Federal o ainda jovem oficial da Waffen-SS prontamente aprendeu. É como se tudo fosse uma questão de léxico.

Porém, seu plano de combater ao lado dos Aliados como irmão de armas falhou, assim como sua tentativa de se tornar um estudante "normal" na Universidade de Bonn, passado apenas meio ano após a rendição. Sua segunda vida teve de começar rapidamente, mas sua primeira vida ainda o perseguia. Como oficial sênior da SS, ele foi procurado pelas autoridades aliadas na Alemanha e, em 17 de dezembro de 1945, pouco mais de um mês após sua matrícula e pouco antes de completar 24 anos, teve de se apresentar aos poderes vitoriosos, que imediatamente o entregaram ao campo de internamento especial para membros da SS em Recklinghausen.

A prolongada detenção como oficial da Waffen-SS que se seguiu foi renomeada mais tarde por Jauss em seus currículos como um "cativeiro" e, finalmente como "prisão de guerra": ainda em sua entrevista com Maurice Olender, impressa no Le Monde em 6 de setembro de 1996, ele se descreve como ex-"prisonnier de guerre"[26]. Há muito tempo essa história pessoal já havia se tornado parte de sua própria vida. Logo no início de sua segunda vida, qualquer referência a um campo de detenção que o pudesse expor e o colocar em perigo como soldado da SS havia sido eliminada. Mas Jauss tentou não se distinguir da maioria dos alemães: agiu como se fosse um simples seguidor do regime.

Apenas dois anos após sua prisão, em 2 de janeiro de 1948, ele foi autorizado a deixar o campo de Recklinghausen como homem livre. A partir de então, seria poupado de uma semelhante "recaída" em sua "primeira vida". O tempo de internação foi, sem dúvida, um período de intensa leitura e no qual Jauss cuidou em elaborar em um novo vocabulário, mesmo que em sua vizinhança imediata no campo ele ainda estivesse cercado por velhos camaradas da Waffen-SS – mesmo mais tarde, as conexões nunca viriam a se romper completamente. Havia Jauss aprendido as lições da história e, mais ainda, de sua própria história durante os dois anos no Centro de Detenção de Recklinghausen? A única coisa que pode ser dita com certeza é: ele aprendeu um novo vocabulário e, a partir de então, soube lidar com as palavras e conceitos que se adequavam à logosfera da República Federal da Alemanha.

O cansativo e meticuloso trabalho de escrever a própria vida, de adaptar sua história de vida à história, que fornece a estrutura para a vida em si, lança uma luz significativa sobre o trabalho do cientista literário, pois Jauss conquista em sua primeira vida uma carreira meteórica, que depois é seguida por outra carreira meteórica em sua segunda vida. Após uma gradução concluída rapidamente e uma notável dissertação sobre Marcel Proust, sob a orientação de Gerhard Hess, em Heidelberg (1952), bem como seu doutoramento na mesma universidade (1957), Hans Robert Jauss logo ocupou cátedras em Münster (1959) e Gießen (1961), antes de seguir seu orientador na recém-fundada  Universidade de Constança. Lá, o influente Gerhard Hess, que sempre abriu o caminho para Jauss, tornou-se em 1966 reitor fundador da universidade[27], após sua mudança em 1964 para o Lago de Constança. A partir de 1966, Jauss pode trabalhar como um dos principais dirigentes desta universidade reformista e, juntamente com Wolfgang Iser, não apenas expandir e trazer para Constance o grupo "Poética e Hermenêutica", fundado em Gießen, mas também estabelecer os fundamentos programáticos da "Escola de Constança".  A partir da segunda metade dos anos sessenta, Jauss reforçou consistentemente sua posição no subcampo acadêmico das ciências humanas e foi, sem dúvida, um dos mais renomados representantes nacionais e internacionais desta área na República Federal da Alemanha da época. Nada em sua "segunda vida" parecia lembrar a "primeira".

Pouco se sabe sobre o período que se passou antes de assumir a cátedra em Constança. Como no caso de "Poética e Hermenêutica", em que um estudo recente procurou obter informações sobre o funcionamento deste influente grupo de pesquisa por meio de uma série de entrevistas com membros do próprio grupo[28], temos quase que  exclusivamente testemunhos provenientes do círculo interno de Jauss. Algumas dessas declarações também se referem às primeiras titulações como professor de Jauss em Heidelberg, Münster ou Gießen. De acordo com Hans-Jörg Neuschäfer, seu supervisor de doutorado teria sido "mesmo como assistente, o chefe do seminário românico"[29], uma declaração muito positiva que, é claro, deve ser tratada com cautela. Dificilmente encontram-se publicados testemunhos que não sejam de amigos ou estudantes diretamente ligados a Jauss.

Desde a publicação do meu livro sobre o caso Jauss em junho de 2016 até o outono de 2017, mais de mil mensagens em forma de e-mails, cartas e envios anônimos de apoiadores chegaram a mim, contendo – em menor medida – até mesmo conteúdo agressivo. Eles entraram para uma pequena coleção que, em conjunto com inúmeras resenhas, transmitem uma dimensão da virulência com que as discussões em torno deste "caso", que há muito tempo se tornou um paradigma de Jauss, eram e ainda são até hoje conduzidas. Não raras destas mensagens, bem como muitas das resenhas ou cartas de leitores, provêm do seu círculo direto de alunos e apoiadores, ou de bons amigos. Certamente seria empolgante realizar uma análise orientada à sociologia de campo, no sentido de Pierre Bourdieu, a fim de investigar melhor esse subcampo com suas filiações, genealogias e dependências.

Dentre os numerosos envios, apareceram também algumas observações detalhadas de ex-colegas ou estudantes referindo-se ao tempo de Heidelberg, Münster ou Giessen. Assim, em uma carta que totalizava 9 páginas densamente impressas, datada de 28 de outubro de 2016, pinta-se em grande detalhe do ponto de vista de um estudante das Universidades de Heidelberg e Münster, a imagem de um professor universitário que dava máxima importância em reunir alguns seguidores leais que o acompanhavam constantemente como "capangas"[30], e que, junto com ele, também modificaram as universidades: "Eles formavam um grupo fechado, que se mantinha silencioso atrás de seu mestre"[31]. Jauss deixava seus próprios seminários serem ministrados por um assistente, que frequentemente era corrigido por seus alunos. A "infantaria" normal dos estudantes não interessava mais a Jauss, tais alunos eram como se fossem "vento para ele[32]". Tudo girava em torno apenas de seus seguidores.

Sem dúvida, é importante não ser menos cauteloso e crítico em tais avaliações do que nos julgamentos do círculo mais estreito de Jauss. Porém, ambos os posicionamentos brevemente relatados aqui concordam que – e neste ponto é traçado um claro paralelo entre a segunda e a primeira vida de Jauss – com relação a seus estudantes diretos, tratava-se em boa medida do sentimento de pertencer a uma verdadeira elite (que, ainda assim, tinha de ser controlada). Essa ideia de elite e de fazer parte de um círculo escolhido por Jaus também permeia a "Kleine Apologie" [Pequena Apologia], com a qual Hannelore Schlaffer se manifestou em um trabalho para a Merkur como firme defensora de Jauss[33]. Não se tratava apenas de protegê-lo de qualquer tipo de crítica e, em última análise, retratá-lo como uma vítima perseguida por seus críticos, mas também de levantar questões gerais sobre o significado da história alemã:

Hoje, já que mais nenhum pensamento sobre este homem pode ser inocente, pensa-se tão generalizadamente no oficial que liderava um exército – e certamente seu notável espírito comunitário surgiu da Escola nacional-socialista, assim como todas as dignas características de Jauss, sua lealdade, sua confiabilidade, correm o risco de serem encontráveis apenas lá. [...] Pois o país inteiro utilizou a educação assente em virtudes e ideais criminosos do Estado Nazista para si e para a construção da democracia na Alemanha, para constituir um país onde se pode viver bem. É uma triste verdade: bons alemães nazistas se tornaram bons alemães republicanos. Os atuais juízes do Nacional Socialismo, e também os de Jauss, são filhos – e agora netos, em breve serão bisnetos. Eles desfrutam de traços de caráter cuja origem recriminam.[34]

A defesa geral de Jauss contra seus "juízes" ignora tacitamente o fato de que os primeiros críticos de Jauss, como Earl Jeffrey Richards, e aquilo que, legitimamente, deve ser chamado de sistema de Jauss, eram maltratados e atacados se ousassem apenas mencionar a afiliação de Jauss às Waffen-SS. No público, a indignação não foi – como seria de se esperar – contra Jauss, mas contra Richards, a quem se procurava por para escanteio dentro desta área na Alemanha – conforme comprovam, entre outros, numerosos trabalhos, na maioria estrangeiros, em sua publicação comemorativa[35]. A apologia de Hannelore Schlaffers, que – se escrita por um homem – poderia facilmente ser acusada de misoginia, reivindica abertamente aqui as boas características, como espírito comunitário, disciplina, lealdade, confiabilidade ou justiça, como sendo resultados e sucessos de uma educação nacional-socialista, cuja transmissão pela geração dos pais, que se teriam transformado de bons alemães nazistas em bons republicanos federais, haveria criado um novo país, onde seria possível viver bem.

Como em quase todos os documentos de defesa de Jauss, não há qualquer menção à monstruosa destruição causada pelos nazistas, nem, sobretudo, às vítimas, as verdadeiras vítimas de um sistema no qual Jauss foi um criminoso convicto. O "capitão das Waffen-SS"[36] não aparece em nenhum momento como um perpetrador, mas sim como uma vítima injustamente flagelada, ao qual se deveria agradecer por ter podido transmitir as características positivas dos nacional-socialistas à geração do pós-guerra.

Não há dúvidas de que, mesmo décadas após sua morte, Hans Robert Jauss pode contar com o senso de comunidade, a disciplina, a lealdade e a confiabilidade de seus seguidores imediatos, mas também de um círculo mais amplo de amigos e companheiros, mesmo que tudo isso – como mostraram os longos anos de ataques a Richards – nada tenha a ver com a justiça. Mas a justiça provavelmente não era uma das virtudes tão bem ensinadas no Estado nazista. Fidelidade e lealdade a Jauss, por outro lado, tranformaram-se rapidamente em uma até hoje virulenta[37] combinação de ataques diretos contra todos os "hipócritas"[38] que viam "suposições e suspeitas como provas"[39], especialmente porque "Richards e todos os que o perseguiram"[40] não teriam nada a dizer que pudesse colocar em dúvida a "honestidade"[41] de Jauss. Os resultados da pesquisa foram simplesmente negados e, quando possível, suprimidos. A intenção geral de desacreditar todos aqueles que procuraram uma revisão crítica cientificamente sólida do caso Jauss, a tentativa concreta de suprimir [42], por telefone, um relatório científico encomendado pela Universidade de Constança, portanto, o objetivo de não permitir, por meio de censura, que pesquisas indesejadas sejam realizadas, tudo isso mostra claramente de que maneira militante o caso de Jauss há muito se tornou um paradigma, especialmente no que diz respeito à segunda parte de sua vida.

Afinal, já não se trata apenas de transformar o criminoso em uma vítima que teria se tornado objeto de uma bem organizada campanha, como foi recentemente apresentado em um panfleto absolutamente não científico e recheado de acusações de todos os tipos por um historiador emérito de Constança[43]. Neste documento de deliberada banalização das ações de Jauss nas Waffen-SS, os ataques são dirigidos principalmente, embora não exclusivamente, contra as autoridades universitárias de Constança, que irresponsavelmente e sem nenhuma necessidade teriam colocado um respeitável e merecedor professor universitário no pelourinho[44]. É como se não fosse mais uma questão de revisão cientificamente fundamentada da "pré-história" nacional-socialista por muito tempo negada a Jauss e a seus discípulos, mas uma tentativa, na esteira de forças que buscavam uma reavaliação do nazismo, de desacreditar o debate crítico e silenciá-lo definitivamente.

O próprio Hans Robert Jauss havia declarado reiteradamente em sua já mencionada e cuidadosamente editada entrevista para o Le Monde[45] que, em última análise, comportara-se como um típico jovem alemão[46]. Tal argumento é, por si, estatisticamente absurdo em vista do entendimento de "elite" das Waffen-SS. Esse argumento tático de conveniente autoperdão – "Jauss era como todo mundo" – foi, nos últimos tempos, não apenas reafirmado com frequência, mas também tratado com interesse por toda uma geração, que seria tão sobrecarregada por esse mesmo fardo como ele e como Filbinger, Kiesinger, Oberlander ou Schneider/Schwerte, que também fizeram carreiras de sucesso na República Federal. A afirmação de que Jauss, como todos os alemães, teria sido levado por seu entusiasmo por Hitler, lança um discurso de justificativa que, em última análise, amplia o auto-perdão às custas das vítimas e dos fatos históricos. Em um discurso de legitimidade tão amplo, localizado em uma logosfera que mudou significativamente como resultado do surgimento de movimentos identitários, radicais de direita e abertamente neonazistas, ao lado dos criminosos travestidos de vítimas nunca mais aparecem as verdadeiras vítimas, aquelas que foram tantas vezes brutalmente assassinadas ou impiedosamente levadas ao exílio. Elas acabam como que silenciadas, ensurdecidas.

Também nesse sentido, o caso Jauss há muito se tornou um paradigma de Jauss: nele fica clara – não apenas, mas também – a normalização do bárbaro no campo acadêmico, que aprova a compreensão dos atos dos perpetradores e, sem a qual, o crescimento de movimentos e partidos nacionalistas, identitários e de direita radical desde há algum tempo seria impensável. Consequentemente, o caso de Jauss é paradigmático não apenas em relação à carreira meteórica na ditadura nacional-socialista, à rápida escalada na democracia da República alemã ou à fase posterior de encobrimento e negação, mas também e especialmente em relação ao crescente número de tentativas de normalizar, de apagar, de eliminar o caso Jauss da história. O paradigma de Jauss mostra em muitos aspectos, portanto, como as fronteiras entre ditadura e democracia podem ser cruzadas e ultrapassadas com facilidade e rapidez. As supostas virtudes de uma ditadura se tornaram traduzíveis em uma democracia: foi necessário apenas mudar o léxico (e um pouco de semântica). Há tempos uma retradução se tornou concebível, e ainda mais: já está em progresso. Forma-se uma nova logosfera em face do que se tornou dizível novamente na Alemanha ou na França, na Áustria ou na Holanda, na Polônia, na Hungria ou nos Estados Unidos: à luz daquilo que pode ser dito publicamente ou (às vezes mesmo monitorado pelo próprio estado no exterior) do que deve ser ocultado.

Submissão (Michel Houellebecq)

O protagonista da parte seguinte de nossa análise também é um acadêmico, ou, mais precisamente: um cientista literário. Ele transformou o grande amor de sua vida, o autor da "Bíblia" da decadência e esteticismo, no tema de sua dissertação filológica, apresentada e defendida com grande sucesso na Universidade Paris 4 – Sorbonne sob o título Joris-Karl Huysmans, ou la sortie du tunnel. Pode-se dizer que ciência literária e a literatura formam as lentes através das quais, no texto a ser discutido a seguir, será examinada uma realidade extra-lingüística que é bastante familiar, pelo menos aos leitores franceses, em função da inclusão de muitos nomes contemporâneos e históricos e uma variedade de detalhes verificáveis. A mímese de uma plausível realidade francesa do ano de 2022 e as referências intratextuais a um escritor do fin de siècle formam, assim, o tecido textual a partir do qual esse romance é produzido.

O papel e a função da literatura são discutidos diversas vezes no decorrer desta obra e relacionados aos eventos apresentados. Assim, logo após o incipit em que o protagonista, chamado François, recorda seu "triste jeunesse"[47] e seu amor precoce por Huysmans, pode-se ler:   

Seule la littérature peut vous permettre d'entrer en contact avec l'esprit d'un mort, de manière plus directe, plus complète et plus profonde que ne le ferait même la conversation avec un ami Ä aussi profonde, aussi durable que soit une amitié, jamais on ne se livre, dans une conversation, aussi complètement qu'on ne le fait devant une feuille vide, s'adressant à un destinataire inconnu. Alors bien entendu, lorsqu'il est question de littérature, la beauté du style, la musicalité des phrases ont leur importance; la profondeur de la réflexion de l'auteur, l'originalité de ses pensées ne sont pas à dédaigner; mais un auteur, c'est avant tout un être humain, présent dans ses livres, qu'il écrive très bien ou très mal, en définitive importe peu, l'essentiel est qu'il écrive et qu'il soit, effectivement, présent dans ses livres [...][48]

Esta passagem revela muito bem a abordagem do autor real, externo ao texto, Michel Houellebecq – nascido em 1958 no departamento francês de La Réunion, criado por uma uma avó e, depois, em um internato, divorciado duas vezes e que leva uma vida reservada como autor de sucesso e enfant terrible da literatura francesa contemporânea –, que embora primeiro permita a seu personagem, François, refletir sobre sua relação com Huysmans e, em um segundo momento, sobre a literatura em geral, logo coloca declarações em seu discurso que procuram confundir e multiplicar a clara demarcação entre as posições internas e externas ao texto dos falantes. Houellebecq não está de modo algum preocupado em se manifestar em favor do "conteúdo" de um texto em detrimento da "forma" literária, mas sim em situar uma voz direta do "ser humano" chamado autor dentro do texto e, com isso, abrindo possibilidades de atribuir afirmações a si mesmo como autor externo ao texto. É um jogo confuso entre personagens fictícios e figuração autoral, que o provocativo e, frequentemente, escandaloso escritor joga de forma muito bem sucedida com a crítica.

O romance intitulado Soumission, publicado em 7 de janeiro de 2015, mesmo dia do fatal ataque terrorista à revista satírica francesa Charlie Hebdo, exibe uma composição precisa e especialmente eficiente em termos de suas possibilidades em estabelecer uma confusão constante entre o personagem interno o autor, externo ao texto. Houellebecq conscientemente instiga ser chamado de racista ou misógino, de anti-esclarecido ou de anti-intelectual islamofóbico. Somente a técnica literária de suscitar um quiproquo textual abre todas as possibilidades de uma dimensão polêmica e, muitas vezes acusada de provocativa ao autor, na medida em que agora é atribuído ao autor-sujeito aquilo que "na verdade" apenas François pensa e escreve, vive e faz. Michel Houellebecq, que foi muitas vezes colocado em uma série histórico-literária ao lado Emile Zola por Rita Schober[49], usa eficientemente sofisticadas técnicas textuais para fazer seu personagem François de porta-voz de visões supostamente pessoais.

Não há dúvida de que Michel Houellebecq é atualmente "l'auteur le plus controversé de la littérature contemporaine française"[50] e, com base em sua "approche philosophique", bem como na "complexité scientifique" de sua escrita, vemos que tenta desdobrar simultaneamente "une théorie de la vie"[51]. Mas isso não significa, nem no âmbito de uma tal teoria da vida, nem no de uma polêmica posta em movimento pelos mais diversos comentários, que o autor real falaria diretamente a nós em seus textos e nos comunicaria diretamente seus pontos de vista. Em vez disso, na verdade, deveríamos cuidar de desfazer o limite entre instâncias narrativas textuais internas e externas. Isso porque quando se trata de François, estamos lidando com um personagem inteligentemente criado por Houellebecq, que de modo algum defende o autor externo ou seria seu guardião. Autor e autoria, autoridade e autorização não fazem parte deste modelo narrativo. Assim, devemos notar que o poder da ação, bem como o potencial escandalizador do modelo de escrita de Michel Houellebecq, neste e em outros romances do escritor francês, partem de uma deliberada multiplicação e confusão de fronteiras. Soumission não é um tratado sociopolítico,  ainda que, de fato, baseie-se em análises políticas, sociais, culturais e demográficas.

Da mesma forma, não devemos sucumbir à tentação de manter a vida e a literatura estritamente delimitadas por uma fronteira fixa, pois ambas estão intimamente conectados, sem, evidentemente, serem idênticas entre si. Especialmente nas entrevistas recentes – como, por exemplo, na entrevista realizada com Iris Radisch pelo jornal  ZEIT, pouco tempo após a publicação de Soumission e os ataques ao Charlie Hebdo –, Houellebecq sempre aponta com ironia que entre ele e seus personagens haveria claramente diferenças de opiniões e convicções[52]. Todos os seus personagens, porém, têm muito a ver com sua vida. A literatura e vida são friccionalmente intermediadas nos mais diversos níveis.

Isto é admiravelmente encenado também no próprio nivel do texto. A enorme importância que a vida e os trabalhos de Joris-Karl Huysman têm para a figura literária de François cria a estrutura narrativa e discursiva do romance de Houellebecq, graças à constante inserção de fragmentos de texto de Huysman. O décadent, porém, não representa uma zona de conforto para o cientista literário: permanece para ele não apenas um amigo íntimo, mas um constante desafiador em um presente sem sentido, sem significado e sem sensualidade.

Através da literatura, a fronteira entre a vida e a morte torna-se, ao mesmo tempo, permeável, posto que se trata do "contact avec l'esprit d'un mort"[53]. Neste sentido, a literatura não apenas contém e transporta um saber sobre o viver e um saber sobreviver, mas também um saber seguir vivendo[54], que subverte as fronteiras supostamente nítidas entre a vida e a morte. A literatura dispõe de uma forma muito específica de conhecimento que pode ser adquirida por meio da leitura: os limites da vida não são independentes dos limites da leitura. De modo algum Huysmans se torna algum tipo de renascido da morte ou de redivivus; longe disso, a vida e as obras do autor de A rebours tornam-se para François um meio de interpretação, em cujo sistema de coordenadas a ação do personagem fictício é repetidamente situada e interpelada. Tendo em vista outros romances do autor francês, esta configuração torna-se um "laboratoire d'une vie"[55], e este laboratório literário, por sua vez, torna-se um modelo do mundo, um mundo fractal [56], no qual percepções fundamentais em um macrocosmo externo ao texto podem nos ser esteticamente trazidas à consciência por meio de processos de autossimilaridade recíproca projetados em um microcosmo modelado literariamente. Por intermédio das repetidas leituras e pesquisas literárias de François, Huysmans encontra sua existência no presente e abre possibilidades de se traçarem caminhos viáveis para o futuro.

O cientista literário se apresenta desde o início como um renomado especialista no campo acadêmico da literatura francesa do século XIX, tendo a especial consideração de Huysmans; porém, é tomado por uma sensação de completa falta de sentido que começa com sua própria atividade como professor universitário, pois os estudos literários levam, como se sabe, "à peu près à rien"[57]. Tratar-se-ia de um sistema que serviria apenas para a própria  reprodução dos especialistas e que, de resto, produziria 95% de resíduos ("déchet")[58], uma vez desconsiderado o fato de que as estudantes instruídas teriam maiores chances no mercado de trabalho, pois seriam contratadas, por exemplo, como vendedoras.

Mesmo em outros aspectos, a universidade funciona como um sistema fechado. O próprio François selecionava semestralmente suas parceiras amorosas entre a população de estudantes mulheres, sendo seus relacionamentos parte do tempo poligâmicos, e, depois, preferencialmente monogâmicos. François logo se revela portador de uma misoginia profunda, do tipo que considera as mulheres apenas como objetos de prazer rapidamente sujeitos à decadência física. Colegas da mesma idade estão, há muito tempo, fora de questão para este homem em seus meados dos quarenta anos. Isto aparece em algumas cenas, que não apenas são sexualmente explícitas – como frequentemente ocorre em Houellebecq – mas apresentam uma visão brutalmente patriarcal acerca das mulheres em seu declínio físico – um elemento que será ressemantizado no decorrer do romance dentro das relações poligâmicas sob a proteção do Islã. A misoginia ocidental e a exploração oriental das mulheres em breve formarão em uma aliança profana na França do ano de 2022.

Como grandes partes da Soumission se passam no ambiente universitário, podem-se identificar neste texto, sem dúvida, elementos de um romance universitário: um pequeno mundo com suas regras, suas hierarquias e seus muitas vezes surpreendentes hábitos. Ao mesmo tempo, Der Campus [O campus] como Small World – para combinar os títulos dos romances de Dietrich Schwanitz e David Lodge – é o microcosmo de um mundo maior, no qual ocorrem importantes mudanças de peso político, e até mesmo choques sísmicos. Na medida em que a vida política da França se introduz no romance, o romance universitário se torna um romance histórico no qual  personagens historicamente reconhecidos de políticos franceses, com seus nomes facilmente identificáveis, reúnem-se em torno de uma figura central fictícia no papel de François, que certamente não representa nenhum personagem conhecido.

Assim, a partir de sua perspectiva, que se caracteriza por (em maior ou menor medida de esclarecimento) racismo, colonialismo, anti-semitismo e misoginia, esboça-se um mundo em reviravolta: após anos de uma descrita como entediante partilha de poder entre governos de esquerda e governos conservadores, agora, no ano 2022, antecedendo às eleições presidenciais na França, os movimentos extremistas e identitários de direita, assim como os movimentos islamistas e fundamentalistas, estão em ascensão e marginalizam os partidos democráticos anteriores. O romance histórico transforma-se em um romance de ficção científica e se desloca para um futur proche de grande atualidade e inegável verossimilhança. Neste sentido, surgem traços de uma distopia, quando o mundo, que até então estava bem dividido entre dois campos políticos, agora ameaça entrar em conflitos violentos, em uma sangrenta guerra civil e em um tipo de regime ditatorial antidemocrático. Isso porque não vemos a França no limiar da guerra civil: a guerra civil já havia começado no período que antecedeu as Présidentielles.

O início da mudança política no próspero mundo acadêmico ocorre no início da segunda parte do romance, quando, durante uma agradável festa no jardim de especialistas em literatura francesa do século 19, irrompem de repente os sons de disparos e explosões nas proximidades do centro de Paris. Há inquietação, mas ainda se fala alguma coisa sobre Huysmans ou Mallarmé; logo despedem-se e esperam que as próprias residências não tenham sido atingidas, mas não se emite qualquer opinião. Ninguém parece querer se envolver na manutenção de um sistema democrático.

Em geral, muitos parecem não acreditar que a situação é perigosa. Oficiais de segurança do Estado passeiam e conversam animados, carregando penduradas metralhadoras e cargas reluzentes. François acha difícil entender por que eles parecem não se importar com nada: "ils font intrument comme de rien n'était"[59]. Há muito tempo existe uma normalização fundamental em que o estado de exceção[60] torna aceitável a ideia de um mundo fora da democracia.. E logo fica evidente que um dos colegas, sugestivamente chamado Lempereur, possui boas conexões com o movimento identitário, e pode mesmo ter sido um de seus mentores por um longo tempo. Nada no mundo acadêmico se move para defender a democracia ou para lutar por ela: a academia não é um refúgio de resistência neste romance de tempos críticos e repleto de ironia mordaz.

Assim, neste cenário de fundo criado por Houellebecq, já se modela que uma infinidade de limites está sendo ultrapassada em direção à ditadura, sem que haja a menor atividade em favor de processos e procedimentos democráticos no mundo dos acadêmicos. Teme-se apenas pela própria segurança, pelos próprios pertences. François permanece calmo e, como sempre, lacônico: ele acompanha Lempereur e observa com interesse em qual sistema de pensamento e universo de discurso transita esse colega que, obviamente, também se beneficia financeiramente de sua posição nos movimentos extremistas de direita e que está fortemente envolvido na preparação de uma guerra civil. O título de uma revista aparece claramente estampado no luxuoso apartamento de Lempereur: "PREPAREZ LA GUERRE CIVILE"[61].

A suave imersão colegial em um universo radicalista de direita mostra o quanto a logosfera mudou de maneira imperceptível, porém constante, no período que antecedia as seguintes eleições presidenciais na França. Da mesma forma, no espectro extremista de direita e na Frente Nacional de Marine Le Pen, como nos vários movimentos islâmicos, o anti-semitismo volta a ser socialmente aceitável em 2022 – e não apenas no nível político, mas também na vida cotidiana. François se vê diretamente afetado por isso, porque sua atual parceira sexual Myriam, cujo jovem e excitante corpo – e partes sexuais, que ele ama e usa em diversas formas de submissão[62], é forçada, como toda a sua família, a deixar a França e fugir para Israel sob uma atmosfera anti-semita cada vez mais declarada. François realmente lamenta esse fato, pois nenhuma outra jovem estudante tornava suas noites de amor e fins de semana tão agradáveis e emocionantes quanto Myriam, por quem sentia grande simpatia. Mas quando sua família finalmente não tem escolha a não ser emigrar para Israel, ele rapidamente se acostuma com a idéia: aceita a nova situação em uma França profundamente anti-semita sem reclamar.

Com isso, mais um entre tantos limites é ultrapassado. A logosfera está mudando de forma cada vez mais veloz para expressões militantes de exclusão, que provoca confrontos não apenas verbais, mas cada vez mais violentos. Com relação à satisfação sexual, François permanece o mesmo: como outros protagonistas masculinos de Houellebecqs, ele também encontra aqui uma "subjugação dos sexos na competição amorosa sob as leis do mercado"[63], conforme formulado por Rita Schober muito antes do surgimento de Soumission.

O romance encena com maestria esse processo quase imperceptível de se ultrapassarem cada vez mais rápido os limites rumo a um regime autoritário ainda aberto em seus contornos. O romance inicialmente universitário torna-se um romance histórico e depois um romance político, sem romper as ligações entre esses subgêneros individuais. O campus é um mundo, tal como François já defende, com seu nome, o mundo dos franceses. Em muitos e pequenos passos, quase imperceptíveis, demonstra-se como uma democracia pode se traduzir em uma ditadura ou em um regime autoritário. Para isso, importam menos as mudanças fundamentais, do que um cruzar de muitas fronteiras.

Há muito tempo já deixou de existir um saber conviver na relação entre as diversas comunidades políticas, culturais e religiosas, um saber que praticamente desapareceu depois de ser deliberadamente suprimido por diferentes lados, que objetivavam poder anular uma convivência populista pacífica. As estruturas democráticas ainda funcionam, as eleições presidenciais se realizam e, apesar de todos os problemas, ainda chegam até mesmo ao segundo turno. Os partidos democráticos tradicionais da França, no entanto, estão desaparecendo: começa a se constituir uma paisagem partidária completamente nova. O romance torna difícil, até mesmo propositalmente impossível, determinar o limite exato em que uma democracia se transforma em seu oposto. Não existe um limite preciso.

As imagens do colapso de uma ordem antiga, que se desenrolam no início da terceira parte, são crescentemente substituídas pela silhueta de uma nova ordem, que, graças às estruturas bem preparadas das irmandades muçulmanas, conhece apenas um beneficiário real. Mais tarde, com a vitória eleitoral sobre Marine LePen no segundo turno das eleições presidenciais, vemos se elevar sob o governo habilidoso do novo presidente Ben Abbes uma liderança autoritária de grupos islâmicos e islamitas, que entende que as transformações políticas e sociais almejadas estão ligadas ao alcançe de uma rápida estabilidade política. A promessa de estabilidade atrai: essa parece a única maneira de se evitar uma guerra civil.

Após a vitória eleitoral de Ben Abbes, a Sorbonne e outras universidades públicas são alinhadas à nova política em um curto espaço de tempo, privando as mulheres de seu status docente e criando estruturas universitárias islâmicas, sem que haja a menor resistência dentro ou fora dos muros da universidade. A universidade novamente aparece como um fractal de toda a sociedade francesa. Pelo contrário, a introdução da poligamia se encaixa perfeitamente nos sonhos de muitos membros da cátedra e do patriarcado, sendo disponibilizadas aos professores, quando necessário, alunas que se sacrificam aos seus estudos e às suas novas responsabilidades, com ou sem usar uma burca. A incapacidade de amar tanto nos homens quanto nas mulheres, da forma como os encontramos claramente delineados nos romances anteriores de Michel Houellebecq, é instrumentalizada aqui de forma quase religiosa como busca por amor e elevada a uma aparente esfera superior: casamenteiras reconhecidas pelo Estado cuidam com sucesso dos casamentos em nome do Islã.

Em outros aspectos também o patriarcado parisiense em Soumission ganha vários banefícios com a hierarquia de gênero baseada, agora, na religião. As ex-colegas tornam-se excelentes cozinheiras que, para deleite de seus maridos, concentram-se inteiramente em seu novo antigo trabalho à beira das panelas. A misoginia e o falocentrismo das sociedades da Europa Ocidental entram de forma pacífica e progressiva em um governo masculino de matriz cultural e religiosa que se submete de bom grado às novas leis, pois elas possibilitam que as mulheres sejam subjugadas. O desemprego na França diminui, dado que as mulheres estão cada vez mais desaparecendo do mercado de trabalho: seu lugar, de agora em diante (mais uma vez), é em casa. Uma nova ordem autoritária de sociedade, não mais ameaçada pela guerra civil, substitui as antiquadas sociedades de tradição democrática ocidental no ano eleitoral de 2022. A democracia conseguiu anular a si mesma.

Não apenas dentro da paisagem universitária, mas também fora do campo acadêmico, a vida e a convivência das pessoas muda quase imperceptivelmente. No início, François tem dificuldades em reconhecer como esta mudança fundamental pode ser fixada e se tornar visível em lugares como na rua, na vida cotidiana, ou enquanto faz compras nos grandes centros comerciais,. No início da Parte IV, logo após a irmandade assumir o poder, o francês caminha pelas ruas de Paris e observa atentamente que não tanto as lojas em si, mas "le public en lui-meê qui avait, subtilement, changé"[64]: as mudanças começam a se revelar aos poucos e não são perceptíveis imediatamente:

Et l'habillement féminin s'était transformé, je le ressentis immédiatement sans parvenir à analyser cette transformation; le nombre de voiles islamiques avait à peine augmenté, ce n'était pas cela, et il me fallut presque une heure de déambulation pour saisir, d'un seul coup, ce qui avait changé: toutes les femmes étaient en pantalon. La détection des cuisses de femmes, la projection mentale reconstruisant la chatte à leur intersection, processus dont le pouvoir d'excitation est directement proportionnel à la longueur des jambes dénudées: tout cela était chez moi tellement involontaire et machinal, génétique en quelque sorte, que je n'en avais pas pris immédiatement conscience, mais le fait était là, les robes et les jupes avaient disparu. Un nouveau vêtement aussi s'était répandu, une sorte de blouse longue en coton, s'arrêtant à mi-cuisse, qui ôtait tout intérêt objectif aux pantalons moulants que certaines femmes auraient pu éventuellement porter; quant aux shorts, il n'en était évidemment plus question. La contemplation du cul des femmes, minime consolation rêveuse, était elle-aussi devenue impossible.[65]

No império dos signos[66], o sistema da moda[67] reage como um sistema coletivo de pré-alerta, tanto não-verbal como verbal, que manifesta as mudanças essenciais por meio de métodos sutis de adaptação. Sismograficamente, as mudanças sociais e políticas traduzem-se em distorções das fronteiras de visibilidade e visualização no corpo feminino, que é redimensionado, remapeado e ressemantizado como um espaço de atuação das projeções masculinas. No entanto, não são as vestimentas femininas ostensivas e semanticamente bem definidas, como véus ou burcas, mas a multiplicação das demarcações vestimentais que traduzem as transformações políticas em limites cotidianos, nos quais os movimentos entre uma democracia de estilo ocidental e um regime autoritário estilo islamista transparecem na linguagem da roupa feminina. Consequentemente, não são de modo algum apenas traduções discursivas e verbais, mas sistemas de signos dos mais diversos tipos, dentro dos quais os processos de tradução ocorrem. Todo o sistema de expressões culturais é recodificado. Uma nova política, mas também uma nova poética e polêmica de fronteira surge.

A onipresença de Joris-Karl Huysmans permanece constante também nestas partes do romance que tratam da transformação radical de uma sociedade democrática e da reestruturação da União Europeia em uma futura Europa nos moldes do Império Romano – porém, sob a supremacia do islã. O próprio François, como leitor permanente do autor da "Bíblia" de todos os décadents, lê literalmente sempre novas páginas sobre o autor francês que tanto admira. A relação de Huysman com o Cristianismo influi no relacionamento de François com o Islã.

Torna-se cada vez mais claro que Huysmans não apenas apoiou uma série de posturas sexistas de François Pate, mas também difundiu estruturas em sua fervorosa fé, que, mais tarde, permitiriam ao estudioso especialista literário se submeter alegremente ao domínio religioso que se impunha sobre os franceses, bem como, de uma perspectiva mais ampla, sobre todos os europeus. Assim como o crítico literário alemão Hans Robert Jauss foi capaz de se adaptar a todas as mudanças que ocorreram em seu horizonte temporal – da ditadura nacional-socialista à luta contra o bolchevismo à democracia alemã ocidental e seus movimentos reformistas – o estudioso literário François também consegue adaptar sua leitura às circunstâncias particulares. Então, afinal, não é de surpreender que, após algum tempo e hesitação, ele se submeta às novas regras islâmicas na Sorbonne e, pela última vez, escreva um longo texto sobre Huysmans, o qual lhe foi pedido e que apresentava uma nova versão, em conformidade com o novo sistema, do autor de En route – de cuja obra se extrai a citação inicial utilizada no romance como mote. Em sua condição de romance universitário das ciências literárias, Soumission exibe um testemunho pouco lisonjeiro, da perspectiva político-literária, que não perdoa a canonização de Huysmans como clássico do esteticismo e da décadence. Pois a política de submissão contém sempre não apenas uma polêmica, mas também uma poética da submissão – e vice-versa.

A conclusão da quarta e o início da quinta e última parte desdobra essa relação de maneira penetrante e insistente. Isso ocorre no contexto de um desenvolvimento político no qual os representantes dos movimentos identitários, bem como da Front National, que uma vez lutaram contra os islamistas e iniciaram uma guerra civil contra os últimos, mas também deflagraram insurreições contra as instituições democraticamente constituídas, agora mudaram de lado e se juntaram ao novo movimento de aliança sob Ben Abbes e sua liderança islâmica. O novo presidente francês está comprometido com uma linguagem taticamente inteligente e equilibrada, que pode permitir a construção de muitas pontes para que a antiga sociedade democrática de maioria passe de um sistema social democrático para um não-democrático. A ideia da Europa – como já pretendida pelos nazistas alemães – de nenhuma forma desapareceu deste discurso, sendo tão onipresente na Irmandade Muçulmana quanto na unidade das Waffen SS, na qual Hans Robert Jauss serviu como líder do 58º Batalhão da 33ª Divisão Waffen-SS de Granadeiros (Regimento Charlemagne), uma unidade que lutou não sob o crescente, mas sob a suástica, por uma Europa unida. O Império Romano já foi o modelo histórico de muitos sistemas políticos – de Napoleão a Mussolini ou Hitler. No final, a Europa chega sempre ao colapso.

A tese básica do romance, explicitamente emprestada do filósofo cultural britânico Arnold J. Toynbee[68], segundo a qual as culturas são destruídas não por ataques externos, mas por sua desintegração interna, sem dúvida registra o papel de literatos como Huysmans e também de acadêmicos que, como François, são capazes de se adaptar perfeitamente e sem grandes dificuldades não apenas a sistemas universitários, mas também a sistemas sociais modificados. Sem problemas, a Sorbonne pode aceitar um reitor Rediger convertido ao islã poucos anos antes, em cujo personagem as distintas forças antidemocráticas se concentram e, ao mesmo tempo, combinam-se com um alto nível de educação, e se colocar em uma posição de servir ao novo estado. O alinhamento nazista [Gleichschaltung] da universidade, da mesma foma como efetuado na Universidade de Freiburg, também por um reitor extremamente culto chamado Martin Heidegger, baseia-se aqui, em parte, em sua adquirida percepção de que a Europa já havia há muito tempo cometido um suicídio mental[69], e, em parte, na convicção de que a maior felicidade do homem consiste em sua submissão – que é entendida aqui como a subjugação sexual das mulheres sob o poder do patriarcado, bem como a subjugação da humanidade sob os ditames de uma consagrada ditadura islâmica. A submissão torna-se, neste ponto, um conceito transcendente, no qual o autossacrifício do indivíduo é normalizado e religiosamente justificado.

Neste contexto, não é de se surpreender que François – por acaso, sob a popular orientação filosófica de um pequeno livro do Reitor Rediger – converta-se ao Islã e inicie uma segunda vida com esta iniciativa, "la chance d'une deuxième vie, sans grand rapport avec la première"[70]. A frase final do romance – "Je n'aurais rien à regretter"[71] – significa o processo de transformação, conversão e tradução realizado no personagem fictício de François, que apresenta diversos paralelos com a figura histórica de Hans Robert Jauss: apesar e exatamente através do fato de ambos ultrapassarem as inúmeras fronteiras entre a ditadura e a democracia, entre a democracia e a ditadura, de diferentes maneiras e em diferentes direções. Ambos não apenas ultrapassam esses limites, fronteira por fronteira, mas constroem para si divisas posteriormente intransitáveis e isolam completamente sua primeira vida da segunda. E os dois, ao que parece, não se arrependiam delas e nunca lamentavam por nada. O "rien à regretter"[72] torna-se o código de uma vida não mais capaz de se pensar como contínua, e consciente de como se sujeitar a sistemas diferentes em momentos diferentes. A política e a polêmica da submissão parecem exigir sempre uma poética de auto-submissão que não conhece remorsos.

Destruição (Cécile Wajsbrot)

Com seu romance ainda inédito Destruction, a escritora francesa Cécile Wajsbrot [73] completou no final de 2017 seu amplo ciclo narrativo »Haute Mer« – composto pelos romances Conversations avec le maître (2007)[74], L'île aux musées (2008)[75] Sentinelles (2013)[76], Totale éclipse (2014)[77] e pelo romance final Destruction[78], escritos ao longo de um período criativo de mais de uma década – de maneira esteticamente convincente. Neste romance final, as insistentes imagens de todo o ciclo fluem juntas e se sobrepõem de forma formidavelmente concentrada em suas isotopias de buscas e fracassos, dos movimentos constantes entre as cidades de Paris e Berlim[79], ou das metafóricas imagens do eclipse e do soleil noir[80]. Destruction reúne essas imagens e camadas de significado em um projeto literário de ruptura, de destruição e de autodestruição, em cujo centro se apresenta a transição inicialmente imperceptível da democracia para a ditadura, pois o que começou como uma desordem termina na destruição e na autodestruição de uma comunidade democraticamente constituída, com a qual toda uma época parece estar chegando ao fim.

No início do romance, uma recaída nas catástrofes políticas, militares e humanas do século XX ainda é considerada como algo fora de questão, pois a narradora em primeira pessoa esteve por muito tempo unida à sua geração na crença de que nunca mais seria preciso viver o século das guerras, catástrofes e migrações, imaginando-se que agora, em nome da ciência e do progresso, esse passado de ditaduras assassinas teria, de uma vez por todas, ficado para trás:

Je me souviens que nous croyions aux chiffres, ceux des mathématiques, ceux de l'économie. Nous pensions qu'ils régnaient sur le monde, qu'il suffisait de les connaître – oserai-je dire de les déchiffrer? Nous les considérions comme des sortes de divinités – un peu comme les Mayas qui associaient chaque nombre à un dieu – oubliant que nous les avions créés. Nous pensions qu'avec eux, nous pourrions réguler le monde, repérer des règles et des lois, des cycles, gouverner les pays. Certains, grâce aux chiffres, vivaient mieux que d'autres, et j'en faisais partie. Nous croyions que l'avenir et les chiffres étaient liés. Le vingt-et-unième siècle, pensions-nous, serait celui du progrès, de la science, de la conquête de l'espace que le vingtième avait à la fois initiée et stoppée. Nous pensions avoir tourné la page des catastrophes du siècle précédent. Malgré quelques signes – des avions qui s'écrasaient sans explication, des tempêtes d'une force inconnue, des épidémies nouvelles – nous pensions avoir surmonté le plus grave.[81]

No entanto, no decorrer da leitura rapidamente se percebe que a idéia abstrata de uma ditadura definitivamente deixada para trás deu lugar, agora, à experiência da possibilidade concreta de seu retorno, e que há muito tempo – no contexto das eleições na França, cujo momento exato no tempo não está determinado – já havia começado uma transição para um governo autoritário, destruindo assim todas certezas anteriores do narrador e de sua geração. Neste contexto, torna-se claro que o passado e o presente não são unidades nitidamente separadas ou mesmo separáveis, mas que os dois níveis temporais estão intimamente ligados entre si: "Comment tracez-vous une frontière étanche entre le présent et le passé? Je vous parle maintenant, bien sûr, mais des images me hantent, viennent me visiter, celles de la vie d'avant."[82] A vida passada ainda faz parte do presente como um passado que não pode e não quer terminar.

Assim como no nível individual as imagens do passado constantemente aparecem no presente e fazem parte dele, tal compreensão também se aplica no nível coletivo, o nível de um "mémoire collective récente"[83], no qual as imagens de catástrofes passadas permanecem armazenadas em um espaço coletivo de memória. O termo mémoire collective aqui utilizado se refere ao seu criador Maurice Halbwachs[84], não apenas com relação à sua morte no campo de concentração de Buchenwald, mas também à catástrofe da barbárie nazista e à própria Shoah. As próprias fronteiras entre passado e presente, e mesmo entre ambos e o futuro, não são estáticas nem impermeáveis, em vez disso – contrariando a convicção de que o futuro pode ser precisamente calculado no otimismo de números e progressos –, baseiam-se em constantes interações e projeções. Estamos lidando aqui não com fronteiras claras, mas com contraditórios campos de tensão.

Desde as primeiras linhas do romance final do ciclo "Haute Mer", a imagem certamente central do eclipse é onipresente, e já havia sido intensamente abordada no quarto, portanto imediatamente precedente, romance Totale éclipse. Em Destruction, não apenas a previsibilidade numérica exata dos eclipses solares ou lunares é enfatizada, mas também é assinalado o fato de que essas constelações carregam campos de significado simbólico em nosso sistema planetário que, devido à sua previsibilidade astronômica, não podem ser racionalmente ocultados. Os eclipses solares não pressagiam nada de bom em nenhuma cultura humana.

No entanto, um campo de significado especial aparece no romance, apontando o quanto esses processos são inconspícuos e o quanto é difícil perceber o início de um eclipse, mesmo que possamos prever com precisão a entrada do disco da lua na superfície ainda visível do sol. O aspecto do imperceptível é trazido à tona:

Il y a une vingtaine d'années, aux points les plus élevés de Paris, nous étions des centaines à scruter le ciel en attendant le moment où l'ombre apparaîtrait enfin, imperceptible puis grandissante. C'était en pleine ville – et la vue sur Paris s'étendait sur l'étagement des toits, toile de fond urbaine, des formes connues se détachaient, les couleurs de Beaubourg, les tours régulières de quelques églises, la voûte des gares, l'image d'une capitale construite et apaisée qui avait fait l'essentiel de son travail et qui pouvait se reposer, maintenant, et vivre de ses rentes. [...] Dos tourné à l'édifice, nous regardions vers le ciel, dans l'attente du moment solennel. C'était l'ultime année du siècle, bientôt nous allions entrer dans l'ère actuelle – même si le monde où nous sommes désormais n'a plus grand-chose en commun avec le monde précédant. Mais ce n'était pas le changement de siècle que nous attendions – pas encore – ce jour-là, c'était dans le ciel que tout devait se passer, le trajet des planètes allait coïncider et la lune, projeter son ombre, exactement, sur la surface du soleil.

Il y avait tout un groupe, assez nombreux, qui commentait les fausses alertes, des nuages qui menaçaient de voiler le soleil, sifflant à leur apparition, comme s'ils assistaient à un match de football. Je me demande si ce n'était pas eux, déjà, les porteurs de la destruction.[85]

O Totale éclipse do sol em 11 de agosto de 1999, evento bem observado em partes da Europa Ocidental e Central, literalmente prefigura, com sua sombra, um novo século, ou talvez mesmo um novo milênio, para o qual poderiam ser trazidas todas as significações que simboliza. O avanço da escuridão na superfície da luz se repete em diversos níveis no romance, que, como uma pedra angular, coroa o arco de uma visão retrospectiva do século XX e, ao mesmo tempo, revela o vislumbre de um futuro que, contrariamente a todas as esperanças iniciais, talvez não possa mais trazer luz à escuridão de uma história humana que permanece na sombra do século passado. Todos os sinais se tornam potenciais presságios do futuro: assim como o Anjo da História de Walter Benjamin, em seu impulso para frente, olha através da tempestade do Paraíso para as ruínas de todas as catástrofes que se amontoaram em seu caminho Ao fazer referência a uma pintura de Klee, intitulada "Angelus Novus"[86], Benjamin coloca:

O anjo da história deve ter esse aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de fatos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já não as consegue fechar. Esse vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até o céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval. [87]

Assim como as catástrofes do século XX, em um sentido bastante benjaminiano, são onipresentes no ciclo dos romances de Cécile Wajsbrot, Destruction mostra repetidas sequências de imagens em que as iminentes catástrofes se insinuam e emergem imperceptivelmente. Pássaros negros cercam e invadem a cidade: "Les corbeaux envahissent la ville. Ils sont arrivés petit a petit, à mesure des années. Imperceptiblement."[88] Mais uma vez, o foco está no imperceptível. Quem pode dizer quando tudo começou, quando a catástrofe começou?

Passo a passo, as estruturas de controle e opressão, assim como os corvos no romance de Cécile Wajsbrot, invadem as estruturas da comunidade estabelecida por longo tempo como democrática. Nas mais diversas fronteiras entre democracia e ditadura, notamos como são realizados os processos de tradução de um regime para outro, de um século para outro, e como eles destroem as estruturas existentes. Primeiro, tenta-se controlar o passado eliminando seus testemunhos, bem como seus portadores materiais a nível individual, familiar ou coletivo. Por força de armas, os livros são removidos das bibliotecas públicas e privadas; álbuns de família são confiscados e destruídos.

Mas também instituições educacionais de diferentes tipos, de escolas a bibliotecas, museus ou óperas, são reestruturadas e privadas de seu conteúdo. Ao fazê-lo, utiliza-se procedimentos por vezes populistas e admite-se[89] que o conhecimento de história é menos importante que o de geografia, pois é preciso, antes de tudo, saber onde se vive; que o trabalho com arte é um luxo, na medida em que os cálculos são mais importantes para o povo do que as atividades artísticas; ou que a restauração de edifícios históricos é menos importante do que impulsionar um programa de habitação social por meio do qual são erguidos do chão blocos idênticos de apartamentos da mais baixa qualidade. As vozes essencialmente intangíveis e ubíquas do novo regime buscam construir um muro entre passado e presente para controlar o futuro.

Uma infinidade de limites é ultrapassada no caminho da ditadura e à sombra de mecanismos de controle autoritários. No foco da destruição em curso, que se alicerça em manifestações de massa, está sempre a linguagem. Por meio dela busca-se exercer influência, em torno dela constroem-se fronteiras. Por que aprender línguas estrangeiras, perguntam as vozes onipresentes, se a própria língua é a mais importante?

Em termos de língua materna, o desejado não é uma língua complexa e diversificada, mas sim um idioma útil para os ideais e propósitos da propaganda ideológica: trata-se de "un véhicule utilitaire transportant leur propagande, un ensemble de mots á sens unique"[90]. As estruturas hipotáticas são eliminadas, as estruturas paratáticas são reduzidas sempre aos mesmos termos, os processos complexos de formação de significados são interrompidos sempre que possível, as outras línguas são ignoradas ao máximo, os textos antigos são eliminados. Além do controle do passado e do futuro, da linguagem e, portanto, do pensar, o espírito comunitário e a disciplina, a lealdade e a confiança são encorajadas e, ao mesmo tempo, combatem qualquer dissidência utilizando todas as formas de controle autoritário de uma censura, submetidas a uma destruição que parece onipresente. Em toda parte "cria-se espaço", "varre-se" e "purifica-se": em toda parte limpezas são postas em prática e tudo o que aponta para outras possibilidades de pensar e agir é exterminado e destruído. Porque a palavra chave de todos esses avanços é a destruction, a destruição que não deixa mais nenhuma área de atuação.

A primeira coisa a ser irremediavelmente destruída é – como vimos – a fé inabalável de toda uma geração, de que depois da barbárie da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, depois das ditaduras dos nazistas, mas também de muitos outros movimentos fascistas na Europa, uma nova recaída em um regime autoritário nunca mais seria possível. De acordo com uma pesquisa publicada pela Universidade de Bielefeld em 13 de fevereiro, quase 50% dos alemães acreditam que um holocausto, isto é, a aniquilação de judeus europeus, poderia se repetir.[91]. E, por acaso, não é a possibilidade de uma ilha o passo mais importante para a existência dessa ilha?

De qualquer forma, não resta nenhuma das crenças da geração do narrador, já que a visão há muito esquecida ou reprimida das mudanças que levaram a uma nova ditadura ensina que as ditaduras não desapareceram definitivamente da própria história. E é claro que isso não é uma tirania vinda de fora ou imposta por potências estrangeiras. A ditadura, cujos capangas, geralmente em três e armados, invadem casas particulares sem aviso prévio e destroem à vontade documentos e memórias, que patrulha o transporte público civil e impede qualquer conversa dos cidadãos condenados ao silêncio, que interdita todos os eventos culturais de qualquer incipiente oposição e, a partir daí, eficientemente a controla, esta ditadura é, sem dúvidas, uma tirania que vem de dentro. Paralelamente à tese de Toynbee já mencionada, ela surge da própria sociedade e se alimenta da crescente rejeição da supostamente estável ordem social anterior. É, portanto, como expressam todas as vozes do romance, uma ditadura auto-imposta, que se propaga após o eclipse solar da virada milênio e destroi toda a esperança de que as experiências terríveis do século XX nunca mais se repetissem.

Mas, então, que convicções podem substituir as esperanças destruídas? Não seriam, talvez idéias de punições cíclicas, de desdobramentos inevitáveis, ainda que não inesperados – comparáveis, no texto, às frequentes catástrofes naturais[92] claramente provocadas pela ação do homem –, a serem infligidos às pessoas? Nada havia acontecido repentinamente, nada havia sido lançado de súbito nas pessoas como uma praga: já estava tudo lá há muito tempo, como a presença do passado no presente da própria percepção:

Ce n'était pas du jour au lendemain, tout était là et nous ne l'avions pas vu. Ou plutôt, nous l'avons vu mais sans vouloir y croire. Et le vide des rues, ce soir-là, était l'image de notre désertion des derniers temps. Ces régimes absolus qui semblaient destinés à des pays lointains où nous n'irions jamais ou qui semblaient appartenir définitivement à notre passé, allions-nous les connaître à notre tour? Y avait-il, dans l'histoire, une masse de dictature, toujours la même, à répartir entre les époques et les lieux, tour à tour sur tel continent ou dans telle capitale? Terminée la contemplation du malheur des autres en soupirant avec un peu de soulagement – c'est loin, ce n'est pas nous – avant de passer à autre chose et d'oublier. Désormais, ce seraient les autres qui nous plaindraient quelques instants et nous qui ne pourrions recueillir qu'un peu de compassion mais sans secours véritable.[93]

O retorno da ditadura, que acreditamos estar distante de nós no espaço ou no tempo, dá origem a imagens de um retorno periódico de regimes autoritários que se espalhariam uniformemente pela história e pelos continentes. Com certeza, a ditadura que agora se iniciou na França não tem um "chef unique" e é uma ditadura sem ditador[94]. Mas a transformação radical que provoca na sociedade anterior, a essencial fúria destrutiva que volta contra todo o passado-presente deixa claro que se vive há muito tempo sob as condições de uma ditadura onipresente, que busca acima de tudo e em primeiro lugar garantir e controlar os limites que estabeleceu.

A literatura que emerge em uma tal época não se transforma em um simples "manuel de survie en milieu ditatorial"[95]; mas os traços de um manual de sobrevivência em tempos ditatoriais são bastante perceptíveis na Destruction de Cécile Wajsbrot. Isso porque se trata de uma observação o mais precisa possível das mudanças nos âmbitos da linguagem e do comportamento, do discurso político e da ortografia, dos símbolos e dos rituais. A escrita literária registra as menores mudanças, os – para utilizar um conceito cunhado por Nathalie Sarraute ainda antes do início da Segunda Guerra Mundial – tropismos pouco perceptíveis[96], que se infiltram em todos os níveis de expressão e ação do povo. São frequentemente os tropismos que levam os indivíduos e as comunidades a ultrapassarem as fronteiras, incluindo as milhares de fronteiras entre a democracia e a ditadura.

Muito mais do que um manual de sobrevivência em tempos de início de ditadura, no entanto, a literatura cria um sistema artístico de alerta altamente diferenciado que interpela e analisa os sinais do tempo, do passado no presente, mas também do passado e do presente no futuro.

Isso porque as literaturas do mundo, desde suas origens multiculturais na Epopéia de Gilgamesh, desde suas formas líricas concentradas no chinês Shi-Jing, não apenas se voltam para o passado e sua memória, mas vão muito além da função de memória ao realizarem projeções dos possíveis futuros das sociedades, cujas mudanças são registradas com a maior precisão possível e  tornadas sensorialmente tangíveis em uma forma esteticamente condensada. As literaturas do mundo são vitais para nós hoje porque nos conscientizam do quanto são precárias, em qualquer momento, as certezas que nos permitimos cultivar ao longo de determinados períodos. Elas nos mostram não apenas retrospectivamente, mas, sobretudo, prospectivamente o quanto é importante estarmos atentos quando nos movemos em uma área limite, e, ainda mais, em um campo de tensão entre democracia e ditadura.

Seria um profundo erro fixar uma fronteira entre ditadura e democracia, entre democracia e ditadura. Nenhuma fronteira, nenhum muro, nada nos protege do imperceptível despontar de um passado que já não é, mas – como demonstra o paradigma de Jauss – não pode deixar de ser.

A multiplicação das fronteiras entre democracia e ditadura nos deixa claro, ao mesmo tempo, que constantemente podemos atravessar os múltiplos limites neste campo de tensão, sem que estejamos sempre cientes desse fato. Se o caso Jauss nos mostra não apenas o caso de Hans Robert Jauss, mas também, nos debates travados, o significado paradigmático deste caso em que se documentam sistemas de valores e projetos sociais estremamente distintos, então este caso se refere tanto à velocidade quanto à facilidade com que as pessoas podem se mover entre a pior barbárie e uma democracia do pós-guerra na qual a presença do passado se mantém atual. Isso porque o silêncio e o encobrimento da primeira vida sustentam sua presença na segunda vida, uma vez que nunca há um momento de reflexão pública e crítica,  há apenas o esforço em sufocar qualquer discurso capaz de trazer o passado à luz.

A tensão entre a primeira e a segunda vida do estudioso literário François mostra, no romance de Michel Houellebecq, até que ponto o deslize rumo a um sistema autoritário de base religiosa esteve sempre latente e precisava apenas manipular interesses, necessidades e satisfações específicas de alguns para levar um sistema democrático ao colapso e preencher, com significados tão inequívocos quanto tendenciosos, a sensação de falta de sentido de uma sociedade. A narradora do romance de Cécile Wajsbrot, por sua vez, nos trouxe aos olhos até que ponto a literatura é capaz de capturar sismograficamente as mudanças específicas que podem se definir quando as diversas fronteiras entre democracia e ditadura são extrapoladas.

O escritor argentino Julio Cortázar mostrou, em seu conto "Casa Tomada", contra o pano de fundo das ditaduras militares de seu país e de seu continente, as muitas pequenas violações de fronteiras e o fatal abandono dos espaços que, por fim, levam uma família, a abrir mão de espaço por espaço em sua casa, até ser completamente expulsa de sua moradia. Em uma representação gráfica desta narrativa [97], no final se evidencia como as palavras do narrador se transformam em pessoas despojadas de seu próprio lugar, sem, no entanto, saberem quando tudo começou. Uma vez concluída a expulsão da casa, os muitos limites são transformados em uma demarcação estável da exclusão. Só então as fronteiras se fecham e se torna uma catástrofe aquilo que começou com uma infiltração quase imperceptível. No momento em que essa inserção se torna massiva e a velha barbárie ganha novo impulso, a tarefa da literatura e dos estudos literários vem à tona.

Desta forma, percebemos como o poder prospectivo das literaturas do mundo torna sempre a nos revelar com toda a clareza o quanto algo supostamente remoto no espaço e no tempo está próximo e o quanto é importante estarmos vigilantes em evitar, por meio da atitude crítica, o retorno daquilo que está reprimido, que desapareceu apenas em aparência. Afinal, aquilo que não é mais, uma vez já foi um futuro passado e carrega, ainda e sempre, essa potencialidade precisamente naquilo que nunca pode deixar de ser. No vivo, interativo arquivo e arquipélago das literaturas do mundo, dispomos, através das culturas, através dos milênios, através das línguas e das formas de governo, de um saber sobre a vida que está aberto ao presente e ao futuro e que se constitui na tarefa da ciência literária. Os futuros da literatura – muito além de Jauss, muito além de François – são também o futuro de uma filologia, cuja tarefa mais uma vez se demonstra tão vital quanto o saber sobre o viver e o saber sobreviver.

 

Tradução: Me. Marianna Ilgenfritz Daudt (Doutoranda em Literatura Comparada pela UFRGS)

Revisão: Prof. Dr. Gerson Roberto Neumann (UFRGS)

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_____. Hans Robert Jauß. Jugend, Krieg und Internierung. Konstanz: Konstanz University Press 2016.

 

Submetido em 02/01/2019
Aceito em 30/03/2019


Notas

[2] Para mais detalhes vide: Ette, Ottmar: Beschleunigung. Kann die Globalisierung ein Ende nehmen? In: Kaube, Jürgen / Laakmann, Jörn (Hg.): Das Lexikon der offenen Fragen. Stuttgart: Verlag J.B. Metzler 2015, p. 32-33.

[3] Adorno, Theodor W.: Minima Moralia. Reflexionen aus dem beschädigten Leben. In (id.): Gesammelte Schriften. Vol. 4. Frankfurt am Main: Suhrkamp 1980

[4] Fassin, Didier: Das Leben. Eine kritische Gebrauchsanweisung. Frankfurter Adorno-Vorlesungen 2016. Übersetzt von Christine Pries. Berlin: Suhrkamp 2017, p. 15. Tradução do alemão.

[5] Auden, W.H.: The Age of Anxiety. A Baroque Eclogue (1947). Princeton: Princeton University Press 2011.

[6] Sobre o perigo potencial dos discursos de identidade, ver o subcapítulo »Die Logik des Weder-Noch und die Zeit der »Täten« in Ette, Ottmar: Literatur in Bewegung. Raum und Dynamik grenzüberschreitenden Schreibens in Europa und Amerika. Weilerswist: Velbrück Wissenschaft 2001, p. 467-475.

[7] Klemperer, Victor: LTI. Notizbuch eines Philologen. Leipzig: Reclam 151996.

[8] Fassin, Didier: Das Leben. Eine kritische Gebrauchsanweisung, p. 10.

[9] Ibid., p. 181.

[10] Cf. Ibid., p. 20.

[11] Cf. Agamben, Giorgio: Homo sacer. Die souveräne Macht und das nackte Leben. Aus dem Italienischen von Hubert Thüring. Frankfurt am Main: Suhrkamp 2002, p. 193-195.

[12] Ibid., p. 22.

[13] Perec, Georges: La Vie mode d'emploi. Paris: Hachette 1978.

[14] Cf. Ette, Ottmar: Viellogische Philologie. Die Literaturen der Welt und das Beispiel einer transarealen peruanischen Literatur. Berlin: Verlag Walter Frey – edition tranvía 2013.

[15] Cf. Ette, Ottmar:             ÜberLebenswissen. Die Aufgabe der Philologie. Berlin: Kulturverlag Kadmos 2004; ZwischenWeltenSchreiben. Literaturen ohne festen Wohnsitz (ÜberLebenswissen II). Berlin: Kulturverlag Kadmos 2005; ZusammenLebensWissen. List, Last und Lust literarischer Konvivenz im globalen Maßstab (ÜberLebenswissen III). Berlin: Kulturverlag Kadmos 2010.

[16] Elaboro uma abordagem semelhante sobre a interligação entre estudos de caso e Literatura no nono e último capítulo, "Differenz Macht Toleranz. Acht Thesen und der Versuch eines Dialogs zwischen Wissenschaft und Politik" de Ette, Ottmar: ÜberLebenswissen (2004).

[17] Ver, entre outros: Westemeier, Jens: Hans Robert Jauß, 12.12.1921 Göppingen – 01.03. 1997 Konstanz: Jugend, Krieg und Internierung. Wissenschaftliche Dokumentation. Geiselhöring, im Mai 2015. Universität Kostanz: Homepage 2015 <http://www.aktuelles.uni-konstanz.de/presseinformationen/2015/48>; ders.: Hans Robert Jauß. Jugend, Krieg und Internierung. Konstanz: Konstanz University Press 2016; sowie Ette, Ottmar: Der Fall Jauss. Wege des Verstehens in eine Zukunft der Philologie. Berlin: Kulturverlag Kadmos 2016.

[18] Westemeier, Jens: Jugend, Krieg und Internierung, p. 19.

[19] Ibid., p. 22-26.

[20] Ibid., p. 82.

[21] Westemeier, Jens: Kindheit, Jugend und Internierung, p. 109.

[22] Ibid.

[23] Apud, Ibid.

[24] Apud, Ibid.

[25] Cf. o capítulo “Eine unablässige Arbeit am Leben(-Schreiben)” in Ette, Ottmar: Der Fall Jauss, p. 31-43.

[26] Jauss, Hans Robert: »L'étrangeté radicale de la barbarie nazie a paralysé une génération d'intellectuels« (6.9.1996).

[27] O romancista Gerhard Hess em 1950-1951 foi reitor da Universidade de Heidelberg e presidente da influente Conferência de Diretores da Alemanha Ocidental, de 1955 a 1964 foi Presidente da Fundação Alemã de Pesquisa DFG e, a partir de 1964, foi presidente do comitê fundador da Universidade de Constança, da qual foi reitor de 1966 a 1972.

[28] Cf. Boden, Petra / Zill, Rüdiger (Org.): Poetik und Hermeneutik im Rückblick. Interviews mit Beteiligten. Paderborn: Wilhelm Fink Verlag 2017.

[29] Neuschäfer, Hans-Jörg: Erich Auerbach im Kontext der Zeit. Mit einem Rückblick auf Heidelberg in den Fünfzigern. In: Bormuth, Matthias (Org.): Offener Horizont. Jahrbuch der Karl Jaspers-Gesellschaft (Göttingen) I (2014), p. 219.

[30] N.N.: Carta de 28.10.2016, p. 6.

[31] Ibid.

[32] Ibid.

[33] Schlaffer, Hannelore: Hans Robert Jauß. Kleine Apologie. In: Merkur 805 (Juni 2016), p. 79.

[34] Ibid., p. 84. Tradução do alemão.

[35] Cf. Buschinger, Danielle / Rosenstein, Roy (Hg.): De Christine de Pizan à Hans Robert Jauss. Etudes offertes à Earl Jeffrey Richards par ses collègues et amis à l'occasion de son soixante-cinquième anniversaire. Amiens: Presses du «Centre d'Etudes Médiévales de Picardie» 2017.

[36] Ibid., p. 79.

[37] Cf. Neuschäfer, Hans-Jörg: Erich Auerbach im Kontext der Zeit. Mit einem Rückblick auf Heidelberg in den Fünfzigern, p. 219.

[38] Ibid., p. 220.

[39] Ibid.

[40] Ibid.

[41] Ibid.

[42] Cf. Ette, Ottmar: Der Fall Jauss p. 143.

[43] Cf. Schuller, Wolfgang: Anatomie einer Kampagne. Hans Robert Jauß und die Öffentlichkeit. Leipzig: Leipziger Universitätsverlag 2017.

[44] Esta metáfora está presente na resenha inteiramente positiva do especialista em Gaddis, Ingenday, Paul: Die Universität als Pranger. Heimlichkeiten statt Transparenz: Wolfgang Schuller über die postumen Debatten um seinen ehemaligen Konstanzer Kollegen Hans Robert Jauß. In: Frankfurter Allgemeine Zeitung (Frankfurt am Main) 4 (5.1.2018), Feuilleton p. 10. Outras críticas positivas, como pode ser percebido no sistema de Jauss, já foram publicadas.

[45] Para maiores detalhes, bem como para o contexto histórico detalhado, vide: Olender, Marucie: Race sans histoire. Nouvelle édition. Paris: Galaade 2009.

[46] Cf. Jauss, Hans Robert: »L'étrangeté radicale de la barbarie nazie a paralysé une génération d'intellectuels« (6.9.1996).

[47] Houellebecq, Michel: Soumission. Roman. Paris: Flammarion 2015, p. 11.

[48] Ibid., p. 13.

[49] Cf. o capítulo »Renouveau du réalisme?« in Schober, Rita: Auf dem Prüfstand. Zola – Houellebecq – Klemperer. Berlin: Walter Frey 2003, p. 195-207.

[50] Diop, Ibou Coulibaly: Mondialisation et monde des théories dans l'oeuvre de Michel Houellebecq. Mit einer ausführlichen deutschsprachigen Zusammenfassung. Berlin: Verlag Frank & Timme 2018, p. 7.

[51] Ibid. Esta teoria da vida ocorre quase involuntariamente (p. 155).

[52] Houellebecq, Michel: Der Tod ist nicht auszuhalten. Interview von Iris Radisch. In: Die Zeit (Hamburg) (23.1.2015).

[53] Houellebecq, Michel: Soumission, p. 13.

[54] Cf. Ette, Ottmar: Welterleben / Weiterleben. On Vectopia in Georg Forster, Alexander von Humboldt, and Adelbert von Chamisso. In: Daphnis (Amsterdam) 45 (2017), p. 343-388.

[55] Diop, Ibou Coulibaly: Mondialisation, p. 14.

[56] Cf. Ette, Ottmar: WeltFraktale. Wege durch die Literaturen der Welt. Stuttgart: J.B. Metzler Verlag 2017.

[57] Houellebecq, Michel: Soumission, p. 17,

[58] Ibid.

[59] Ibid., p. 69.

[60] Sobre a normalidade do estado de exceção vide: Agamben, Giorgio: Stato di eccezione. Homo sacer, II, 1. Torino: Bollati Boringhieri 2003.

[61] Houellebecq, Michel: Soumission, p. 74.

[62] Ibid., p. 108-113.

[63] Schober, Rita: Auf dem Prüfstand, p. 260.

[64] Houellebecq, Michel: Soumission, p. 185.

[65] Ibid., p. 185.

[66] Barthes, Roland: L'Empire des Signes. Paris – Genève: Flammarion – Skira 1970.

[67] Barthes, Roland: Système de la Mode. Paris: Seuil 1967.

[68] Houellebecq, Michel: Soumission, p. 268.

[69] Ibid. p. 269.

[70] Ibid., p. 315.

[71] Ibid.

[72] Ibid.

[73] Cf. a coletânea dedicada à autora por: Böhm, Roswitha / Zimmermann, Margarete (Org.): Du silence à la voix. Studien zum Werk von Cécile Wajsbrot. Göttingen: F&R unipress 2010.

[74] Wajsbrot, Cécile: Conversations avec le maître. Paris: Editions Denoël 2007.

[75] Wajsbrot, Cécile: L'île aux musées. Paris: Editions Denoël 2008. Cf. Ette, Ottmar: Cécile Wajsbrot: »L'Ile aux musées« oder die verborgenen Choreographien der Anwesenheit. In: Böhm, Roswitha / Bung, Stephanie / Grewe, Andrea (Org.): Observatoire de l'extrême contemporain. Studien zur französischsprachigen Gegenwartsliteratur. Tübingen: Gunter Narr Verlag 2009, p. 257-270.

[76] Wajsbrot, Cécile: Sentinelles. Paris: Christian Bourgois 2013.

[77] Wajsbrot, Cécile: Totale éclipse. Paris: Christian Bourgois 2014.

[78] Wajsbrot, Cécile: Destruction. Mir liegt eine noch unveröffentlichte Manuskriptfassung der Autorin vor.

[79] Cf. Ette, Ottmar: Urbanität und Literatur. Städte als transareale Bewegungsräume bei Assia Djebar, Emine Sevgi Özdamar und Cécile Wajsbrot. In: Messling, Markus / Läpple, Dieter / Trabant, Jürgen (Org.): Stadt und Urbanität. Transdisziplinäre Perspektiven. Berlin: Kulturverlag Kadmos 2011, p. 221-246.

[80] Cf. Kristeva, Julia: Soleil noir. epression et mélancolie. Paris: Gallimard 1987.

[81] Wajsbrot, Cécile: Destruction, p. 21 f.

[82] Ibid., p. 36.

[83] Ibid., p. 122.

[84] Cf. a nova edição de Halbwachs, Maurice: La mémoire collective. Paris: Albin Michel 1997.

[85] Ibid., p. 48.

[86] Benjamin, Walter: Über den Begriff der Geschichte. In (ders.): Gesammelte Schriften. Band I, 2. Herausgegeben von Rolf Tiedemann und Hermann Schweppenhäuser. Frankfurt am Main: Suhrkamp 1980, p. 695.

[87] Ibid., p. 697. (Tradução do alemão de João Barrento: O Anjo da História. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012)

[88] Ibid., p. 127.

[89] Ibid., p. 133.

[90] Ibid., p. 165.

[91] Cf. http://www.stiftung-evz.de/fileadmin/user_upload/EVZ_Uploads/Pressemitteilungen/MEMO_PKfinal_13.2.pdf (S. 14). Stimme eher zu = 26%; stimme stark zu = 22%. Dr. Jonas Rees, Prof. Dr. Andreas Zick: Trügerische Erinnerungen. Wie sich Deutschland an die Zeit des Nationalsozialismus erinnert. Uni Bielefeld 2018.

[92] Sobre a semântica das catástrofes naturais, vide:  Ette, Ottmar: Carnival and other Catastrophes. New Orleans: A Global Archipelago. In: Ette, Ottmar / Müller, Gesine (Org.): New Orleans and the Global South. Caribbean, Creolization, Carnival. Hildesheim – Zürich – New York: Georg Olms Verlag 2017, p. 15-67.

[93] Ibid., p. 55.

[94] Ibid., p. 119.

[95] Ibid., p. 112.

[96] Cf. Sarraute, Nathalie: Tropismes. Paris: Denoël 1939.

[97] Cortázar, Julio: Casa Tomada. diseño gráfico por Juan Fresán. Buenos Aires: Ediciones Minotauro 1969.

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